Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Para comemorar o nascimento

José Pimentel de Amorim

É velha prática comemorar-se o nascimento de uma criança com o cachimbo, bebida muito usada, mistura de aguardente com mel de abelha. Como quer que se comemore, é o cachimbo. A parteira informa que a parida também pode tomar da festejada bebida, e umas fazem questão formal de usar porque serve para "fechar o corpo", e assim estão livres de qualquer mal que possa a vir em conseqüência do parto. Existem as que só trocam de roupa após o parto quando tomam o cachimbo. Não são poucas as que repetem as doses e de tanto repetir terminam por se embriagar, "e riem, e choram, e se lastimam, mas tudo por efeito da cachaça".

É prática muito comum logo que a mulher se despache tomarem o cachimbo ela e o marido, dando início, assim, à comemoração. Vantagem igualmente apresentada é a de fazer "vir mais cachimbo" (nova gravidez) e livra da dor de mulher que se segue ao parto. Há paridas que usam toda a garrafa, em doses diárias, substituindo a famosa Água Inglesa. Uma informante asseverou que toda a vez que dá à luz sente forte dor e só passa quando toma grande quantidade de cachimbo até que se embebeda e dorme. Informou ainda, que quando está de resguardo bebe e nada sente, e o curioso é que fora do resguardo não tolera nenhuma bebida porque toda ela ofende.

Joaquina Mendes diz que o cachimbo puro não é recomendável, e para que a parida possa tomar, podendo até ser durante todo o resguardo, junta uns ingredientes: sena, pecaconha, cebola branca, arruda, cominho, alfazema, alecrim, erva doce. Nada de juntar limão. Limão é um veneno para uma parida. Um doutor quis mostrar que limão não é ofensivo e mandou que a parteira desse um ponche que uma parida ia tomar. A assistente não se aventurou e o médico colocou então três pingos de limão na garapa. Logo que tomou, a mulher sentiu dor na barriga, e em todo parto que se seguiu foi acometida da dor de mulher e, concluiu a parteira, só pode ter sido o limão.

 

(Amorim, José Pimentel de. Medicina popular em Alagoas. Maceió, Departamento Estadual de Cultura, 1963 (Estudos Alagoanos, 19), p.116-118)
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