Quando nos referimos à comida — tantas vezes citada, direta ou indiretamente, no cancioneiro popular — não estamos aludindo, com certeza, a possíveis hábitos de requintada gastronomia adquiridos por leitores de Marcelino de Carvalho (A nobre arte de comer, Companhia Editora Nacional) nem a discípulos fiéis de A. da Silva Melo, que ensina O que devemos comer (Editora Civilização Brasileira) a quem mal sabe o que pode comer. Referimo-nos na trilha (sonora) de nossos compositores, à comida no seu sentido mais imediatista, mais prático, mais objetivo: o pão de cada dia, o trivial do sustento da família, o feijão como esteio da felicidade.
Tirante Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago — a única mulher no mundo que achava bonito não ter o que comer — há sempre, desde que se compõe neste país, uma queixa, uma alegação, um louvor, um apelo em torno do prato de comida.
A fome é antiga: No Trovador popular moderno lançado em décima edição, em 1912 pela Livraria Teixeira, de São Paulo, Pedro Luis Masi, na sua Antologia da serenata (Organização Simões Editora), colheu estes versos de autor anônimo na canção O vago mestre:
Pra mim é bastante
Comer uma vez
Pra casa não levo
Nenhum desaforo
Freqüento as cadeias
Três vezes por mês
Estes versos, aliás, lembram Noel em João Ninguém, uma das derradeira composições que alimentaram sua polêmica com Wilson Batista:
João Ninguém, que não é velho nem moço
Come bastante no almoço
Pra se esquecer do jantar
A rigor, se fossemos empreender uma pesquisa em profundidade para destacar a atração nacional pela mesa, teríamos que dar prioridade, por ordem cronológica, a grupos etários mais indefesos — aos lactentes, por exemplo. Assim, começaríamos o nosso trabalho com Jararaca:
Mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero mamar.
Mas, não é bem o caso. O que nos impressiona um pouco é a verificação do alto conceito em que é tida a comida por esses legítimos intérpretes do sentimento popular, que são nossos compositores. Vejamos este trecho de um tango brasileiro, cujos autores e título ignoro:
... E se algum dia estiveres sem guarida
E precisares de algum prato de comida
Podes chegar que eu estarei ao teu dispor
Embora saiba que já é morto o nosso amor
Por aí se pode deduzir que é mais importante uma mulher bem nutrida do que bem-amada. É certo que por se tratar de um tango (e esse ritmo não é o fraco dos brasileiros) os versos citado sofrem uma indisfarçável influência portenha. Ocorre-me a letra de Mano a Mano de Celedônio E. Flores, onde há referência a gato malo contra el mísero raton (sempre a comida!), e em cujo final, embora sem referência direta à dispensa, o protagonista da canção se prontifica a dar à amada toda a assistência moral e material:
... Si te hace falta una ayuda
Se precisas uns consejo
Acuerdate de este amigo
Que ha de jugares el pellejo
Pa ayudarte en lo que pueda
Quando llegue la ocasion.
Mas na Argentina a comida é farta. No seu exaustivo ensaio sobre Las letras del tango (Editorial Schapire, Buenos Aires), Idea Vilarino enumera com precisão as variantes da temática do tango: abandono, traição, vingança, partidas e retornos, a mulher fatal, mãe, filhos ingratos ou pródigos, os que triunfam e os que fracassam, os bairros, as ruas, cidades e pouco mais. Na sua Psicopatologia del Tango (Editorial Sopaus, Buenos Aires), Roberto Puertas Cruse mergulha com mais profundidade na análise dessa temática, concluindo que a prevenção contra a mulher no tango procede da luta entre sexos que cresce com a necessidade recíproca de afirmação. O nervosismo do ritmo ele justifica com a natureza do homem tropical, sujeito sempre à instabilidade climática e aos contrastes violentos da paisagem. A alimentação, fácil e rotineira, não preocupa os compositores buenaierenses, muito menos os das províncias.
Fome como rotina
Nós, entretanto padecemos de uma fome crônica. Recentemente, numa demonstração de grande personalidade. Maria Betânia trouxe-nos de volta algumas melodias meio cafonas, mas muito de perto identificadas com o sentimentalismo brasileiro, como Lama, de Paulo Marques e Alice Chaves. Antes da empolgante interpretação (Quem foste tu. Quem és tu.), ela evoca o passado, sem fugir à indefectível obsessão:
Comendo a mesma comida,
Bebendo a mesma bebida...
Noel Rosa, numa de suas peças mais poéticas (Último desejo), não se peja de terminar desta forma prosaica:
... Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou para mim
Queiram relevar, se no decorrer deste trabalho, nem sempre estou em condições de identificar títulos e autores de certas peças. Sou um diletante no gênero. Lembro-me, por acaso, de uma canção em que o compositor põe contraste à sua vida miserável com a da amada, que melhorara de poder aquisitivo. Diz ele, na sua lamentação:
Tu, hoje, és mulher de luxo
Tens bangalô com repuxo
Criadas, leiteiro e pão
Tens quartos cheios de enfeite
E, às vezes, eu roubo o leite
Que encontro no teu portão
O binômio leite-pão, reivindicado de maneira tão ingênua e comovedora,serve aos meus propósitos. Testatur haec fabela propoositum meum (não pensem que sei latim, mas decorei algumas fábulas de Esopo no Colégio Marista). O trecho citado é de Vaca et capela, Ovis et Leo. Vaca é a própria, capela é cabra, ovis é ovelha e leo, no conceito do fabulista, não é somente leão: é a força da prepotência, a lei do mais forte. Leiam essa fábula.
Mas, voltando à vaca fria: em No tempo de Noel Rosa (Livraria Francisco Alves), Almirante refere-se a uma paródia de Lamartine Babo a versos de Júlio Dantas, no poema musicado A eterna canção:
Passo pelo Pascoal, que cheiro de pastéis!
Sinto logo vontade de comer uns dez
Mas tenho no bolso apenas três tostões
E moro em Botafogo, no largo dos Leões...
Eu já ouvira isso, há muitos anos, em São Luís, através do cômico Canelinha, já falecido. Havia variantes nos versos:
Passei pela casa do Pascoal
Vi um bando de pastéis
Me deu logo vontade de entrar
E de comer logo uns dez
A casa a que se refere o autor deve ser naturalmente a Confeitaria Pascoal, que ficou nos anais literários com alguma fama, não tanto como a Colombo, mas, pelas mesmas razões: pela freqüência assídua de intelectuais que decantavam, em prosa e verso, ao molho ou ao vinho, com o mesmo entusiasmo, as melindrosas da década de 20 e as guloseimas contemporâneas.
A mesma experiência é revelada pelos compositores Roberto Martins, Mário Rossi e Roberto Roberti na marcha carnavalesca Roberta, arrolada por Edgar de Alencar na sua importante obra O carnaval carioca através da música (Editora Freitas Bastos, dois volumes):
Eu hoje vou chegar
Cansado do serão
Guarda pra mim
Uns pastéis de camarão
Em alguns casos, a preocupação pela comida se revela a priori, antes da ligação afetiva, com ou sem sacramentos. É o caso de Emília, de Wilson Batista e Haroldo Lobo:
Quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar.
A exigência é bem característica do brasileiro. Antes de mais nada, a boa esposa (ou boa companheira) deve saber lidar com as panelas, de acordo com os nossos conceitos patriarcais.
A preocupação com a comida é permanente. Mesmo naquele samba antigo, em que o folião espera a sua fantasia para cair na farra, ela está presente:
Cadê Joana, que não vem com a roupa!
E Mariana, que não traz a minha sopa
Não posso mais esperar, estou aflito
Onde esta o meu apito! O meu apito!
Nos casos de infidelidade conjugal, decantada musicalmente, embora sem o ímpeto melodramático do tango, manifesta-se a preocupação nacionalíssima pelos gastos com a manutenção da família. Herivelto Martins, numa das muitas canções que compôs, em debate público com Dalva de Oliveira, lastima-se desta forma:
Acredite, é muito fácil julgar
A infelicidade alheia
Quando a casa não é nessa
E é outro que paga a ceia.
Sem qualquer dramaticidade há também os gaiatos que se gabam de haver participado de opíparos ágapes, com suculentos acepipes muito bem condimentados, ou malandros que, humildemente, se jactam de haver vislumbrado um meio de preencher a lacuna estomacal. Vem-me a propósito estes versos:
Mas subi na pensão de dona Estela
E comi muito tutu
De feijão feito por ela.
Não recordo o começo da canção, mas a adversativa dá a entender que o seu protagonista está indo à forra de alguma fome recente.
Humor social
O nunca assaz citado Noel Rosa, se às vezes (poucas) fazia incursões pelo mau gosto, pintou com uma agilidade admirável, em Conversa de botequim, o retrato do malandro carioca, nos saudosos tempos do café sentado. Nessa composição, de aparência puramente humorística, Noel faz uma crônica de costumes irretocável. Reparem que ele soube retratar o malandro sem cair na tentação de colocar em sua boca qualquer expressão de gíria. As gírias passam, em sua maioria. Mas os maneirismos, a bossa, os macetes, esses são eternos. O tipo retratado nessa canção ainda existe hoje em dia. Ele não se abanca mais no boteco para almoçar uma boa média que não seja requentada e um pão bem quente com manteiga à beça, simplesmente porque já não há mesas nem cadeiras nos cafés. Hoje, ele almoça de pé. Se sua vida melhorou come hotdog no Bob's. Se ficou na mesma, vai de média mesmo.
Voltei a falar em Noel porque nele, como em Chico Buarque de Holanda (vide Pedro pedreiro, a participação não é acintosa, insidiosa, industrializada, como ocorre com alguns compositores em voga, mais preocupados sem dúvida em proclamar que são povo do que em fazer algo realmente pelo povo. Talvez pareça ridículo citar Jesus Cristo nos tempos que correm, mas me parece oportuna esta citação: "Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles — doutra sorte não sereis remunerados pelo vosso pai, que está nos céus. Quando deres esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a direita para que a tua esmola fique em segredo" (Mateus).
Eneida, com o seu faro de expert, sentiu isso ao incluir, entre músicas de protesto, no show Carnavália a poética. O orvalho vem caindo, de Noel Rosa e Kid Pepe, por ela catalogada entre as canções populistas. Ao mesmo tempo em que exalta a natureza (e as estrelas vão surgindo, uma a uma, lá no céu), Noel nos põe, cara a cara, com o drama do miserável, que dorme nos jardins públicos:
A minha sopa não tem osso nem tem sal
Se um dia passo bem, dois ou três passo mal
E faz o breque, valendo-se da resignação, aparentemente cínica, do pobre diabo:
Isso é muito natural...
Não sei se os senhores chegaram a assistir, tempos atrás, no teatro Santa Rosa, ao show admirável de Ari Toledo, que é um intérprete genial. Paulista, passou alguns anos no Ceará e captou não só — como Inezita Barroso sabe fazê-lo com tanta graça — o sotaque nordestino, mas sobretudo o sentimento do homem do sertão. Surpreendeu-me saber que eram de um poeta metropolitano como Vinicius de Morais os versos de pau-de-arara, cantados por Ari Toledo:
Quando eu via toda aquela gente
No come que come
Eu juro que tinha uma saudade da fome
Da fome que eu tinha no meu Ceará
Aposto que Roberto Martins e Wilson Batista jamais leram Hebert Marcuse e, no entanto, são de sua autoria estes versos no clássico O pedreiro Valdemar:
Leva a marmita embrulhada no jornal
Se tem almoço, nem sempre tem jantar.
Luís Antônio (Lá vem o Pedro das Flores...) e Jota Júnior dão ênfase ao tema de Conversa de botequim, de Noel, ao constatarem que:
Sapato de pobre é tamanco, almoço de pobre é café.
O mesmo Luís Antônio, de parceria com o inquieto Brasinha, pinta o retrato do trabalhador na construção civil em Zé Marmita:
Numa lata, Zé Marmita
Traz a bóia que ainda sobrou do jantar
Meio-dia, Zé Marmita
Faz o jogo para a comida esquentar
E o Zé Marmita, barriga cheia
Esquece a vida, num bate-bola de meia.
Essa marmita, símbolo das dificuldades do operário, da modesta comerciária, do caixeiro anônimo, adquiriu, desde os tempos de Vargas, um sentido pejorativo. Marmiteiro passou a ser sinônimo de pelego. E a marmita, por extensão, passou a significar negociata, propina, cambalacho. É com esse sentido que João de Barro e Antônio Almeida usam a expressão com muita malícia, em A mulata é a tal. Referindo-se à dita, informam os compositores:
Quando ela passa, todo mundo grita:
— Estou aí, nessa marmita!
Marmita equivale assim à boca, na acepção em voga ainda hoje. Em galanteio pouco sutil a uma mulher (Ovídio não recomendaria essa fórmula, na sua A arte de amar) entende-se quando o galã improvisado inquire a transeunte: "Estou aí nessa boca?"
Mas, para contrabalançar a fome, há uma legião enorme de brasileiros que recorrem à bebida, esquivando-se de compromissos e responsabilidades com a problemática do país. Alguém já observou que todas as crises do Brasil são esvaziadas no carnaval. Os compositores Mirabeau Pinheiro L. de Castro e H. Lobato confirmam a tese no texto deste gravíssimo pronunciamento:
Pode me faltar tudo na vida
— arroz, feijão e pão —
Pode me faltar manteiga
Que isso não faz falta, não
Pode me faltar o amor
(disso até eu acho graça...)
Só não quero é que me falte
A danada da cachaça.