Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

Arrependimento: versos de cururu

Divulgamos, de autoria do poeta popular e cururueiro Mingo Pedro (que forma dupla de cururu com Gumercindo Costa, residente em Capivari (São Paulo), o seguinte poema:

Arrependimento

Viola, minha alegria,
Sua voz é muito macia, depois da Ave Maria

Quando começo tocá,
Faz dolorar minha saudade, lembrando da mocidade, na maior felicidade

Quando comecei cantar
Sempre trago na lembrança, do bão tempo de criança, nunca mais há de vortá

*

Eu tenho recordação
Quando passo no sertão, numa tarde de verão

O cantar do sabiá
O cantar dos passarinhos, faz lembrá de um amorzinho, quando eu fiquei mocinho

Que peguei a namorá
A morena deu firmeza, mais linda da redondeza, nunca vi uma coisa iguá

*

Um dia de quinta-feira
Essa cabocla traiçoeira, me falou dessa maneira:

O namoro tá acabado
Foi um golpe doloroso, por eu ser tão amoroso, na hora fiquei nervoso

Com meu coração magoado
Referi no mesmo instante, por você ter outro amante, que me trouxe abandonado

*

Depois que ela se casou
E muito tempo passou, a sorte não ajudou

O seu querido morreu
Acabou sua beleza, em uma cruel pobreza e chorando de tristeza

Um dia me apareceu
Veio me pedir perdão, quem fez ingratidão, hoje em dia arrependeu

*

Eu não pude dizer nada
Você mesmo é culpada, hoje vive pela estrada

Tá pagando o que me fez
Coração tinha outro dono, hoje eu não me apaixono, me deito pego no sono

Esqueci daquela vez
A morena que eu queria, neste mundo certo dia, chora mais do que eu chorei

 

("Arrependimento". O Tempo. São Paulo, 17 de agosto de 1958, primeiro caderno, p.12)