Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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Trovas bordadas em lenços

Guilherme Santos Neves

O eminente polígrafo português, Cláudio Basto — que também se deu ao estudo do folclore e da etnografia — escreveu na Revista Lusitana (nº 25, Lisboa, 1925, p.170 e seguintes), interessante estudo sobre o lenço, em artigo mais amplo denominado "Silva etnográfica".

À página 171, depois de falar acerca de bordados rústicos, à lã de cores, em lenços (corações, borboletas, ramos e vasos de flores), nomes próprios e comuns (Maria, amizade), expressões (Amar só a ti, Não me deixes etc.); depois de referir um passo de Camilo Castelo Branco, em que se faz menção a um lenço que "tinha no centro um coração com muitos aleijões, atravessado por uma flecha que a caprichosa bordadeira deixava ver em todo o seu comprimento, de modo que parecia uma seta grudada ao coração" (Coração, cabeça e estômago, 3ª ed. Lisboa, 1907, p.219) — focaliza Cláudio Basto o caso dos "lenços bordados a ponto-de-cruz, isto é, marcados". E escreve: "Em um desses lenços, com bicos (renda embicada, na margem) e entremeios de renda, lê-se (em cinco quadrados encaixados uns nos outros, cada linha corresponde a um lado do respectivo quadrado):

1.
Quando te berei meu bem
Meu amor, minha alegria
Alibio do meu pensamento
Quando será esse dia

2.
Este lencinho bem bonito
Foi prenda do meu amor
Para eu levar na mão
Se domingo à missa for

3.
Em as vossas mãos menina
Eu vejo todo o valor
Minhas falas vos convidam
Para que sejais o meu amor

4.
Até à morte
Meu amor
Estrela do Norte
Por ti suspiro"

Segue-se a data e as iniciais: "Março / M.E.D.M./ Ano/ 1893"

O assunto é, evidentemente, folclórico. Primeiro, porque repete uma velha tradição — a de bordar lenço — atendendo a um impulso lírico, o de extravasar, no lenço-presente, os sentimentos do bordadeiro apaixonado (porque, no caso, trata-se de um coió...). Segundo, porque embora os versos não sejam propriamente anônimos (e hoje em dia o anonimato nem sempre é característica essencial do fato folclórico) — guardam eles a tradição das cópias ou trovas do povo, com a sua medida septissilábica (por vezes estropiada) e o tipo da rima (consoante) ABCB, das quadras populares.

Cita, ainda, o autor mais uma quadrinha que encontrou noutro lenço bordado:

Quando te darei . meu . bem
Meu. amor. minha . alegria
Alibio. do meu. pen.samento
Quando. será. esse. dia

(Note-se o chorrilho de pontos que separam as palavras — e até elementos de palavra, como o pen.samento), tão comum na grafia semi-analfabeta dos dísticos e legendas dos nossos caminhões)

Mas, a que veio hoje este assunto dos lenços bordados? Eu conto!

Lendo esta página de Cláudio Basto, lembrei-me de um velho lenço que já andou por minhas mãos há tempos, lenço branco de cambraia, bordado a cores nos quatro cantos. Esses bordados representavam também trovas, como as de que fala o ilustre etnólogo português.

Não tenho comigo o lenço (e é uma grande pena), mas posso transcrever aqui as quadrinhas, bordadas também com aquele estropiamento natural, que se vê nas referidas trovas lusitanas. Ei-las:

Conte bem todas as letras.
Que preenche este quadro.
Cada letra he hum suspiro.
Que eu por ty tenho dado.

Acceite ó caro objeto.
De minha amisade esta lembrança.
Que ti envia quem protesta.
Amar-te sempre sem mudança.

Receba este lenço amado.
Mas si teu peito mudar.
Eu ti peço q. não deiche.
Ninguém dele si gozar.

Vai thi lenço venturozo.
Em chugar rosto mimozo.
Vai gozar do q. eu não gozo.
Grande couza é ser ditozo.

Observe-se, além das cacografias (perdoáveis a quem o amor cegava), o uso dos pontos em fim de verso, e aquela forma monorrima da última quadra — todos os versos terminados em ozo, — rima rara na poesia popular.

Não sei se a leitora ou o leitor estão interessados em saber a quem pertence esse lencinho bordado.

De qualquer modo: o dono do lenço é o senador Carlos Lindenberg, que não mo quis ou não mo pôde oferecer. E com isso, perdeu a Seção de Folclore do nosso Museu Capixaba, uma preciosíssima peça, de alto valor etnográfico — peça que data, segundo informação do seu possuidor, do ano de 1850, mais ou menos.

 

(Neves, Guilherme Santos. "Trovas bordadas em lenços". A Gazeta. Vitória, 15 de agosto de 1957)
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