Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Maio 2005 - nº 78 - Ano VII


Sumário

Festança

Tambor de crioula
Domingos Vieira Filho

Festa do Divino
Francisco Pati

A festa da cumieira
Guilherme Santos Neves

Cancioneiro

Saruá
Carlos Devtnelli

Saudação aos noivos

Martelos de Rufino, por Hermógenes Lima Fonseca

Imaginário

O moço que deixou de jogar
Lindolfo Gomes

Três Deus fez
Lindolfo Gomes

Contos de adivinhação
Fausto Teixeira

Colher de Pau

Manual de cozinha
Amadeu Amaral

Cajus
Alfredo de Carvalho

Culinária tradicional goiana
Iara Barbosa Navas

Oficina

A viagem do boiadeiro
Deise Sabbag

Um mercado original funciona em Taubaté
Almir Gajardoni

A cerâmica utilitária de São Sebastião
Oswald de Andrade Filho

Palhoça

O lenço
Júlia Lopes de Almeida

Idalino, tipo popular
Manoel Higino dos Santos

Tirar o chapéu

Panacéia

Os maronitas
João do Rio

Padre nosso pequenino...
Guilherme Santos Neves

Fanatismo religioso
Edigar de Alencar

Veja o que foi publicado em Panacéia
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Panacéia
Textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Padre nosso pequenino...

Guilherme Santos Neves

Dentre as orações que o povo contritamente reza, implorando os favores do Céu, está o conhecido Padre Nosso pequenino, oração dirigida ao Menino Deus que, na fé e simplicidade popular, passa a ser assim carinhosamente tratado de "pequenino".

Conhecemos as versões lusitanas, citadas pelo folclorista Fernando Pires de Lima, em seu livro Tradições populares de Entre-Douro e Minho, (Barcelos, 1938).

Aqui, no Espírito Santo, conseguimos recolher três variantes. Duas, em Santa Leopoldina; a outra, em Afonso Cláudio. Diz a primeira delas:

Padre Nosso pequenino
Sete tochas pelo meio
Nosso Senhor meu padrinho
Nossa Senhora minha madrinha
Que fizeste o sinal na testa
Que o demônio me atentar
Nem de noite, nem de dia
Glória ao Padre, ao Filho,
Ao Espírito Santo. Amém.

Associa-se tal oração à primeira e à quarta registradas nas Tradições populares (p.145), onde se lêem estes "versos", mais ou menos correspondentes aos da oração capixaba: "O Senhor é meu padrinho / A Senhora minha madrinha / Nem de noite, nem de dia, / Nem ao pino de meio-dia / Foi a que me pôs a cruz na testa / Para que o demônio me impeça".

Esse "pino do meio-dia" é expressão encontradiça em muitas outras orações.

A oração capixaba usa-se, a nosso ver, para evitar qualquer mal ou as tentações do demônio. Das versões portuguesa, entretanto, a primeira parece-nos "oração dos peregrinos", conforme nela se diz; a segunda é uma espécie de preparativo para a comunhão: "Dá-me juizo, entendimento / para receber o Santíssimo Sacramento"; a terceira não se pode saber o que pleiteia; a quarta assemelha-se à nossa, e a última, citada à página 164, também é oração para fugir o demo.

A outra variante de Santa Leopoldina diz assim:

Padre nosso pequenino / erguei no meu caminho / sete tocha me alumia / sete anjo me acompanha / Nosso Senhor meu padrinho / Nossa Senhora minha madrinha / pela cruz de fronte / para o demônio não me atentar / de noite / nem de dia / nem em pino de meio-dia / nem na hora de me deitar / São Pedro põe a mesa / Jesus Cristo no altar / Senhor benza esta cama / Quero me deitar.

É, como se vê, uma salada de orações, tendo havido nela evidentes contaminações e enxertos de outras rezas conhecidas.

A última variante capixaba, colhida em Afonso Cláudio, reza assim:

Padre Nosso pequenino,
Deus me guia em caminho,
Sete vela me alumeia,
Sete anjo me acompanha;
A tentação não me atenta
Nem de dia, nem de noite,
Nem agora, nem na hora
Da nossa morte. Amém. Jesus.

É reza com que se pedem várias graças e, entre elas, a de amparo contra a "tentação", que aí deve ser o mesmo demônio das outras orações.

Pelos termos em que está ela vazada, não se prende esta reza a nenhum dos referidos "Padre Nossos". No entanto, em Caçaroca, neste estado, recolhemos fragmentos da mesma oração que assim começa: "Padre Nosso pequenino / Deus nos leve a bom caminho".

Também de Nova Venécia, lá em São Mateus, temos esta variante muito próxima, embora o santo invocado seja Santo Antônio, também "pequenino":

Santo Antônio pequenino
que guie em bom caminho,
com sua cruz adiante,
cousa ruim não me atente,
nem de dia, nem de noite,
nem pino de meio-dia.
Padre nosso e Ave Maria.

Já em Cachoeiro do Itapemirim, nem Padre Nosso, nem Santo Antônio, mas — talvez por influência de alguma irmandade de pretos — Benedito pequenino. Diz assim a reza:

Benedito pequenino,
me botai no bom caminho.
Jesus Cristo jejuou
pôs uma cruz adiante.
Bicho mau não me atente,
Nem de noite, nem de dia,
nem em pino de meio-dia.

Ai estão — o pequenino, o bom caminho, a cruz adiante, o dia e a noite, o pino de meio-dia, e o "bicho mau". Este bicho mau, como o "cousa ruim" é o "tentação", é um dos mil nomes com que se oculta o diabo — palavra tabu que o povo foge de dizer. E deve ter lá as suas sérias e graves razões.

(Neves, Guilherme Santos. "Padre nosso pequenino..." Vida Capixaba. Vitória, 30 de outubro de 1949)
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