Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VII - Edição 78
Maio de 2005
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Padre nosso pequenino...

Guilherme Santos Neves

Dentre as orações que o povo contritamente reza, implorando os favores do Céu, está o conhecido Padre Nosso pequenino, oração dirigida ao Menino Deus que, na fé e simplicidade popular, passa a ser assim carinhosamente tratado de "pequenino".

Conhecemos as versões lusitanas, citadas pelo folclorista Fernando Pires de Lima, em seu livro Tradições populares de Entre-Douro e Minho, (Barcelos, 1938).

Aqui, no Espírito Santo, conseguimos recolher três variantes. Duas, em Santa Leopoldina; a outra, em Afonso Cláudio. Diz a primeira delas:

Padre Nosso pequenino
Sete tochas pelo meio
Nosso Senhor meu padrinho
Nossa Senhora minha madrinha
Que fizeste o sinal na testa
Que o demônio me atentar
Nem de noite, nem de dia
Glória ao Padre, ao Filho,
Ao Espírito Santo. Amém.

Associa-se tal oração à primeira e à quarta registradas nas Tradições populares (p.145), onde se lêem estes "versos", mais ou menos correspondentes aos da oração capixaba: "O Senhor é meu padrinho / A Senhora minha madrinha / Nem de noite, nem de dia, / Nem ao pino de meio-dia / Foi a que me pôs a cruz na testa / Para que o demônio me impeça".

Esse "pino do meio-dia" é expressão encontradiça em muitas outras orações.

A oração capixaba usa-se, a nosso ver, para evitar qualquer mal ou as tentações do demônio. Das versões portuguesa, entretanto, a primeira parece-nos "oração dos peregrinos", conforme nela se diz; a segunda é uma espécie de preparativo para a comunhão: "Dá-me juizo, entendimento / para receber o Santíssimo Sacramento"; a terceira não se pode saber o que pleiteia; a quarta assemelha-se à nossa, e a última, citada à página 164, também é oração para fugir o demo.

A outra variante de Santa Leopoldina diz assim:

Padre nosso pequenino / erguei no meu caminho / sete tocha me alumia / sete anjo me acompanha / Nosso Senhor meu padrinho / Nossa Senhora minha madrinha / pela cruz de fronte / para o demônio não me atentar / de noite / nem de dia / nem em pino de meio-dia / nem na hora de me deitar / São Pedro põe a mesa / Jesus Cristo no altar / Senhor benza esta cama / Quero me deitar.

É, como se vê, uma salada de orações, tendo havido nela evidentes contaminações e enxertos de outras rezas conhecidas.

A última variante capixaba, colhida em Afonso Cláudio, reza assim:

Padre Nosso pequenino,
Deus me guia em caminho,
Sete vela me alumeia,
Sete anjo me acompanha;
A tentação não me atenta
Nem de dia, nem de noite,
Nem agora, nem na hora
Da nossa morte. Amém. Jesus.

É reza com que se pedem várias graças e, entre elas, a de amparo contra a "tentação", que aí deve ser o mesmo demônio das outras orações.

Pelos termos em que está ela vazada, não se prende esta reza a nenhum dos referidos "Padre Nossos". No entanto, em Caçaroca, neste estado, recolhemos fragmentos da mesma oração que assim começa: "Padre Nosso pequenino / Deus nos leve a bom caminho".

Também de Nova Venécia, lá em São Mateus, temos esta variante muito próxima, embora o santo invocado seja Santo Antônio, também "pequenino":

Santo Antônio pequenino
que guie em bom caminho,
com sua cruz adiante,
cousa ruim não me atente,
nem de dia, nem de noite,
nem pino de meio-dia.
Padre nosso e Ave Maria.

Já em Cachoeiro do Itapemirim, nem Padre Nosso, nem Santo Antônio, mas — talvez por influência de alguma irmandade de pretos — Benedito pequenino. Diz assim a reza:

Benedito pequenino,
me botai no bom caminho.
Jesus Cristo jejuou
pôs uma cruz adiante.
Bicho mau não me atente,
Nem de noite, nem de dia,
nem em pino de meio-dia.

Ai estão — o pequenino, o bom caminho, a cruz adiante, o dia e a noite, o pino de meio-dia, e o "bicho mau". Este bicho mau, como o "cousa ruim" é o "tentação", é um dos mil nomes com que se oculta o diabo — palavra tabu que o povo foge de dizer. E deve ter lá as suas sérias e graves razões.

(Neves, Guilherme Santos. "Padre nosso pequenino..." Vida Capixaba. Vitória, 30 de outubro de 1949)
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