Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VII - Edição 78
Maio de 2005
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Tirar o chapéu

Agora, que os chapéus são tão raros, já é tempo de fixar alguns costumes velhos e expressões populares relacionados com essa peça do vestuário masculino.

Eu já me considero da geração sem chapéu, porque nunca o utilizei, a não ser nos tempos do colégio em que era forçado a usar o quepe ou o casquete.

Guardo, porém, uma expressão popular que ultrapassou o uso do chapéu nesta cidade do Natal. Diante de uma moça bonita, lembro-me que os rapazes costumavam exclamar: Aquela é de se lhe tirar o chapéu!

Era a suprema reverência perante a beleza feminina. Gesto que procurava imitar o mesmo respeito que os católicos ainda manisfestam diante de uma imagem ou de uma igreja.

Recordo-me do saudoso Teodorico Guilherme, comandando a procissão de Nosso Senhor dos Passos e gritando, irado de raiva, para aqueles cidadãos indiferentes que passavam na ocasião de chapéu na cabeça:

— Tire o chapéu, mal-educado!

Quem passa de ônibus defronte de uma das nossas igrejas ou capelas ainda pode observar alguns raros cidadãos que usam chapéu se descobrindo em sinal de respeito. As senhoras e senhoritas se benzem.

Afonso Arinos de Melo Franco, no seu notável livro Um estadista da República, relembrou dois velhos costumes do Brasil antigo sobre o uso do chapéu.

À página 74 do primeiro volume, citando Pohl, declara que os antigos habitantes de Paracatu não passavam diante da casa do capitão-mor, sem que tirassem o chapéu. Era o capitão-mor naquela época a principal autoridade das povoações do interior.

Escrevendo sobre João de Melo Franco, um dos seus ascendentes mais ilustres, acrescenta Afonso Arinos de Melo Franco, que ele era tão rico e estimado em Paracatu que andava na rua "acompanhado por um escravo que levava, sobre uma almofada, o chapéu do amo." E explica: "Assim este, simbolicamente cumprimentava a todos os passantes, sem necessidade de estar retirando, a todo instante, o outro chapéu que trazia na cabeça..."

Vemos, por aí, como era importante o uso do chapéu antigamente. Objetos que hoje em dia, pelo menos na cidade do Natal, está quase reservado aos carecas...

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("Tirar o chapéu". O Poti. Natal, 05 de setembro de 1956)
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