Tipos populares não são privilégio desta ou daquela localidade, pois que em toda parte existem ou tem existido personagens que, com as suas excentricidades, conseguem atrair a atenção dos seus contempôraneos.
Apesar de ser pequena a sua população, não podia Cananéia mesmo assim, constituir-se em exceção à regra, eis que, além de outros, ainda não há muitas décadas possuiu um tipo verdadeiramente singular.
Deixemos, propositadamente, de lado um preto idoso que no primeiro quartel deste século atraiu as atenções da petizada cananense, o popular Tio Mudo, para focalizar essa personagem: Idalino.
Não houve, por essa época, em Cananéia, quem não o admirasse as excentricidades de Idalino, cuja excessiva magreza, aliás, chegou a ser até proverbial:
— Ih, como você anda magro rapaz! Qualquer dia você vira Idalino... — quantas vezes não ouviu assustado muito moço bonito da terra.
Não era por essa particularidade, entretanto, que Idalino se constituiu em figura singular da cidadezinha do litoral sul paulista; nada disso.
O que fez com que Idalino passasse para os anais da velha gente cananeese foram justamente os seus chistes, as suas piadas de marcar época.
Quando o conhecemos, exercia Idalino as funções de oficial de justiça no foro local.
Sempre havia, dessa forma, qualquer mandado judicial a executar, naturalmente que lá se ia Idalino, cheio de si, para cumpri-lo.
Acontece, entretanto, que, por essas ocasiões. Idalino abusou um pouco da ingestão de bebidas alcoolicas e, assim, não era de estranhar que fosse por terra, embora sempre segurando avaramente nas mãos o mandado de que era portador...
Ora, — pensava Idalino — porque havia de ficar jogado numa calçada ou sarjeta quando muito bem podia ser levado para casa por policiais!...
Assim pensando, levava Idalino seu apito de oficial de justiça à boca e, com isso, atraía ao local os soldados do destacamento, que se encarregavam do resto, até curtir a bebedeira.
Além das funções de oficial de justiça, exercia Idalino, extraoficialmente, já se vê, como elemento ligado ao Fóro local, as de doméstico em casa de juízes de direito ou promotores.
Mesmo nessas funções, entretanto, as suas excentricidades imperavam, porque Idalino como que as praticava inconscientemente, pois era impossível que quisesse, com os seus chistes ou traquinadas, desrespeitar os juízes que passaram, ao seu tempo, pela magistratura local.
Não fora assim como compreender tiradas como aquela que a seguir tentaremos narrar?
Conta-se ainda hoje em Cananéia que, certa vez, recebendo o juiz de direito visita em sua casa, chamou Idalino, de lado e ordenou-lhe — "Idalino, bote água ao fogo, para um café!"
Horas depois, cansado de palestrar e de esperar o café, foi o juiz à cozinha e lá encontrou o fogo apagado, as cinzas ensopadas de água e a chaleira fria, em cima do fogão.
Interpelando Idalino, que calmamente lia um jornal, dele ouviu o juiz como resposta: "Afinal de contas, doutor o senhor não me mandou botar água no fogo?! Acaso tenho culpa se ele se apagou?!...
Qualquer pessoa que lide com canoas ou coisas de pescaria sabe perfeitamente o que é "chamar uma canoa" e "encontrar uma canoa", com o remo, como, igualmente, "virar a canoa", pois tudo isso é expressão corrente no litoral sul paulista.
Para os que, porventura, ignorem o significado, diremos que "chamar a canoa" é manejar, o seu tripulante, o remo, de forma a fazê-la tomar direção oposta ao lado em que se rema; como "encontrar a canoa", é utilizar o remador o seu remo de modo a ser a canoa manobrada em sentido do lado que se rema.
Pois bem, em pescaria e passeios, quantas vezes fingiu Idalino ignorar o significado de tais expressões.
Certa ocasião, em companhia de um juiz de direito, vendo este que a canoa se aproximava muito da praia, disse a Idalino, que a conduzia: "Chame a canoa!..." Com surpresa do magistrado, pôs Idalino a boca no mundo, esguelando-se: "Canoa!... Canoa!... Canoa!..." Censurado pela tirada: "Que é isso, Idalino, você está louco?..." o nosso herói respondeu, fingindo espanto: "Não me mandaram chamar a canoa?..."
Não ficavam, todavia, apenas nisso as suas peripécias com canoas, pois, por exemplo, quem quisesse tomar um banho de mar, depois de um passeio ou pescaria, era só dizer-lhe, como a qualquer outro remador: "Idalino, vamos embora: pode virar a canoa!..."
Para a ordem ser cumprida a seu modo, bastava a Idalino, pôr um pé na pequena embarcação. E não adiantava reclamar, porque a alegação era sempre esta: "O sr. não me mandou virar a canoa?..."
Era que, nessas ocasiões, Idalino só entendia "emborcar" e nunca "mudar o rumo" da embarcação...
Diz-se, também, que, certa feita, cansado o juiz de comer peixe, recomendou a Idalino: "Olhe, amanhã quero um almoço de galinha..."
Quando, no dia seguinte, o magistrado reclamou o cardápio, não foi difícil a Idalino explicar-lhe que "almoço de galinha" era aquilo que ali estava na mesa, à sua disposição: milho, farelo e arroz em casca...
A morte de Idalino deu em conseqüência de uma queda, durante folguedos carnavalescos, quando, escorregando, ficou o pobre homem escarrapachado à beira de um barranco cheio de limo.
Estando prestes a expirar, dias depois, balbuciou para um circunstante:
— Parece que Idalino está nas últimas. Pelas dúvidas, é bom ver uma vela...
Abrindo os olhos, diz-se que Idalino teria exclamado, nos estertores da sua agonia:
— Não é preciso, meu amigo. Eu vou mesmo a remo...