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A cerâmica utilitária de São Sebastião

Oswald de Andrade Filho

No bairro de São Francisco da cidade de São Sebastião, litoral paulista, encontramos uma cerâmica popular que, apesar da acentuada decadência, ainda é das mais interessantes do nosso estado. Hoje, segundo tivemos ocasião de constatar, existe apenas uma ceramista que mantém a tradição local.

Entretanto, se fizer uma pesquisa mais minuciosa, é possível que se encontre, mesmo de outros tempos, exemplares de potes ou panelas, diferentes dos que pudemos observar e recolher naquele local. Com os progressos da nossa civilização, as manifestações populares vão fugindo dos seus primitivos núcleos. Além disso, não há nenhuma proteção a essa arte, ou melhor dizendo a esse artesanato. Dessa maneira, dentro de pouco tempo, a cerâmica, a pintura ou a escultura populares farão parte apenas de melancólicos acervos de museus, apagando-se por completo as tradições desse setor, em nosso estado.

O mais triste é que não por falta de interesse das populações locais que essas manifestações se apagam. A procura de cerâmica em São Francisco, por exemplo, é tão grande que se torna difícil comprar alguma coisa, sem que não se tenha encomendado com grande antecedência.

Durante a nossa pesquisa nada conseguimos averiguar que nos permitisse uma afirmação sobre a época em que foi iniciada essa atividade ou mesmo sobre sua origem. Pode-se, porém, notar que nela existe uma influência indígena pronunciada, tanto nos instrumentos usados para a confecção das peças quanto nas formas. Um desses instrumentos chama-se cuipeva e trata-se de uma cuia rasa, feita de cabaça, com a qual a ceramista alisa a peça. O barro que emprega para fazer as variações de cores chama-se taguá.

No local, não encontramos nenhuma peça com desenhos, mesmo abstratos com função puramente ornamental. O barro de cor avermelhada, taguá, serve apenas para variar o colorido. Nas raras vezes que encontramos um motivo de desenho decorativo nas peças, este se apresentou tão insignificante que mal se poderia dizer que teria importância.

Dona Adélia da Ressurreição, a ceramista que visitamos, é uma criatura de 30 anos. Trabalha em casa com o barro que adquire de um japonês, o qual, aliás está contribuindo sobremaneira para a completa liquidação da cerâmica de São Francisco, pois não quer mais fornecer material para esse fim, alegando precisar do mesmo para a construção de casas.

A fim de conservar o barro úmido, dona Adélia o embrulha em folha de bananeira e o seu lugar de trabalho é o quintal da pobre casinha, nas proximidades da cozinha. Seu método de trabalho é o seguinte: toma primeiramente a parte superior de um cuscuzeira e a coloca de cabeça para baixo. Sobre a base deste, põe uma pequena tábua quadrada que irá servir de suporte para o barro. Esse processo é adotado para facilitar o trabalho, pois, fazendo às vezes de cavalete, a tábua gira como um torno. A ceramista não costuma sentar-se. Fica de cócoras, com a saia presa à altura do joelho. Depois de colocar pedaços de barro, ainda em forma de bola, sobre a pequena tábua, bate-os até que tomem a forma de base para a peça que propõe a fazer.

Terminada essa parte começa a levantar as paredes do pote, já dando a forma que pretende imprimir à peça. É notável a habilidade que tem. Às vezes, nota-se que a peça quer mudar de forma. Dona Adélia, então, corrige-a, com segurança e rapidez. Observam-se agilidade e elegância nos seus gestos. A qualidade rústica que imprime ao trabalho, como em todas as ocasiões em que a cerâmica é feita à mão, é muito rica. Nunca a peça é morta, sem interesse; sempre é viva e cada uma tem um defeito, sua qualidade, sua personalidade, havendo uma constante impressa pela mão da artista popular. As peças vão sendo feitas; às vezes, é um cuscuzeiro que sai das mãos de dona Adélia, outras é um "terno", três panelas encaixadas umas nas outras, formando um todo, e também brilha com sua forma característica.

Para cozinhar as peças, a ceramista emprega um forno de boa qualidade. Colocando lenha na parte inferior, a separa das peças com um quadriculado de tijolo. A princípio, as queima com fumaça e fogo brando. A seguir, passa a queimá-las com fogo forte.

Dona Adélia é a única remanescente de um grupo de ceramistas que hoje desapareceu. Resistindo a tudo, ela prossegue no seu trabalho. Por isso, dizemos que se não houver qualquer providência por parte do governo, a cerâmica de São Sebastião acabará por desaparecer e com ela se acabarão os últimos vestígios de pura arte popular, que talvez tenha nascido com os primitivos habitantes de nossa terra.

(Andrade Filho, Oswald de. "A cerâmica utilitária de São Sebastião". A Gazeta. São Paulo, 29 de novembro de 1958)
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