No bairro de São Francisco da cidade de São Sebastião, litoral paulista, encontramos uma cerâmica popular que, apesar da acentuada decadência, ainda é das mais interessantes do nosso estado. Hoje, segundo tivemos ocasião de constatar, existe apenas uma ceramista que mantém a tradição local.
Entretanto, se fizer uma pesquisa mais minuciosa, é possível que se encontre, mesmo de outros tempos, exemplares de potes ou panelas, diferentes dos que pudemos observar e recolher naquele local. Com os progressos da nossa civilização, as manifestações populares vão fugindo dos seus primitivos núcleos. Além disso, não há nenhuma proteção a essa arte, ou melhor dizendo a esse artesanato. Dessa maneira, dentro de pouco tempo, a cerâmica, a pintura ou a escultura populares farão parte apenas de melancólicos acervos de museus, apagando-se por completo as tradições desse setor, em nosso estado.
O mais triste é que não por falta de interesse das populações locais que essas manifestações se apagam. A procura de cerâmica em São Francisco, por exemplo, é tão grande que se torna difícil comprar alguma coisa, sem que não se tenha encomendado com grande antecedência.
Durante a nossa pesquisa nada conseguimos averiguar que nos permitisse uma afirmação sobre a época em que foi iniciada essa atividade ou mesmo sobre sua origem. Pode-se, porém, notar que nela existe uma influência indígena pronunciada, tanto nos instrumentos usados para a confecção das peças quanto nas formas. Um desses instrumentos chama-se cuipeva e trata-se de uma cuia rasa, feita de cabaça, com a qual a ceramista alisa a peça. O barro que emprega para fazer as variações de cores chama-se taguá.
No local, não encontramos nenhuma peça com desenhos, mesmo abstratos com função puramente ornamental. O barro de cor avermelhada, taguá, serve apenas para variar o colorido. Nas raras vezes que encontramos um motivo de desenho decorativo nas peças, este se apresentou tão insignificante que mal se poderia dizer que teria importância.
Dona Adélia da Ressurreição, a ceramista que visitamos, é uma criatura de 30 anos. Trabalha em casa com o barro que adquire de um japonês, o qual, aliás está contribuindo sobremaneira para a completa liquidação da cerâmica de São Francisco, pois não quer mais fornecer material para esse fim, alegando precisar do mesmo para a construção de casas.
A fim de conservar o barro úmido, dona Adélia o embrulha em folha de bananeira e o seu lugar de trabalho é o quintal da pobre casinha, nas proximidades da cozinha. Seu método de trabalho é o seguinte: toma primeiramente a parte superior de um cuscuzeira e a coloca de cabeça para baixo. Sobre a base deste, põe uma pequena tábua quadrada que irá servir de suporte para o barro. Esse processo é adotado para facilitar o trabalho, pois, fazendo às vezes de cavalete, a tábua gira como um torno. A ceramista não costuma sentar-se. Fica de cócoras, com a saia presa à altura do joelho. Depois de colocar pedaços de barro, ainda em forma de bola, sobre a pequena tábua, bate-os até que tomem a forma de base para a peça que propõe a fazer.
Terminada essa parte começa a levantar as paredes do pote, já dando a forma que pretende imprimir à peça. É notável a habilidade que tem. Às vezes, nota-se que a peça quer mudar de forma. Dona Adélia, então, corrige-a, com segurança e rapidez. Observam-se agilidade e elegância nos seus gestos. A qualidade rústica que imprime ao trabalho, como em todas as ocasiões em que a cerâmica é feita à mão, é muito rica. Nunca a peça é morta, sem interesse; sempre é viva e cada uma tem um defeito, sua qualidade, sua personalidade, havendo uma constante impressa pela mão da artista popular. As peças vão sendo feitas; às vezes, é um cuscuzeiro que sai das mãos de dona Adélia, outras é um "terno", três panelas encaixadas umas nas outras, formando um todo, e também brilha com sua forma característica.
Para cozinhar as peças, a ceramista emprega um forno de boa qualidade. Colocando lenha na parte inferior, a separa das peças com um quadriculado de tijolo. A princípio, as queima com fumaça e fogo brando. A seguir, passa a queimá-las com fogo forte.
Dona Adélia é a única remanescente de um grupo de ceramistas que hoje desapareceu. Resistindo a tudo, ela prossegue no seu trabalho. Por isso, dizemos que se não houver qualquer providência por parte do governo, a cerâmica de São Sebastião acabará por desaparecer e com ela se acabarão os últimos vestígios de pura arte popular, que talvez tenha nascido com os primitivos habitantes de nossa terra.