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Contos de adivinhação

Fausto Teixeira

Há uma série de contos populares cujos enredos giram em torno de uma adivinha, geralmente em versos. São os chamados contos de adivinhação, os riddles tales dos ingleses, os ratshselmarchen dos alemães, os ji-nongonongo de Angola.

Lehmann-Nitsche, em sua famosa classificação de peças folclóricas, reuniu estes contos no grupo das Narrativas. Luís da Câmara Cascudo (Contos tradicionais do Brasil, Rio de Janeiro, Americ-Edit., 1946), por sua vez, enquadrou-os no grupo oitavo de sua classificação dos contos populares brasileiros, sob o nome de "Contos de adivinhação".

Outros estudiosos há que preferiram incluir estes contos entre os enigmas propriamente ditos. Assim procedeu José Maria de Melo (Enigmas populares, Rio de Janeiro, Editora A Noite, 1950), empregando o título de "Contos de advinhas".

Teófilo Braga, talvez o primeiro escritor a focalizar o assunto em língua portuguesa ("As adivinhas populares". Etnologia portuguesa, 1880-1881), já deixou anotado que "a relação do enigma com o conto é ainda muito íntima e, por assim dizer, constitui um gênero". E acrescentou: "é um modo indireto da adivinha permanecer na tradiçãopopular".

De fato, achamos que este gênero pode figurar entre os constos, como consta da classificação de Câmara Cascudo, como entre as adivinhas, como procedeu José Maria de Melo. Sendo intermediário, não tem seus limites definidos; por isso mesmo parece-nos não errar aquele que inclua os "contos de adivinhação" entre peças tradicionais narrativas ou enigmáticas.

O característico principal dos contos de adivinhação, conforme observou Câmara Cascudo (obra citada), é que "a vitória do herói depende da solução de uma adivinhação, charada, enigma, tradução de gestos, decifração da origem de certos objetos"; em alguns casos uma "princesa casará com quem decifre um enigma proposto por ela", em outros, casará com quem lhe proponha uma divinha que não seja por ela decifrada, ou, ainda, premiará o herói com um tesouro, em vez de casar-se com ele. Assim são os contos de adicinhação em sua maioria.

No folclore mineiro e nas tradições populares de todo o Brasil, bem como na literatura oral de outros povos (Espanha, Itália, Grécia, Alemanha etc.), encontramos contos de adivinhação. Em Minas Gerais deparamos com um típico enigma deste gênero, que focalizaremos a seguir.

I

Um dia, um rei anunciou a todo seu reino que se alguém apresentasse uma pergunta que ele não adivinhasse, poderia pedir-lhe qualquer favor que seria atendido. Então, apresentou-se a ele uma mulher e propôs-lhe a seguinte adivinhação:

Ando no que não foi nascido
Na mão eu trago quem foi mãe
Dando de mamar a filho alheio
Marido de minha mãe

O rei pensou e não conseguiu adivinhar. A mulher, então, deu a decifração do enigma:

— "Quando eu era solteira tinha uma égua que estava para dar cria. Como não havia meios de nascer o potrinho, este precisou ser extraído, tendo sido criado na mamadeira. A égua, naturalmente, morreu; tirei-lhe o couro e fiz as rédeas que trago na minha mão.

O potrinho cresceu e ficou um belo cavalo, no qual eu sempre tenho andado. Meu pai, sem cometer crime, foi condenado a ficar nove dias trancado numa cela, sem comer nem beber. Nesse tempo eu já me havia casado, tendo um filhinho, o qual eu amamentava.

Para que meu pai não morresse de fome e sede, deixava meu filhinho sem leite, dia e noite, e, montando em meu cavalo, ia à noite, em horas mortas, até a janela da cela onde se achava meu pai; pelas grades, dava-lhe de mamar; e assim ele não morreu."

O rei achou muito interessante a história e perguntou à mulher o que ela desejava ganhar como prêmio. A resposta foi que a história era verdadeira e ela pediu ao rei que mandasse soltar seu pai que estava preso inocentemente. Assim foi feito. (Sete Lagoas)

Este conto de adivinhação encontra similares em outros estados do Brasil e em países estrangeiros.

Daniel Gouveia (Folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica e Editora Paulo Pongetti e cia, 1926) consignou uma adivinha que tem manifesta relação com este conto de adivinhação:

"Venho em quem não nasceu
A mãe dele trago na mão
Se o branco fes seu ninho
Para beber deste vinho
Tomai-me por devoção
Dizei-me esta adivinhação"

A decifração deste enigma é: "uma égua prenha morreu; do couro do filho que ainda ia nascer, cobriu-se a sela e do couro da égua fizeram-se as rédeas".

Mais de acordo com a versão é a seguinte, recolhida em Alagoas por José Maria de Melo (obra citada):

"Já fui filha
Hoje sou mãe
Criando filho alheio
Marido de minha mãe"

Esta peça não se refere ao couro da égua, do qual foram feitas as rédeas, nem ao potrinho que a mulher montava. Apenas trata do homem preso e de sua filha, que, parida de nova, o amamentava pelas grades de uma cela.

Muito semelhantes a esta versão, são as estrangeiras que conseguimos destacar de diversos autores. Na Argentina, Lehmann-Nitsche (Adivinanzas rioplatenses, Buenos Aires, 1911), recolheu:

"Antes fui hija
Ahora soy madre
Criando hijo ajeno
Al marido de mi madre
"

Ainda da América, temos uma  versão de Porto Rico, consignada por Ramirez de Arellano (Folklore portorriqueno, Madri, Centro de Estudos Históricos, 1928), que registrou o conto e a adivinhação, com o nome de La hija del preso. Assim apresentou sua versão:

"Habia una vez un rey que era un gran adivinador y podia adivinar cuanta adivinanza le achásen.

En uno de los calabozos de las carceres de la ciudad estaba preso un hombre no le daban más alimento que un pedazo de pan y un jarro de agua una vez al dia, y el infeliz se estaba morriendo.

Tenia el preso una hija viuda que estaba criando. Le habian dado permiso para que fue ver a su padre todos los dias, y al notar que estaba perdiendo sus fuerzas, decidió darle de mamar com objeto de fortalecerlo. El viego se resistió al principio, pero viendo el ardiente deseo de la hija empesó a alimentarse con la leche de sus pechos, calmando así parte la grand debilidade que tenia.

En aquelles dias el rey anunció que estaba dispuesto a adivinar todas las adinanzas que se lhe echaran. El concederia favores por las adivinanzas que no pudiera resolver. Se enteró la hija del preso y decidió ir al palacio a echarle al rey una adivinanza.

La pobre mujer llegó y pidió audiencia. Se la concedieron y le dijo al rey que ella tenia una adinanza para que el se la adinara. El rey le dijo que si, que se la echara, y entonces ella dijo:

— De antano fui hija
Y de antano fui madre
Crié al hijo ajeno
Marido de mi madre
Adiviname, buen rey
O si no dame a mi padre

El rey pensó y pensó, pero no pudo dar con la solición. Entonces le pidió a la mujer que la explicara. Ella le dijo como su padre habia sido castigado injustamente, como sufria hambre y sed en la cárcel, y como ella le habia dado a mamar en sus pechos.

Y col el rey no adivinó el significado de la adivinanza, concedió la libertad al padre que estaba preso".

Esta é a mais completa versão deste conto de adivinhação, que conhecemos em língua espanhola.

O aparecimento de uma peça folclórica nas tradições brasileiras nos leva a procurar similares portugueses, para se tornar possível comparação e estabelecer sua filiação histórica. O mesmo acontece com relação às peças em países americanos de língua espanhola: procuramos similares em Espanha, país a que quase todas as repúblicas hispano-americanas muito devem de sua cultura tradicional.

Fazendo buscas em literatura espanhola, demos com uma antiga adivinha, consignada por Rodriguez Marin (La caridad romana), que nada mais é do que este conhecido conto de adivinhação:

"Algun dia fui hija
Ahora soy madre
El principe que mi pechos crian
Es marido de mi madre
Acértalas, caballeros
Y sino dáme a mi padre
"

Sem dúvida, a Península Ibérica sempre foi um foco irradiador da maioria das tradições populares em língua espanhola e portuguesa, que do continente europeu passaram às Américas; daí as "coincidências" sempre encontráveis em numerosas peças folclóricas brasileiras e argentinas ou de outros países americanos. Uma das provas é a ocorrência simultânea deste conto de adivinhação em vários países das Américas; certamente, todos com suas origens em Espanha e Portugal.

 

(Teixeira, Fausto. "Contos de adivinhação". O Diário de Minas. 3 de dezembro de 1950)
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