Numerosas são as crendices ligadas à casa (de moradia ou não), e transmitidas através da tradição oral, no longo desfilar dos anos e dos séculos.
Câmara Cascudo no verbete "Casa" do seu monumental Dicionário do folclore brasileiro (Rio de Janeiro, 1954), enfileira algumas delas: "Casa de esquina, morte ou ruína; casa do meio, vida sem receio". Quando se muda de residência, o dono da casa deve fechar a residência que deixou e ele próprio abrir a nova e entrar com o pé direito. Não abrir a porta do quintal primeiro que a principal. A primeira coisa coisa que se muda para a casa nova é o sal, a segunda o carvão, a terceira a farinha (e "tratará de fazer logo o fogo"). Varre-se a casa (a primeira varrida), com vassoura nova e quem varrer levanta o lixo. À mudança de uma casa para outra é num sábado, porque o primeiro dia na nova residência dever ser o dia de Deus (domingo). Para saber se será feliz, contam-se os caibros da coberta, dizendo: ouro, prata, cobre. A felicidade será na ordem relativa ao metal citado no final. Dispõe-se primeiro a cozinha do que a sala de visitas; caso contrário não haverá demora na casa. O oratório deve ficar voltado para a rua". Informa (aí mesmo), mestre Cascudo: "Essas superstições foram trazidas pelos portugueses, e suas variantes são populares em toda a Europa".
Uma dessas antigas crendices ligadas a casa é referente à sua cumieira.
Vem dos longes mais distantes, perdidos no tempo, o velho costume de ser assinalado festivamente o dia em que, sobre a casa em construção, se coloca a cumieira. Nesse dia, cessa de todo o trabalho na obra, embandeira-se a armação da casa ou se enfeita com palmas ou galhos verdes. E todos — construtor, operários, dono da casa — todos alegremente comemoram o acontecimento, comendo e bebendo juntos.
Tão enraizada é a tradição dessa festa da cumieira que, mesmo quando não há mais cumieira nenhuma — como no caso atual dos arranha-céus de cimento e aço — a festa se faz ao atingir o prédio seu último pavimento, coberta a derradeira laje.
Outrora, "nos bons tempos", o ritual da festa da cumieira era mais solene. Recorda-se o fato neste trecho de Antônio Viana, folclorista baiano (Casos e coisas da Bahia, Salvador, 1950, p.151): "Os operários endomingados, a família do proprietário, com este à frente, convidados, parentes e aderentes. Pronta a vigota no lugar, o mestre da obra passava o martelo às mãos do senhorio, que batia o primeiro prego, com cuidado para que não entortasse, o que, seria de mau agouro. Se por moléstia, velhice ou resguardo, o proprietário não podia ir ao alto, mandava o pimpolho mais velho ou único que, se fedelho ainda, necessitava ser carregado para alcançar o ponto desejado. Subiam nesses instantes estrepitosas girândolas de foguetes, núncias de regozijo dos futuros beneficiados e até dos estranhos que acorriam ao espetáculo invejável de mais uma cumieira erguida. Seguia-se largo respasto ao que trabalhavam, aos quais se dava folga naquele dia de justa satisfação. Havia libações noite a dentro, sambinha entre os sarrafos e materiais no interior da casa, bebedeiras sem conseqüências para o serviço, a recomeçar na manhã imediata, com as garantias de que os que nele se empenhavam tinha capacidade para dar conta da tarefa".
Não esquecer que o repasto em comum é elo de maior aproximação solidariedade ou dependência entre os comensais. Está ele nas bodas, nas festas, aniversários, íntimas e caseiras, e, por vezes até nos velórios está.
Quanto ao foguetório, relembra-se a sua explicação sociológica: a de espantar os maus espíritos e as influência nocivas ("écarter les esprits méchan et los influences mauvalses", Van Genaep, Manual de folklore française contemporain, Paris, 1945, tomo 1, parte 2, p.434).
Hoje em dia, a coisa é mais simples mas conserva aquela mesma alegria festiva doutras eras — porque realmente o acontecimento assinala um instante decisivo para todo o grupo interessado na construção da casa. A cumieira representa o teto, o abrigo, o agasalho, o lar, o "doce lar" — velha aspiração do homem ou melhor da família.
Tão intimamente se liga a cumieira ao dono da casa, que (pelo menos em língua portuguesa) corre o velho provérbio: quando cai a cumieira vem a casa abaixo, entendendo-se aí cumieira, por extensão, como o próprio chefe da família (Cfr. Vocabulário pernambucano, Pereira da Costa).
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Ontem, ali na praia de Manguinhos, comemoramos alegremente, a festa da cumieira de uma casa modesta. Houve júbilo generalizado; bebeu-se uma pinguinha "para esquentar", pipocaram-se alguns adrianinos, e lá ficou, no alto da casa balançando ao vento, como, um penacho de alegria; uma palma verde de coqueiro, assinalando a velha tradição do nosso povo...