Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Maio 2005 - nº 78 - Ano VII


Sumário

Festança

Tambor de crioula
Domingos Vieira Filho

Festa do Divino
Francisco Pati

A festa da cumieira
Guilherme Santos Neves

Cancioneiro

Saruá
Carlos Devtnelli

Saudação aos noivos

Martelos de Rufino, por Hermógenes Lima Fonseca

Imaginário

O moço que deixou de jogar
Lindolfo Gomes

Três Deus fez
Lindolfo Gomes

Contos de adivinhação
Fausto Teixeira

Colher de Pau

Manual de cozinha
Amadeu Amaral

Cajus
Alfredo de Carvalho

Culinária tradicional goiana
Iara Barbosa Navas

Oficina

A viagem do boiadeiro
Deise Sabbag

Um mercado original funciona em Taubaté
Almir Gajardoni

A cerâmica utilitária de São Sebastião
Oswald de Andrade Filho

Palhoça

O lenço
Júlia Lopes de Almeida

Idalino, tipo popular
Manoel Higino dos Santos

Tirar o chapéu

Panacéia

Os maronitas
João do Rio

Padre nosso pequenino...
Guilherme Santos Neves

Fanatismo religioso
Edigar de Alencar

Veja o que foi publicado em Colher de Pau
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Colher de Pau
Textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Cajus

Alfredo de Carvalho

Rara é a vez que, percorrendo as colunas ineditoriais dos nossos cotidianos, não deparamos — encimadas de pombinhas volantes, corbeilles floridas e outros emblemas alvissareiros, e precedidas dos chavões de costume — com felicitações ao ilustre senhor fulano de tal, por colher naquele dia mais um caju, na árvore da sua "preciosa existência"; freqüentemente, também, ouvimos dizer com relação a uma pessoa avançada em idade que tem muitos cajus.

Em ambos os casos ressumbra do seu emprego certa dose de chalaça, e é perceptível um ressábio de jocosidade; ao risinho satisfeito do felicitante ao escrever, corresponde a gargalhada gostosa do felicitado ao ler as prolfaças, e a frase do nosso interlocutor, designando a anciania de alguém, é sempre sublinhada dum sorriso faceto.

Entretanto, bem meditada, a expressão perde o cômico de que parece revestida ao primeiro aspecto; aqueles cajus devem forçosamente ter um sentido especial e ignorado dos foliões que o empregam pilheriando.

E assim é. Achamo-nos em presença dum caso típico deste fenômeno cultural — na inexperiência filosófica da nossa língua ainda inominado — que os etnólogos ingleses batizaram de survival e os franceses de survivance, — e pode ser definido como a "sobrevivência de denominações, hábitos e costumes às pessoas, coisas e circunstâncias que determinaram a sua primitiva instituição".

Exemplifiquemos para melhor compreensão: o toque de Ave-Maria, ou de Trindades que ainda hoje ouvimos todas as tardes soar das torres das nossas igrejas, é um survival do tapalume medievo, quando, na aglomeração de edifícios das antigas cidades muradas, o receio de incêndios impôs a necessidade de um sinal que, a hora certa, determinasse a extinção dos lumes de todos os lares.

O fato que hoje nos preocupa está nas mesmas condições.

Usando de caju como equivalente de anos os nossos contemporâneos, longe de inovarem, repetem apenas a designação empregada pelos nossos indígenas, há milênios talvez, para o mesmo fim.

O calendário dos tupis, os mais progressivos dos nossos aborígenes, era, como o de todos os povos primitivos, pouco complicado, e a sua divisão do tempo extremamente simples; além do dia (ára, isto é: claridade, luz), distinguiam os meses pelas lunações (yacy, significando igualmente lua e mês). Para a contagem dos anos serviam-se das florações dos cajueiros, cuja frutificação era para eles a época das festas e das orgias prolongadas, a estação da fartura de víveres e da abundância de prazeres.

Daí responder ao sábio Martius um indiozinho, interrogado sobre a sua idade: Onze acayu quetebo, isto é, onze cajus inteiros, querendo assim exprimir que já completara o seu undécimo aniversário.

Verifica-se, portanto, que presumindo fazer espírito inédito, os pândegos acima mencionados obedecem tão somente às leis do survival, reproduzindo uma velha usança dos nossos indígenas.

 

[1906]

(Em Maior, Mário Souto; Valente, Valdemar. Antologia pernambucana de folclore. Recife, Fundação Joaquim Nabuco; Editora Massangana, 1988, p.29-30)
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