Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VII - Edição 78
Maio de 2005
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Cajus

Alfredo de Carvalho

Rara é a vez que, percorrendo as colunas ineditoriais dos nossos cotidianos, não deparamos — encimadas de pombinhas volantes, corbeilles floridas e outros emblemas alvissareiros, e precedidas dos chavões de costume — com felicitações ao ilustre senhor fulano de tal, por colher naquele dia mais um caju, na árvore da sua "preciosa existência"; freqüentemente, também, ouvimos dizer com relação a uma pessoa avançada em idade que tem muitos cajus.

Em ambos os casos ressumbra do seu emprego certa dose de chalaça, e é perceptível um ressábio de jocosidade; ao risinho satisfeito do felicitante ao escrever, corresponde a gargalhada gostosa do felicitado ao ler as prolfaças, e a frase do nosso interlocutor, designando a anciania de alguém, é sempre sublinhada dum sorriso faceto.

Entretanto, bem meditada, a expressão perde o cômico de que parece revestida ao primeiro aspecto; aqueles cajus devem forçosamente ter um sentido especial e ignorado dos foliões que o empregam pilheriando.

E assim é. Achamo-nos em presença dum caso típico deste fenômeno cultural — na inexperiência filosófica da nossa língua ainda inominado — que os etnólogos ingleses batizaram de survival e os franceses de survivance, — e pode ser definido como a "sobrevivência de denominações, hábitos e costumes às pessoas, coisas e circunstâncias que determinaram a sua primitiva instituição".

Exemplifiquemos para melhor compreensão: o toque de Ave-Maria, ou de Trindades que ainda hoje ouvimos todas as tardes soar das torres das nossas igrejas, é um survival do tapalume medievo, quando, na aglomeração de edifícios das antigas cidades muradas, o receio de incêndios impôs a necessidade de um sinal que, a hora certa, determinasse a extinção dos lumes de todos os lares.

O fato que hoje nos preocupa está nas mesmas condições.

Usando de caju como equivalente de anos os nossos contemporâneos, longe de inovarem, repetem apenas a designação empregada pelos nossos indígenas, há milênios talvez, para o mesmo fim.

O calendário dos tupis, os mais progressivos dos nossos aborígenes, era, como o de todos os povos primitivos, pouco complicado, e a sua divisão do tempo extremamente simples; além do dia (ára, isto é: claridade, luz), distinguiam os meses pelas lunações (yacy, significando igualmente lua e mês). Para a contagem dos anos serviam-se das florações dos cajueiros, cuja frutificação era para eles a época das festas e das orgias prolongadas, a estação da fartura de víveres e da abundância de prazeres.

Daí responder ao sábio Martius um indiozinho, interrogado sobre a sua idade: Onze acayu quetebo, isto é, onze cajus inteiros, querendo assim exprimir que já completara o seu undécimo aniversário.

Verifica-se, portanto, que presumindo fazer espírito inédito, os pândegos acima mencionados obedecem tão somente às leis do survival, reproduzindo uma velha usança dos nossos indígenas.

 

[1906]

 

(Em Maior, Mário Souto; Valente, Valdemar. Antologia pernambucana de folclore. Recife, Fundação Joaquim Nabuco; Editora Massangana, 1988, p.29-30)
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