Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

Martelos de Rufino

Hermógenes Lima Fonseca

Rufino Manuel dos Santos, mais conhecido como Rufino de Cristina, é o mais popular cidadão de Conceição da Barra. Na papoleira do mercado de peixe é figura proeminente e doutor em desafio. Sabe pontear a viola e o seu prazer é encontrar um parceiro. Melhor ainda se for no bar do Valter ou no bar do Noir, com uma garrafa da "branquinha" para dar mais inspiração.

Rufino é bom no improviso. Tem na memória um sem número de abecês e não se precisa implorar para que ele vá cantando um atrás do outro. Nos martelos, Rufino tem sua primazia. Boa música, clara e agradável. Não é como aqueles cantadores que Almirante andou apresentando nos seus programas, com voz anasalada.

Um rico material folclórico consegui com Rufino de Cristina e outros barrenses, enquanto gozava da sombra da papoleira, deitado na proa de uma canoa e de quando em vez bebendo a água de um coco. Mas, para mostrar a veia poética de Rufino aqui estão dois martelos que mestre Guilherme gravou durante o Festival Folclórico de Conceição da Barra em fevereiro último.

Eu vou contar um caso
Caso que você não crê
Rastro de moça bonita
Muito mal afasta areia

Te digo meu camarada
Quando vê rastro esparrado
Segura que a bicha é feia.

Eu cheguei em São Paulo
Comprei um cavalo
Eu voltei lá no Rio
Comprei um navio
Cheguei em Vitória
Comprei uma espora
Cheguei em Caravela
Comprei uma panela

Passei na Ponta de Areia
Pra avisar meus companheiros
Ativar meus camaradas
Quando vê rastro esparrado
Segura que a bicha é feia

II

Eu tava num cajueiro
Ia colher um caju
Quando chegou uma morena
Rufino da onde é tu?

Antes de tu soletrá
Eu soletrei primeiro
Eu tava no cajueiro
Ia colher um caju

Quando chegou u'a morena
Diz Rufino da onde é tu
sou da terra da tapioca
Onde fabrica o beiju

Mais que nega danada é dona Maria
Chega de noite não cose nem fia
Se deita cedo e acorda meio-dia
Quando homem fala a mulher se arrepia

Me botaram na gaveta
Me mandaram pra Bahia.

(Fonseca, Hermógenes Lima. "Martelos de Rufino". A Gazeta. Vitória, 23 de março de 1958)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005