Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

Saudação aos noivos

Proferida pelo dr. Hipólito Lucena, por ocasião da Festa Gaúcha do Clube Recreativo Brasileiro

Noivo e noiva — Venho agora,
Lá do meu rancho, de fora,
Da querência pra a cidade,
Com a carreta da vida;
Transbordando, florescida,
De muita felicidade!...

Trago na minha lembrança,
De todinha a vizinhança.
Seu grande abraço gaúcho,
Que vindo do coração,
Retumba neste salão.
Por este salão de luxo!...

Aqui não vejo o clarão
Da lua na imensidão,
Beijando a lagoa quieta;
Não ouço a gaita cantando,
Se encolhendo, se esticando
Nas mãos de um gaiteiro poeta!...

Não vejo o salso-chorão,
Que na triste solidão
Se inclina beijando o lago!...
Não sinto a brisa fagueira.
Que na flor da laranjeira.
Deixa beijo, deixa afago!...

Mas... vejo muitas estrelas,
Que a gente se sente, ao vê-las,
Como preso a um maneador:
— Os olhos encantadores,
Brilhantes e sonhadores
Destas moças meu senhor!...

Não ouço, da gaita o canto,
Mas, "achicado", me encanto,
Sentindo n'alma arrepio
Ouvindo a voz musicada,
Sons de uma gaita encantada,
Na boca do mulherio!...

Em vez de salso-chorão,
Vejo um grandioso salão,
Cheio de muita esperança!...
Solenidade que passa
Ligeira como a fumaça,
Mas, que não sai da lembrança!...

Casamento — doce união!
Laço seguro na mão,
De um velho guasca ladino!
Velho de pulso seguro,
Que marca o rumo, o futuro
De todo nós — o destino!...

Laço que prende, que amarra,
Que se estende e nos agarra,
Com tanta gaita e harmonia,
Que a gente pensa que é um laço
Composto de algum pedaço
Do manto azul de Maria!...

Agora, unidos, cantando,
Sigam, "no mais", repontando
Pelas várzeas e capões
Sem tropeços, com bonança,
Em rebanho de esperança
De sonhos e de ilusões!...

Ergueste agora, gaúcho,
Um novo rancho sem luxo,
Onde terás nova vida!...
O teu rancho de solteiro,
Tombou, caiu, no terreiro...
É uma tapera esquecida!...

Aos olhos de todo o povo,
Semeia em teu rancho novo,
Bastante amor e carinhos;
Verás que nascem mil flores
De muitas variadas cores,
Sem nelas veres espinhos!...

És agora o braço forte,
Que vai orientar a sorte,
Da própria felicidade:
— Não deves, nunca, esquecer
Que só se pode vencer
Com muito amor e bondade!...

Em ti, gauchita esposa,
Em teu coração repousa,
A grandeza do teu lar!
Assim como os malmequeres,
São, nesta vida as mulheres,
Dependem querer amar!...

Ama, pois, o teu gaúcho;
E, sem vaidade, sem luxo,
Sem orgulho e ostentação,
Cuida com muito carinho
O teu lar, o teu ranchinho,
O berço da geração!...

Tu tens a nobre missão
De moldar o coração,
Dos teus filhos que hão de vir.
Para saberem honrar
Tradições da pátria, o lar,
E, do Rio Grande, o porvir!...

Eu trago, da vizinhança,
A carreta da esperança,
Carregada de saudade!
Do vizindário que implora
A Nosso Senhor, nesta hora,
Ao noivos, Felicidade!...

Felicidade... repito!
Que este meu brado, este grito,
Atravesse serros, lagos;
Entre leve, de mansinho,
No novo lar, novo ninho,
Que se ergue nos nossos pagos!...

("Saudação aos noivos"; proferida pelo dr. Hipólito Lucena, por ocasião da Festa Gaúcha do Clube Recreativo Brasileiro. Correio do Sul. Bagé, 20 de novembro de 1948)
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