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Bodoque ou estilingue?

Alcides Nicéa

Na linguagem popular, já não se observa uma acentuada diferença entre bodoque e estilingue, parecendo que o registro de uma ou outra designação chega na conformidade de usos e tradições ainda intangíveis pela fome de recursos modificadores do que é simples e original.

Mesmo que na maioria dos léxicos as definições queiram distinguir o arco com que se arremessa bola de barro endurecida (bodoque) da forquilha de madeira, usada pelos meninos na caça de passarinhos (estilingue), a tendência é a adoção dos dois termos sem separá-los pelas características, tal o sentido homogêneo da finalidade desses instrumentos rústicos que não chegam, sequer, a sugerir uma aguda diferenciação dos seus efeitos quando ativados.

Ambos foram criados para ações de arremesso de pequenos e improvisados projéteis.

O dicionarista Caldas Aulete, por exemplo,não chega a consubstanciar definições diferentes para os dois vocábulos, embora considere o bodoque "um arco para arremessar bolas de barro endurecidas ao fogo", mas na mesma linha explicativa considere-o "o mesmo que estilingue". [1]

Aurélio Buarque de Holanda não foge desse conceito quando leva o consulente do seu mais novo dicionário a conhecer o significado de estilingue com o tratamento dado ao termo atiradeira (forquilha de madeira ou de metal munida de elástico com que se atiram pedras e usada geralmente para matar passarinhos) fornecendo o mesmo vocabulista uma série de sinônimos ilustrada com "baladeira, bodoque, estilingue e setra" [2].

Nesse leva-e-traz de termos invariáveis pela sigificação, vem Laudelino Freire dizer que estilingue é "uma arma de arremesso a matar passarinhos" [3], a "pequena forquilha, geralmente de ramo de árvore e em forma de Y, munida de dois elásticos que se prendem pela outra extremidade a um pedaço de couro macio no qual se colocam pequenas pedras ou pelotas de barro cozidas ao sol ou ao fogo, usada como projéteis" [4], e com tais características e objetivo este intrumento é chamado de bodoque no Rio de Janeiro.

Para os cariocas, como de modo geral de Pernambuco ao Amazonas, o bodoque não é o arco construído com duas cordas e uma malha no centro em que se coloca uma bola de barro endurecida; é, sim, a baldeira definida por Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário de folclore, como uma "pequena arma infantil, de madeira e borracha, usada por toda criança do Nordeste, para matar passarinhos ou outras aves", valendo-se o caçador de "pedrinhas ou seixos que são atirados ao alvo".

Aqui, o mestre Câmara Cascudo não acompanha outros dicionaristas que se repetem na designação do tipo de projétil usado no estilingue ou no bodoque: bolas de barro endurecidas ao sol ou no fogo. No Nordeste, os meninos não se preocupam em amassar barro e cozinhá-lo sob formas esféricas, desde que é muito fácil e prática a apanha de pedras miúdas para servirem de projéteis na caça de aves pequenas.

Na Bahia, conforme explicação da folclorista Hildegardes Viana, o tratamento dado à forquilha em forma de Y é de bodoque "geralmente tirado de araçazeiro, com dois pedaços de leásticos presos às extremidades superiores por barbante. Na outra ponta dos elásticos é adaptado um pedaço de couro (língua de sapato velho ou retalho de sapateiro)". Diz mais a pesquisadora baiana: "A descrição corresponde ao que no Paraná e Santa Catarina chama-se setra. Os meninos usavam e ainda usam o bodoque para fazer batalha utilizando os frutos da mamoneira [aqui popularmente conhecido como carrapateira], como projétil, quando não utilizavam para caçar passarinho ou derrubar frutos pendentes". [5]

Lembra Hildegardes Viana a utilização do bodoque, ou do estilingue, ou da atiradeira, também como instrumento de batalhas simuladas em brincadeiras infantis, como fazia Lampião: "Virgulino, vivo e inteligente, tinha como brinquedo de infância a disputa entre grupos de meninos armados de bodoque" [6]. O romancista Jorge Amado revela esse ânimo guerreiro ao descrever promessas de combate a um lobisomem que trazia pavor aos moradores de um morro: "Zé Camarão propôs que se fizessem uma batida para pegar o bicho, porém poucas pessoas tiveram coragem. Só mesmo o negrinho Antônio Balduíno exultou com a proposta e escolheu pedras pontiagudas para o seu bodoque". [7]

Morais no seu dicionário descrebe a utilidade desse instrumento, definindo-o como estilingue, mas formando a sua explicação com esse estes esclarecimentos supletivos: "arma de arremesso, bodoque para apanhar pássaros, espécie de funda feita com elástico". [8]

Portanto, estilingue ou bodoque, atiradeira, baladeira ou setra, também a funda que faz lembrar a passagem bíblica, nenhum deles se distancia da espécie comum dos aparelhos rústicos usados pelas crianças em suas caçadas aos passarinhos, todos pouco diferenciados em seus formatos e objetivos.

Na verdade, o termo bodoque surge preferencialmente nas referências de nossos escritores, sobretudo quando eles recordam passagens da infância, como Monteiro Lobato: "Um pica-pau de cabeça vermelha zombou de mim. Errei a bodocada e..." [9]; Gilberto Amado: "... horas inteiras de bodoque na mão visando, no trançado das cercas entre folhas e gravetos, a corruíra" [10]; Gegório Bezerra: "Meus amigos Manuel, Antônio e Pedro Bispo construíram bodoques para matar passarinhos" [11]; Ulisses Lins de Albuquerque: "... meu pensamento voava para bem longe e outras coisas é que me interessavam — meus cavalos de pau e meus bodoques" [12].

Essa persistência levou o vocábulo a exprimir uma ação de caráter recreativo, tornando-se um verbo de singular importância na descrição de certos aspectos da vida campesina; "... caçando ninhos, bodocando".
 

Referências bibliográficas:
1. Caldas Aulete. Dicionário contemporâneo da língua portuguesa. Editora Delta SA.
2. Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. Editora Nova Fronteira
3. Laudelino Freire. Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa. A Noite Editora
4. Grande dicionário brasileiro Melhoramentos. Edições Melhoramentos
5. Boletim trimestral da Subcomissão Catarinense de Folclore. Ano 1, nº 1, setembro de 19??
6. Luís Luna. Lampião e seus cabras. 2ª ed. Livros do Mundo Inteiro
7. Jorge Amado. Jubiabá. 20ª ed. Livraria Martins Editora
8. Antônio de Morais Silva. Grande dicionário da língua portuguesa. Lisboa, Editorial Confluência
9. Monteiro Lobato. Negrinha. 9ª ed. Editora Brasiliense
10. Gilberto Amado. História de minha infância. 3ª ed. Livraria José Olímpio Editora
11. Gregório Bezerra. Memórias (primeira parte). 2ª ed. Civilização Brasileira
12. Ulisses Lins de Albuquerque. Um sertanejo e o sertão. 2ª ed. Livraria José Olímpio Editora

 

(Em Maior, Mário Souto; Valente, Valdemar. Antologia pernambucana de folclore. Recife, Fundação Joaquim Nabuco; Editora Massangana, 1988, p.9-12)
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