O folclore no meio infantil surpreende pela sua riqueza. É uma alegria para o coletor de fatos folclóricos penetrar nesse encantado território do nosso populário.
Vejamos, por exemplo, o brinquedo de empinar papagaio ou papavento. Obedece a um ciclo que se inicia com o mês de julho para terminar no derradeiro dia de agosto. Durante esse período, nas vilas e recantos das cidades valeparaibanas que não mataram as próprias tradições, o céu se povoa de papel colorido e os meninos não pensam, não cuidam de outra coisa. Reunem-se nos becos, nas praças sem movimento e nos campos de futebol varzeano, numa exibição vaidosa de papaventos caprichosamente confeccionados. Há todo um intenso comércio de venda e barganha. De tal sorte que, no decurso de sessenta dias, cada menino, filho de pai apatacado terá possuído numerosos papaventos.
É feito de papel de seda, geralmente em cores vivas como vermelho, amarelo, azul e verde. A folha de jornal velho é empregada pelos moleques desprovidos de recursos. A confecção é das próprias crianças em idade que às vezes tangencia a adolescência. Os tipos variam e há na forma de cada um, inteligente aplicação de princípios geométricos. Os mais comuns são quadrados, triangulares e hexagonais. Há um tipo de papavento grande, às vezes de altura acima de meio metro, que recebe o nome de "maranhão". É triangular e feito com papel de duas cores.
Não raro a gente ouve a palavra "arraia" como sinônimo de papagaio e papavento. Trata-se, porém, de simples extensão de sentido. "Arraia" ou "quadro" é apenas parte da peça. Um papavento se compõe do seguinte:
a) Arraia. Quadro de papel esticado por meio de talas de taquara.
b) Cabresto. Fios relativamente grossos e fortes que ligam as extremidades da arraia no "codornê". Da feitura do cabresto depende a perfeição do papagaio, que não subirá se tal peça não obedeceu a certo princípio.
c) Codornê. Forma aportuguesada e alterada do francês condornet. Consta de muitos metros de linha de costura, ou outro fio mais encorpado, que se prende ao cabresto. Também se chama "linha".
d) Máquina ou carretilha. Peça de madeira que contém o codornê. Consta de quatro tábuas pregadas em forma de retângulo, com manivela de arame e, no centro, a "estrela" onde se enrola o fio ou linha. Girando a manivela e, portanto, dando ou colhendo a linha é que se mantém o papavento no ar. Há vários tipos de carretilha. Reduz-se às vezes a simples carretel vazio ou a um pedaço roliço de sarrafo.
e) Varetas. São talas de taquara cruzadas duas no papavento, três no maranhão. Nelas é que se estica o papel e se estende o cabresto.
f) Rabo. É uma tira de papel ou de pano fino destinada a esvoaçar graciosamente ao vento. Nota-se uma vaidade e um capricho todo especial na confecção desta peça. Pode constar também de várias tiras de papel ou ser feito em forma de argolas ligadas como corrente.
g) Aviso. Esta parte figura excepcionalmente no papavento. Consta de um pedaço redondo de papel com orifício central por onde se enfia o codornê. Quando a arraia se põe a serenar, bonita nas alturas, o menino liberta o aviso que desliza até ao cabresto. Serve como delicada mensagem de carinho da alma infantil, que se ufana do seu lindo brinquedo.