Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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Nossa Senhora na poesia popular 2/2

Armindo Trevisan

Às vezes, é sumamente penoso conciliar no verso a correção e a profundeza da doutrina cristã com o donaire e a espontaneidade do verso. Se o poeta se mantém apegado em demasia à terminologia teológica expõe-se ao risco de apenas ritmar ou rimar períodos de grande precisão escolástica, é verdade, porém não raro de escasso valor literário. Doutro lado, se ele desfralda as velas aos ventos da própria inspiração, facilmente cai no extremo oposto, isto é, no erro, na falta de rigor ou na neblina doutrinal. Assemelha-se, então, à figueira evangélica de farta folhagem mas de nenhum fruto, que foi amaldiçoada por Cristo. Só os gênios conseguem a síntese. No entanto, por um estranho e gracioso processo de destilação poética, a musa popular chega a formular verdades dogmáticas profundíssimas em termos e imagens de uma simplicidade deliciosa. Leiamos, por exemplo, a seguinte célebre quadra lusitana, que Luís Chaves denomina "a mais formosa de todas".

No ventre da Virgem-Mãe
Encarnou Divina Graça:
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça.

Nesses despretenciosos versos acha-se expressa uma das verdades mais sublimes da fé católica, isto é, que a Virgem Maria concebeu e deu à luz o Salvador, conservando a própria virgindade. De igual maneira como a luz solar penetra no interior de uma casa e dela se retira através do vidro das janelas, sem no entanto quebrá-las, assim Jesus, a "Divina Graça", foi concebido pelo Espírito Santo no interior daquela mulher ilibada, que a Santa Igreja cognomina a "Casa de Ouro", e desse santuário saiu sem lhe deslustrar a intangibilidade virginal. Embora a idéia remonta à Antigüidade cristã e seja de procedência erudita, observa Maria Dulce Leão, foi o povo quem a assimilou e lhe imprimiu forma perfeita.

Outra quadra muito interessante, que reproduz romanticamente as palavras de Santa Isabel é: "bendito é o fruto do teu ventre", ou seja, que celebra a perfeição do filho para desta sorte exaltar-lhe a mãe, é a seguinte:

Não chames amor-perfeito
Uma flor que a terra cria!
Amor perfeito há só um.
Filho da Virgem Maria.

Os versos seguintes contêm uma figura tradicional incluída pela Liturgia no Ofício de Nossa Senhora — Vara de Jessé — de sabor genuinamente bíblico, onde não sabemos que mais admirar: se a justeza e graça do tema, se a concisão e limpidez do verso:

Duma flor nasceu a vara,
Da vara nasceu a flor,
Duma flor nasceu Maria,
De Maria, o Redentor.

Não menos bonita e litúrgica é a quadra que segue, a qual recorda o texto do Cântico dos cânticos, aplicado pela Igreja à Maria Santíssima.: "quem é esta que vai caminhando como a aurora quando se levanta..." e a exclamação do Salvador: "Eu sou a luz do mundo":

No Natal à meia-noite.
Noite de santa alegria,
Na aurora nasceu o sol,
Nasceu Jesus de Maria.

A imaginação popular não esquece o idílio de Nazaré, onde o Divino Salvador transcorreu trinta anos, a ganhar o pão a si e aos seus, na oficina de um modesto carpinteiro:

Nossa Senhora é a rosa.
O seu Menino é o cravo;
São José é o jardineiro
Desse jardim sagrado...

Outras vezes, as quadras aludem à suave prerrogativa de Maria: a Maternidade Espiritual dos homens, remidos pelo seu Filho. Como são ternas as expressões! Que ingênua confiança!

Nossa Senhora é mãe,
É mãe de quem a não tem,
Hei de pedir à Senhora
Que seja minha também.

Minha Mãe do Céu, valei-me
Que a da terra já não pode:
A do céu sempre está viva,
A da terra logo morre.

Senhora da Conceição
Minha Mãe, minha Madrinha:
Deitai-me a vossa benção.
Que eu inda sou "pequenininha"...

Senhora Mãe, eu queria
O que a minha alma deseja:
As portas do céu abertas
Que nem as portas da igreja!

Afora as de cunho marcadamente religioso, existem outras de estilo misto, se é que se pode classificá-las assim, em que se exprime um pensamento delicado, fazendo-se alusão à Virgem Maria:

O nome da Virgem é o mais comum dos nomes femininos em Portugal e no Brasil, índice do apreço em que os fiéis têm o patrocínio da Estrela do Mar, que é o que ele significa, segundo uma opinião atribuída a São Jerônimo, perito em língua hebraica. Reparece-se na feição graciosa com que o povo cristalizou essa verdade:

A rosa para ser rosa
Deve ser de Alexandria
A dama para ser dama
Deve chamar-se Maria.

A poesia é o êxtase da realidade, a transfiguração do trivial, a encarnação verbal do que sentimos, padecemos ou gozamos. Não admira que os versos populares espelhem ânsias e anelos mesmo líricos. Uma quadra notável neste sentido é a que traduz a preocupação de uma moça das serras pelo noivo, chamado ao quartel, cemitério de muitas afeições campestres:

Todos os dias eu rezo
À Senhora do Pilar,
Que me tire o meu amor
Da vida de militar.

Esta outra de uma naturalidade tocante, podia ser a súplica de qualquer alma consciente de sua debilidade espiritual:

Valha-me Nossa Senhora:
Que linda palavra eu dei:
Nossa Senhora me guarde
Já que eu guardar-me não sei...

Todas as composições poéticas alinhadas até aqui provêm de Portugal. Como ao princípio asseveramos, não possuímos nenhuma antologia ou coleção de poesias marianas do folclore brasileiro, nem sequer sabemos se fazem pesquisas sobre as mesmas. Perdoam-nos os leitores. O que respigamos nesse setor, damos a seguir.

O padre Serafim Leite, doutor historiador (da Academia Brasileira de Letras, da Academia Portuguesa de História, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), num trabalho dado a luma na Brotéria (dezembro de 1964), assegura: "A poesia no Brasil nasceu aos pés de Nossa Senhora. Os primeiros exemplares conhecidos são de jesuítas e o primeiro grande poema escrito no Brasil é o De Beata Virginis Dei Matre Maria, do padre José de Anchieta". O mesmo oferece-nos uma amostra de poesia popular nos versos que um índio recitou ao padre Marçal Beliarte, provincial dos jesuítas, por ocasião da visita deste à aldeia da Conceição de Guaraparim:

Esta vossa pobre Aldeia
De Guaraparim chamada
É deleitosa morada
Da Senhora da Galiléia
Que por sua a tem amada
Para nela ser amada
E com toda a devoção
E de todo o coração
Ser de todos venerada
Sua limpa Conceição.

Uns são velhos moradores
Outros novos do sertão.
Mas todos de coração
Desejam ser amadores
Da Virgem da Conceição.

Uma quadrinha, borrifada de uma certa piedosa brejeirice, é a de Peri Ogibe Rocha. Ignoro se é muito conhecida:

Nunca falo das Marias
Com ares de zombador
Porque também é Maria
A Mãe de Nosso Senhor.

Jesus de Miranda escreveu a seguinte formosa estrofe, digna de ser popularizada:

Nossa Senhora das Graças
É a mesma Mãe de Jesus;
Quem quiser as graças dela
Não clame ao peso da cruz!

Por sua vez a pena dourada do cardeal dom Augusto Álvaro da Silva, arcebispo de Salvador, poeta de fino quilate, tendo publicado um livro de versos sob o pseudônimo Carlos Neto, deixou cair esta pequenina jóia mariana, baseada num mimoso trocadilho:

A paz de Nossa Senhora
Toda tristeza desfaz,
Portanto, procura agora
Nossa Senhora da Paz.

Fechamos essa reduzida compilação, inserindo duas quadrinhas marianas de nossa lavra. A primeira quer exprimir, embora a imagem seja berrante, a consoladora verdade de que a Mãe de Deus é a "Onipotência Suplicante" e que é tão grande o seu poder que:

"Lo que Dios puede por si, no lo hace. Si, preciosa Infanta, a ti no te place!" no dizer do poeta espanhol Ambrósio de Montesino. Os próprios demônios — o que é impossível — obteriam perdão se tivessem a humildade de recorrer ao seu valimento. A segunda enaltece a fidelidade Daquela que foi chamada a "Cheia de Graça" pelo embaixador do Eterno e que, pela sua obediência amorosa aos planos divinos, foi o princípio da nossa felicidade, como Eva, pela sua desobediência, foi o princípio da nossa desgraça:

Se os diabos fizessem preço
A Senhora sem labéu.
Deus acabava botando
O inferno dentro do céu...

Nossa culpa, nossa treva
Vem de um engano, eu diria:
É porque Deus criou Eva
Antes de criar Maria!

(Trevisan, Armindo. "Nossa Senhora na poesia popular". Jornal do Dia. Porto Alegre, 07 de outubro de 1956)
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