Armindo Trevisan
O mês de outubro é consagrado ao culto especial da Mãe de Jesus. Em todos os recantos do Brasil, adornam-se as imagens de Maria Santíssima., acendem-se lâmpadas em sua honra, realizam-se devoções impregnadas de reverência e carinho, nas quais a alma do povo, profundamente católica, externa seus sentimentos filiais para com aquela que o Salvador moribundo nos deu por mãe, ao dizer ao discípulo predileto, São João: "Eis ai tua mãe. Desejando contribuir de algum modo ao esplendor das homenagens que o povo lhe tributa, apresentamos aos leitores do Jornal do Dia modesta seleção de composições poéticas marianas de Portugal e do Brasil.
É incontestável que os conquistadores portugueses influíram notavelmente no nascimento e desenvolvimento do culto mariano em nossa pátria. Desde o início, Portugal esteve sob o singular patrocínio da Virgem, sendo o seu primeiro nome Terra de Santa Maria. A tradição lusa atribui a vitória de Aljubarrota, numa hora que perigava a independência da nação, à uma intervenção milagrosa da Mãe do Senhor. O poeta Correia d'Oliveira escreveu:
Viriato não fez pátria.
Nem Sertório... Engano de hora!
— Se Maria inda não era.
Lusitânia como o fora?
Dessa devoção são prova cabal a abundância de templos, oratórios e ermidas, levantadas em Portugal e nas regiões descobertas pelos navegadores portugueses. Em 6 de dezembro de 1644, dom João IV determinou que Nossa Senhora fosse declarada Padroeira do Reino. O mesmo princípe jurou, em nome de sua dinastia e dos seus vassalos, de confessar e defender sempre, até a vida sendo necessário, que a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi concebida sem pecado original. "E se alguma pessoa — diz a provisão do memorável acontecimento — intentar coisa alguma contra esta nossa promessa, juramento ou vassalagem, por este mesmo efeito, sendo vassalo, o hemos por não natural e queremos que seja logo lançado fora do Reino, e se for Rei, o que Deus não permita, haja (tenha) a sua e nossa maldição e não se conte entre os nossos descendentes, esperando que pelo mesmo Deus, que nos deu o Reino e subiu à dignidade real, seja dela abatido e despojado..."
A profusão de nomes marianos testemunha uma vez mais o amor dos filhos de Portugal à Mãe do Redentor. Uma das naus, em que veio o primeiro governador geral do Brasil Tomé de Souza, chamava-se Conceição. Na cidade do Salvador, ergueram-se de início três igrejas: a do Salvador, a da Ajuda e a da Conceição. Se percorrermos a série dos nomes das povoações, bairros, quintas, lugares, fortes, fortins etc. veremos como abundam as denominações marianas, por exemplo: Conceição da Barra, Conceição da Serra, do Pará, do Rio Verde etc..
Num clima tão propício, evidentemente, o folclore devia brotar e florescer à maravilha. Para este nosso trabalho, servimo-nos de um estudo de Luís Chaves, publicado na revista Brotéria (dezembro de 1948) e de uma colaboração de Maria Dulce Leão: "Nossa Senhora na literatura portuguesa" para o tomo II dos Etudes sur la Sainte Vierge, sous la direction D'Hubert Du Manoir S. J.. Não sabemos se existe no Brasil algum livro sobre tradições e canções marianas. A poesia, como o acentua o escritor P. Abílio Martins:
"é cor, sim, mais não só cor, é destino, é relevo, é idéia, é sombra, é sonho, é corpo, é alma, é vida." Parece-nos, pois, impossível que a Mãe de Deus, tão estremecida pelo nosso povo, não haja inspirado os nossos trovadores e poetas populares, cujas produções possuem em alto grau as qualidades que acabamos de enunciar. Fazemos, por isso, um apelo no sentido de que se garimpem as preciosidades poéticas marianas do nosso folclore: quadras, canções, preces etc. Dom Hélder Câmara publicou, há pouco, uma coleção de 106 títulos, com que os fiéis invocam Nossa Senhora, os quais correspondem a 992 paróquias. Por que não empreender colheita semelhantes de poesias populares?