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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Panacéia

ANO VI - EDIÇÃO 66
MAIO 2004

Panacéia
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Higiene e hábitos corporais, por Alceu Maynard Araújo

Mês de Maria, por Hildegardes Vianna

Espantalhos, por Saul Martins
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Catavento
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Almanaque
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PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


Espantalhos

Saul Martins

Quem já viajou a cavalo pelo sertão de Minas, certamente viu erguidos sobre as roças, à frente das fazendas, nas porteiras dos currais ou, muitas vezes, nas encruzilhadas onde fantasmas se reúnem, enormes bonecos de feições esquisitas.

São os espantalhos.

Na estação das chuvas aparecem em maior quantidade verdadeiros espetáculos desses grosseiros manequins, quase sempre feitos de palha, outros de pano branco ou vermelho.

Há quem prefira, simplesmente, espetar na ponta de uma vara a caveira do boi de estimação, como faziam os nossos índios à entrada das malocas, com os crânios de inimigos nas caiçaras de pau-a-pique.

Uma herança, talvez.

No centro norte-mineiro, além das campinas do rio Peruassu, já nas vizinhanças do estado da Bahia, moradores aproveitam caças abatidas, principalmente jabirus, emas e mutuns, para criar seus fetiches, retirando-lhes as vísceras e mumificando-as grosseiramente.

Mais comum ainda, naqueles centros, é pregarem nas cancelas que dão entrada às fazendas, cornos de veado, com o fim de defenderem e também  contra as mordeduras de cobras venenosas.

Há figuras, todavia, que não sugerem fetichismo algum e mostram abundância de cores e adereços tipicamente campesinos.

Os espantalhos mais interessantes, lembram eles figuras estrambóticas ou monstros de arte egípcia, da era de Ramsés.

Cada fazendeiro ou lavrador modela ou esculpe seus bonecos, negando escolha própria, ou preferências ancestrais. Fazem-nos seus defensores contra feitiços e mau-olhados. E é fácil deduzir que os consideram protetores seus e de suas terras; daí curtos conceitos sociológicos de que esses totens representam uma forma primitiva de religião de verdade, vêmo-los entre povos de costumes semi-primitivos, moradores de zonas distantes do mundo civilizado e onde o cristianismo, mal chegado, ainda se mistura a cultos pagãos. Émile Durkheim considerou-os origem da família, os antepassados das tribos e dos clãs, explicando que a família incial não era de sangue e sim de crença, por isso que dois ou mais indivíduos só se julgavam parentes se suas mães descendenssem do mesmo totem.

Fato deveras singular, com relação aos espantalhos das zonas agrícolas dos vales do Pandeiros, Pardo, verifica-se na época que vai da floração à colheita das roças, quando estas são invadidas, como dizem os rudes lavradores daquela região, por malefícios e pragas de todo o gênero. Aprumam, então, nesse caso, grande número de espantalhos nos diversos cantos da roça, reservando apenas um, que deixam livre com o intuito de induzir todos aqueles inimigos a uma debandada geral. Quando essa brecha se liga à cultura de um vizinho, este zanga-se, reclama de que a emigração das feitiçarias e mundiças se faça através de sua lavoura. Mundiça é o termo que indica todas as pragas que infestam as plantações, como sejam as lagartas, os besouros e os gafanhotos; de mesmo modo também designa as nuvens de passarinhos que descem sobre as lavouras de milho, arroz e gergelim, em cata de alimento.

Embora pareça exagero, a verdade é que nesse ângulo de populário um cientista fará grande revelações, se investigasse, in loco e em toda a sua extensão, aquele campo norte-mineiro, depositário de pitorescos e importantes segredos.

(Martins, Saul. "Espantalhos". O Diário. Belo Horizonte, 26 de março de 1950)