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Saul Martins
Quem já viajou a cavalo pelo sertão de Minas, certamente viu erguidos sobre as
roças, à frente das fazendas, nas porteiras dos currais ou, muitas vezes, nas
encruzilhadas onde fantasmas se reúnem, enormes bonecos de feições esquisitas.
São os espantalhos.
Na estação das chuvas aparecem em maior quantidade verdadeiros espetáculos
desses grosseiros manequins, quase sempre feitos de palha, outros de pano
branco ou vermelho.
Há quem prefira, simplesmente, espetar na ponta de uma vara a caveira do boi de
estimação, como faziam os nossos índios à entrada das malocas, com os crânios de
inimigos nas caiçaras de pau-a-pique.
Uma herança, talvez.
No centro norte-mineiro, além das campinas do rio Peruassu, já nas vizinhanças
do estado da Bahia, moradores aproveitam caças abatidas, principalmente jabirus,
emas e mutuns, para criar seus fetiches, retirando-lhes as vísceras e
mumificando-as grosseiramente.
Mais comum ainda, naqueles centros, é pregarem nas cancelas que dão entrada às
fazendas, cornos de veado, com o fim de defenderem e também contra as
mordeduras de cobras venenosas.
Há figuras, todavia, que não sugerem fetichismo algum e mostram abundância de
cores e adereços tipicamente campesinos.
Os espantalhos mais interessantes, lembram eles figuras estrambóticas ou
monstros de arte egípcia, da era de Ramsés.
Cada fazendeiro ou lavrador modela ou esculpe seus bonecos, negando escolha
própria, ou preferências ancestrais. Fazem-nos seus defensores contra feitiços e
mau-olhados. E é fácil deduzir que os consideram protetores seus e de suas
terras; daí curtos conceitos sociológicos de que esses totens representam uma
forma primitiva de religião de verdade, vêmo-los entre povos de costumes
semi-primitivos, moradores de zonas distantes do mundo civilizado e onde o
cristianismo, mal chegado, ainda se mistura a cultos pagãos. Émile Durkheim
considerou-os origem da família, os antepassados das tribos e dos clãs,
explicando que a família incial não era de sangue e sim de crença, por isso que
dois ou mais indivíduos só se julgavam parentes se suas mães descendenssem do
mesmo totem.
Fato deveras singular, com relação aos espantalhos das zonas agrícolas dos vales
do Pandeiros, Pardo, verifica-se na época que vai da floração à colheita das
roças, quando estas são invadidas, como dizem os rudes lavradores daquela
região, por malefícios e pragas de todo o gênero. Aprumam, então, nesse caso,
grande número de espantalhos nos diversos cantos da roça, reservando apenas um,
que deixam livre com o intuito de induzir todos aqueles inimigos a uma debandada
geral. Quando essa brecha se liga à cultura de um vizinho, este zanga-se,
reclama de que a emigração das feitiçarias e mundiças se faça através de sua
lavoura. Mundiça é o termo que indica todas as pragas que infestam as
plantações, como sejam as lagartas, os besouros e os gafanhotos; de mesmo modo
também designa as nuvens de passarinhos que descem sobre as lavouras de milho,
arroz e gergelim, em cata de alimento.
Embora pareça exagero, a verdade é que nesse ângulo de populário um cientista
fará grande revelações, se investigasse, in loco e em toda a sua extensão,
aquele campo norte-mineiro, depositário de pitorescos e importantes segredos.
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