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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Panacéia

ANO VI - EDIÇÃO 66
MAIO 2004

Panacéia
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Higiene e hábitos corporais, por Alceu Maynard Araújo

Mês de Maria, por Hildegardes Vianna

Espantalhos, por Saul Martins
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Catavento
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Almanaque
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PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


Mês de Maria

Hildegardes Vianna

Mês de Maria de ontem, de hoje e de sempre! Ontem como hoje mocinhas radiosas e solteironas fanadas se ajoelham todas as noites para cantar benditos mais ou menos afinados. Em salões bem iluminados ou em saletas escuras ainda são encontrados os altares improvisados enfeitados de folhetas e palmas. Coros magníficos e meigos poemas enchem de doçura as noites marianas. Também vozes desafinadas e letras estropeadas aumenta o anedotário do mês de Maria. O já alentado anedotário que tem sempre como ponto de partida o clássico "Regina parte a cara".

O culto à Maria nasceu com a Igreja e desenvolveu-se com ela. Entre as muitas devoções que têm sido estabelecidas em sua honra destacam-se a do rosário, a do escapulário, a celebração do mês do Rosário e do mês de Maria.

Entretanto a idéia de uma virgem mãe de Jesus encontra-se de maneira confusa num grande número de religiões e em diversos povos do velho e do novo mundo. Uns vêm nisto uma recordação de tradições primitivas e outros o resultado natural do prestígio que a virgindade teve em todos os povos da Antigüidade. A idéia da Virgem já é encontrada nos "afresco" das catacumbas nos cemitérios de Priscilla e Domitila. As virgens bizantinas são muitas e na Idade Média encontramos imagens, "afrescos", mosaicos e esculturas em que o tema principal é a virgem.

A anunciação é tão antiga que Santo Atanásio (século IV) a ela se refere em um dos seus sermões. Também aos pormenores maravilhosos da Assunção remontam as lendas do século IV. A mãe de Jesus tem direito ao culto mais elevado que possa receber uma criatura, ou seja, o que os teólogos denominam de hiperdulia.

O nome de Maria já foi de tão grande veneração que em certos países proibiam de mulheres usá-lo. O nome de Maria traduzia algo de puro, inigualável, que não devia ser maculado. Afonso IV, rei de Castela, estando para casar com uma jovem moura, declarou que a não tomaria por esposa se lhe pusessem no batismo o nome de Maria. Entre as condições do casamento estipulados para Maria de Nevere e Vladislau, rei da Polônia, havia uma que dispunha que a princesa trocasse o seu nome pelo de Aloísia. Sabe-se também que Cassimiro, rei da Polônia que pelos esforços para o desenvolvimento da instrução e extinção do paganismo foi cognominado de restaurador, casando com Maria, filha do duque da Rússia, exigiu a mesma coisa da que tomava por mulher. Se voltasse a moda, os milhões de Maria que há no mundo teriam de mudar de nome.

O mês de Maria, familiar nos nossos dias não oferece termo de comparação ao dos velhos bons tempos. Todos repetem que mês de Maria antigamente queria dizer muita festa e alegria. Comidas, bebidas e danças. Sem esquecer, é claro, de exaltar a dona do mês com cânticos e orações.

Ah! O mês de Maria dos tempos em que fartura era palavra no dicionário do pobre. Há por exemplo memória daquele carteiro que, vivendo na missão de alcançar, sem bulir na bolsa, um lugar ao sol nas classes altas, fazia um mês de Maria a seco. Convidava tudo quanto era doutor que lhe caísse sob as vistas, derramando-se em rapapés às filhas dos negociantes fortes. Enfeitava o porta-cristal com frasqueiras cheias de água com anilina para fingir bebidas e oferecia no último dia um boato de arroz doce com uma poeirinha de canela em pó a fazer ação de presença.

Cantar e dançar 31 noites sem achar forro para o estômago não era nada agradável. Por isto, o carteiro ficou celebre na crônica do mês de Maria da cidade.

O comum era o mês de Maria com danças todas as noites, quando fulano e sicrana faziam força para tornarem a sua mais bela e mais animada, mudando a ornamentação do altar, arranjando músicos e arregimentando boas cantoras. Vestidinhos de cassa bordada e laços de fita enfeitando a cintura, cabeleira em cachos ou entrançado, as moças rodopiavam ao som de polesa, achotings, quadrilhas e valsas, pôr de quatro e mazurcas com os distintos cavaleiros de colete de fustão e colarinho engomado. Tudo era alegria. Até os brancos cortinados rendados das flanelas. Até as mamães e titias que sentadas no quarto da sala recordavam o seu tempo. No último dia havia missa e procissão. As moças discutiam nervosas com a dona da imagem disputando a sua vez de carregar o andor de Nossa Senhora, pois todas sabiam que a que carregasse a Virgem no outro ano estaria casada.

Um mês de Maria que fez época pela fartura e finura, foi o de dona Cora Sanches no Acupe de Brotas. Isto no tempo em que o Acupe ficava no fim do mundo. Para este mês de Maria a dona da casa mandava os empregados com montarias esperar os convidados no largo da Fonte Nova. A excelente senhora além de transportar, hospedava, por quantos dias quisessem, as famílias que moravam nos lugares mais distantes. Após as rezas havia função e depois da função serenatas, quando havia uma. Aquilo sim é que era um mês de Maria.

(Viana, Hildegardes. "Mês de Maria". A Tarde. Salvador, Bahia, 05 de maio de 1956)