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Hildegardes Vianna
Mês de Maria de ontem, de hoje e de sempre! Ontem como hoje mocinhas radiosas e
solteironas fanadas se ajoelham todas as noites para cantar benditos mais ou
menos afinados. Em salões bem iluminados ou em saletas escuras ainda são
encontrados os altares improvisados enfeitados de folhetas e palmas. Coros
magníficos e meigos poemas enchem de doçura as noites marianas. Também vozes
desafinadas e letras estropeadas aumenta o anedotário do mês de Maria. O já
alentado anedotário que tem sempre como ponto de partida o clássico "Regina
parte a cara".
O culto à Maria nasceu com a Igreja e desenvolveu-se com ela. Entre as muitas
devoções que têm sido estabelecidas em sua honra destacam-se a do rosário, a do
escapulário, a celebração do mês do Rosário e do mês de Maria.
Entretanto a idéia de uma virgem mãe de Jesus encontra-se de maneira confusa num
grande número de religiões e em diversos povos do velho e do novo mundo. Uns vêm
nisto uma recordação de tradições primitivas e outros o resultado natural do
prestígio que a virgindade teve em todos os povos da Antigüidade. A idéia da
Virgem já é encontrada nos "afresco" das catacumbas nos cemitérios de Priscilla
e Domitila. As virgens bizantinas são muitas e na Idade Média encontramos
imagens, "afrescos", mosaicos e esculturas em que o tema principal é a virgem.
A anunciação é tão antiga que Santo Atanásio (século IV) a ela se refere em um
dos seus sermões. Também aos pormenores maravilhosos da Assunção remontam as
lendas do século IV. A mãe de Jesus tem direito ao culto mais elevado que possa
receber uma criatura, ou seja, o que os teólogos denominam de hiperdulia.
O nome de Maria já foi de tão grande veneração que em certos países proibiam de
mulheres usá-lo. O nome de Maria traduzia algo de puro, inigualável, que não
devia ser maculado. Afonso IV, rei de Castela, estando para casar com uma jovem
moura, declarou que a não tomaria por esposa se lhe pusessem no batismo o nome
de Maria. Entre as condições do casamento estipulados para Maria de Nevere
e Vladislau, rei da Polônia, havia uma que dispunha que a princesa trocasse o
seu nome pelo de Aloísia. Sabe-se também que Cassimiro, rei da Polônia que pelos
esforços para o desenvolvimento da instrução e extinção do paganismo foi
cognominado de restaurador, casando com Maria, filha do duque da Rússia, exigiu
a mesma coisa da que tomava por mulher. Se voltasse a moda, os milhões de Maria
que há no mundo teriam de mudar de nome.
O mês de Maria, familiar nos nossos dias não oferece termo de comparação ao dos
velhos bons tempos. Todos repetem que mês de Maria antigamente queria dizer
muita festa e alegria. Comidas, bebidas e danças. Sem esquecer, é claro, de
exaltar a dona do mês com cânticos e orações.
Ah! O mês de Maria dos tempos em que fartura era palavra no dicionário do pobre.
Há por exemplo memória daquele carteiro que, vivendo na missão de alcançar, sem
bulir na bolsa, um lugar ao sol nas classes altas, fazia um mês de Maria a seco.
Convidava tudo quanto era doutor que lhe caísse sob as vistas, derramando-se em
rapapés às filhas dos negociantes fortes. Enfeitava o porta-cristal com
frasqueiras cheias de água com anilina para fingir bebidas e oferecia no último
dia um boato de arroz doce com uma poeirinha de canela em pó a fazer ação de
presença.
Cantar e dançar 31 noites sem achar forro para o estômago não era nada
agradável. Por isto, o carteiro ficou celebre na crônica do mês de Maria da
cidade.
O comum era o mês de Maria com danças todas as noites, quando fulano e sicrana
faziam força para tornarem a sua mais bela e mais animada, mudando a
ornamentação do altar, arranjando músicos e arregimentando boas cantoras.
Vestidinhos de cassa bordada e laços de fita enfeitando a cintura, cabeleira em
cachos ou entrançado, as moças rodopiavam ao som de polesa, achotings,
quadrilhas e valsas, pôr de quatro e mazurcas com os distintos cavaleiros de
colete de fustão e colarinho engomado. Tudo era alegria. Até os brancos
cortinados rendados das flanelas. Até as mamães e titias que sentadas no quarto
da sala recordavam o seu tempo. No último dia havia missa e procissão. As moças
discutiam nervosas com a dona da imagem disputando a sua vez de carregar o andor
de Nossa Senhora, pois todas sabiam que a que carregasse a Virgem no outro ano
estaria casada.
Um mês de Maria que fez época pela fartura e finura, foi o de dona Cora Sanches no
Acupe de Brotas. Isto no tempo em que o Acupe ficava no fim do mundo. Para este
mês de Maria a dona da casa mandava os empregados com montarias esperar os
convidados no largo da Fonte Nova. A excelente senhora além de transportar,
hospedava, por quantos dias quisessem, as famílias que moravam nos lugares mais
distantes. Após as rezas havia função e depois da função serenatas, quando havia
uma. Aquilo sim é que era um mês de Maria.
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