|
Eduardo Campos
O sertanejo é um homem que, acima de tudo honra e enaltece os chamados
predicados morais. Não se pense por ter dominado os sertões uma onda de crimes e
ainda hoje acontecem vez por outra, é sinal de que nosso ruricole é um
cangaceiro em potencial, sempre disposto a matar seu desafeto de emboscada ou
praticar maiores indignidades. Ouve-se, com freqüência no sertão "Fulano fez
justiça com as próprias mãos". Essa frase dita e repetida amiúde esclarece a
situação peticosa do sertanejo, levado quase sempre à luta ao crime, pela
deturpação da lei a ferir os seus direitos.
Luís da Câmara Cascudo — e poderíamos citar tantos outros — ao descrever o ciclo
social do cangaceiro, após afirma com muita propriedade que "o sertanejo não
admira o criminoso, mas o homem valente reúne estas palavras que bem definem o
caráter da coletividade cabocla que torna o nosso hinterland: "O sertão
indistingue o cangaceiro do homem valente. Para ele a função criminosa é
acidental. Raramente sentimos, nos versos entusiastas, um vislumbre de crítica
ou de reproche à selvageria do assassino. O essencial é a coragem pessoal, o
desassombro, a afoiteza, o arrojo de medir-se imediatamente contra um ou contra
vinte".
O cangaceiro é sempre um injustiçado — e a descoberta não é nova — e ganha
simpatia no cancioneiro popular justamente porque não encontrando refúgio na lei
procura fazer com o punhal, com seu rifle, a justiça com as próprias mãos.
Mas, é principalmente em seu romanceiro que vamos encontrar o elogio às virtudes
do homem. Em sua linguagem saborosa e muitas vezes de uma ingenuidade comovedora
o poeta sertanejo sublinha as qualidades que devemos ter para conquistar ora as
portas do céu, ora a amizade de um senhor importante ou a confiança dos nossos
melhores amigos.
Não há um romance de feira, por mais modesto que seja, que não se encontre no
desenrolar de sua história um ou mais versos que exortem na rima simples todo o
decálogo de normas que o homem deve obedecer para se fazer merecedor
principalmente da graça de Deus. A impressão do crime praticado por banditismo
não recebe perdão do sertanejo. E o primeiro exemplo desse comportamento de
repulsa ao pecador declarado, vamos encontrar nos versos do Grande debate de
Lampião com São Pedro:
Você não entra, atrevido
São Pedro lhe disse assim:
Ingresso a quem é ruim
Nesta porta é proibido
Não sabes que sois bandido
Roubador da vida humana
Alma ferina e tirana
Coração cruel perverso
Como querer um ingresso
No entanto é no romance de João Bernardo da Silva, Aviso do padre Cícero, que
vamos encontrar todas essas manifestações da moral sertaneja e que nesse
trabalho se reúnem sob a inspiração do patriarca do Juazeiro do Norte. Na capa
do livro se podem ler uma legenda — "para despertar os descuidados e
converter os pecadores" — e quase todos os versos apontam ao leitor os tipos de
pecadores mais comuns. Dessa catilinaria campestre aos vícios e viciados não
escapam o jogador, o alcóolatra, os "dançadores desonestos", os casais de vidas
irregular, o "falador da vida alheia", o pai de família sem responsabilidades, o
assassino "carniceiro" e o "ladrão proficionista, corruptor da santa paz, etc.etc.
Dançadores desonestos
Vejam as honras violadas
Vossas mulheres e filhas
Nossas ambas desrespeitadas
Se continuares assim
As vossas almas por mim
Todas serão condenadas
Amancebado cascudo
Carranca de boi de era
Tira o laço do pescoço
Que o satanás já te espera
Para te passar a navalha
Trancado numa muralha
Junto com a besta-fera
Os heróis desse povo são todos amigos do bem. Não conheço verso que desfigure
esta verdade. O homem que parte para vencer o inimigo não faz pelo desejo de ver
o sangue correr, mas de mostrar que também possui direitos que a justiça precisa
ser feita.
Eu nasci para ser homem
E enfrentar todo artigo
Tempo ruim para mim não tem
E da honra sou amigo
Vou buscar o Zé Mendonça
Pra metê-lo no castigo
São versos assim que vamos ler em Francisco Sales, contando o encontro de
Antônio Cobra Choca com o sertanejo Valente, confirmando as nossas palavras. E
outro herói popular o valente José Targino na descrição de Severino Borges da
Silva, historiador do povo, possui também essas qualidades que sempre estão
presentes para identificar o caráter do sertanejo:
Targino era assim porém
Respeitava a casa alheia
Honrava toda mulher
Simpática, bonita ou feia
De compaixão para os pobres
A sua alma era cheia
Cego, aleijado, mendigo
E velho principalmente
Ele socorria todos
Não era uma vez corrente
Se amém salva uma alma
Ele é salvo certamente
Na verdade os heróis do sertão devem reunir tanto quanto possível essas
qualidades de caráter que o sertanejo reconhece e admira nas criaturas,
impossível encontrar praticados por esses tipos criados pela imaginação popular,
atos que deponham contra sua vida em sociedade. E não se diga que a fomentar e a
estimular essa moral está antes de mais nada a influência decisiva de Missões
abreviadas, famoso livro que espalhou pelo sertão todo um temor ao pecado, que
ainda hoje faz do sertanejo um homem temente a Deus e depois, pelo menos na
grande área do Nordeste influenciada pelos movimentos de fervor religioso, a
recordação sempre viva do padre Cícero que já rico desta expressão
geográfica se converteu num ciclo folclórico.
O pesquisador obstinado que se sentir arrebatado pelo assunto não terá surpresas
para provar que desses dois fatores aqui citados, e de outros que não nos
lembramos no momento, depende principalmente o comportamento do sertanejo de seu
código moral.
|