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Carlos Borges Schmidt
Em seu livro sobre a pré-história americana, Callais Frau divulga um desenho em
que se vê um grupo de trabalhadores empregando no afã agrícola da atualidade a
antiga taclia, da qual não existe referência no texto. Seu nome sugere
uma procedência mexicana. A taclia é, na verdade uma estaca de cavar, um
chuço melhorado. Seu cabo, ou melhor, sua extremidade superior, aliás bastante
alta, na posição de trabalho, é arqueada, existindo, na parte inferior,
saliências à feição de estribo, onde o trabalhador auxilia com o pé para
imprimir maior força de penetração, quando deseja fazê-la enterrar-se no fundo
do solo. Huber, por seu lado, que estudou as civilizações andinas, divulga um
desenho antigo onde se vê o inca, e príncipes, abrindo a estação dos trabalhos
agrícolas. Na mesma disposição dos trabalhadores acima referidos, trabalhavam
com semelhante instrumento, a koe kampaia, porém mais baixo do que a taclia.
Quando as populações primitivas recebem instrumentos agrícolas de ferro, pela
primeira vez, é muito natural e comum mesmo, que os membros da comunidade, que
se dedicam às atividades roceiras, continuem a usar, durante bastante tempo, ao
lado dos utensílios recebidos, os seus antigos elementos materiais de trabalho.
Aliás, inclusive entre nossas populações caboclas — caipiras e caiçaras — este
processo vivo de aculturação pode ser observado, como ocorre — fato já
mencionado — nas áreas, para não citar outras, de Peruíbe, Iguape e Jacupiranga,
onde se pode constatar a coexistência de chuço e da enxada.
Viajando em terras goianas em 1819, Pohl visitou na aldeia de Cocal Grande,
situada à margem do rio Maranhão (afluente do Tocantins), os índios poracramecrã.
Observou entre eles, dedicados ao trabalho agrícola, vários fatos relacionados
com essa atividade produtora. Cada família constante de um número de indivíduos
que variava entre oito e vinte pessoas, possuía sua roça própria, mostrando-se
todos os trabalhadores e diligentes. Suas roças aproximavam-se da forma
circular, com cerca de 100 braças de diâmetro (220m), o que corresponderia a
pouco mais de um alqueire e meio dos paulistas, ou melhor a 3,8 hectares. O seu
processo de cultivo era o já tradicional entre populações que tais; derrubada ou
limpa, e fogo. Os principais produtos agrícolas cultivados eram mandioca, milho,
batata, cará, feijão e cabaceiras de forma recursa, usadas para a confecção de
buzinas de guerra e cuias arrendondadas. Até pouco tempo antes das passagem por
ali do naturalista, trabalhavam em suas roças exclusivamente com o pau
pontiagudo, porém na ocasião da visita de Pohl, já empregavam também utensílios
de ferro que lhes tinham sido doados.
A enxada no Brasil, ainda mantém o seu primado na agricultura, conforme apurou a
Comissão Nacional de Política Agrária (1954), com a colaboração do Conselho
Nacional de Estatística. Verificou-se então, que a enxada é mais comum no sul e
no leste, enquanto a foice e o machado destacavam-se no norte e no centro-oeste.
Na região norte a enxada foi mencionada em 97,9 por cento dos municípios; no
nordestes em 99,3 por cento; no sul em 94,7 por cento; em todos os do
centro-oeste. Quanto ao arado, ele foi mencionado em 1,9 por cento dos
municípios do nordeste; em 10,5 por cento dos do leste; em 24,1 por cento dos do
sul, e em 2,7 por cento dos do centro-oeste. Nenhum município da região norte se
referiu ao arado.
Como utensílio agrícola, a enxada deve ter aportado em terras brasileiras com a
primeira frota colonizadora. E desde logo teria surgido a necessidade de
instalação de forjas para a sua confecção, com ferro recebido do Velho Mundo,
fato logo seguido, como se pode supor, das primeiras tentativas para a redução
do minério do país, precursoras da indústria siderúrgica que agora se
desenvolve, mais e mais. E nos primeiros tempos, caro custa o indispensável e
eficiente instrumento agrícola. Tanto que nenhum exemplar, estivesse como fosse,
era desprezado. Num simples exemplo pode ser aquilatado do valor,
comparativamente, entre aquelas e outras ferramentas, e mesmo com outros bens,
como no inventário de Antônio Pires, no ano de 1600. Eis uma pequena relação dos
bens deixados o suficiente para a constatação do fato. "Uma casa de palha de
dois lanços com benfeitorias e milho verde, porque a terra não é do defunto,
tudo posto em dois mil e quinhentos réis. As roças de mantimento velho e novo,
tudo avaliado em dezesseis mil réis. Uma milharada na banda d'além do rio em
quatro cruzados. Cinco enxadas velhas avaliadas em seis tostões. Quatro foices
velhas avaliadas em um cruzado. Um machado e uma cunha avaliado em trezentos e
vinte réis. Dois pratos de estanho grandes uma pataca". Menos de duas dúzias de
enxadas velhas, valiam, como se vê, uma casa e outras benfeitorias, além de uma
roça de milho em ponto de pamonha ou curau, ou então, tudo por oito machados e
outras tantas cunhas. O ferro valia ouro.
Deixando os primeiros tempos da colônia, e voltando pelos anos a fora para
nossos dias, vamos verificar que os numerosos viajantes estrangeiros que na
primeira metade do século passado percorreram o nosso território quase todos
deixaram interessantes informes sobre utensílios e maquinária agrícola da época,
aqui em uso ou existentes.
Luccock (1817), por exemplo, descreve um utensílio de que todo tropeiro andava
munido, que não pode deixar de ser uma enxada, e que o autor chama de machado,
provavelmente uma confusão de nomes, pois servia o instrumento "para afastar a
terra que por vezes desbarranca feito uma avalanche e obstrui a estrada, ou para
abrir uma passagem nova no flanco do morro, quando a antiga está impedida ou
desmoronou por qualquer acidente etc." O que se pode deduzir daí é que a
enxada, ela também integrava o equipamento das tropas de carga.
Um fato ocorrido com Pohl, em que o outro personagem agiu completamente liberto
de qualquer preconceito, muito menos dos de nossa civilização, ilustra bem o
alto valor, como utensílio agrícola, representado pela enxada. Vamos dar a
palavra ao próprio autor. Pohl subia o Tocantins (1819) quando encontrou índios
xavantes, um pouco abaixo da foz do Piabanha. Com a cautela recomendável foi
estabelecido o contato. "Presenteamos-lhes com farinha de mandioca, sal e
pérolas de vidro. Tanto quanto permitia-nos o nosso conhecimento do seu dialeto,
mantivemos conversação com eles: o que mais agrado e desejo lhes despertou foi
uma enxada que viram e pela qual ofereceram em troca, uma moça de 16 anos, o que
recusei; com o que se aborreceu um tanto o meu índio Luís, porque ela lhe
agradava muito.
Fora de suas funções de natureza puramente agrícola, como, por exemplo, fazendo
parte do equipamento da tropa, a enxada, agora mais reforçada, foi também
largamente empregada na mineração, tal como ocorria na lavra de topázios. Conta
Eschwege que o processo de trabalho nas lavras de topázios nas proximidades de
Vila Rica (1820), hoje Ouro Preto, não exigia nenhum conhecimento maior,
"bastando ao trabalhador pesadas e largas enxadas, com as quais ele escava as
montanhas, nos lugares em que supõe existirem ninhos e depósitos de quartzo e
filetes de litomarga". O trabalho é muito interessante. "Os operários se colocam
em fila, como os arrancadores de batatas, enquanto o feitor permanece ao lado,
tendo à mão uma vara comprida com ponteira de ferro". O feitor, sempre
vigilante. "Logo que a terra untuosa mostra sinais de ninhos ou depósitos, o
feitor aproxima-se, e, remexendo a massa solta com a sua vara, vai com a mão
colhendo todos os topázios, que guarda em seguida na bolsa".
No ano seguinte (1821) Pohl, já de volta de Goiás, em direção ao Rio de Janeiro,
nas proximidades de Ouro Preto, detêm-se nas minas de topázio no Capão das
Lanas, e confirma o que Eschwege já observara anteriormente. Trabalhavam naquela
mina cerca de duzentos negros. "Com largas enxadas cavavam aquela terra gorda
que sempre indicava a presença do agárico mineral", O inspetor ou feitor da
mina, com o mesmo bastão ferrado, procurava e catava os topázios na terra solta
e a que ficava encaminhava para um tanque de lavagem por meio de uma calha.
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