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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

oficina

ANO VI - EDIÇÃO 66
MAIO 2004

Oficina
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A fazenda de café, por Joaquim Ribeiro

Literatura agrícola oitocentista, por Carlos Borges Schmidt

Notas sobre a enxada, por Carlos Borges Schmidt
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...


Literatura agrícola oitocentista

Carlos Borges Schmidt

Deve-se a Eduardo e Henrique Laemmert, estabelecidos à rua da Quitanda nº 77, no Rio de Janeiro, com uma casa editora, a publicação de numerosa série de livros sobre agricultura, no século passado. É do ano de 1862 a edição do Tratado da cultura do algodoeiro do Brasil ou arte de tirar vantagens dessa plantação, de autoria do major Carlos Augusto Taunay e do padre Antônio Caetano da Fonseca. Enquanto o sacerdote cuidou da parte do trabalho referente à exploração do algodoeiro arbustivo, coube ao major Taunay o desenvolvimento da que dizia respeito ao algodão arbóreo, usando para o tratamento da matéria informações divulgadas nas "folhinhas" do Laemmert e das noções dadas à publicidade pelo conselheiro Francisco de Paula Cândido. Acrescentadas das considerações e de modificações quanto aos métodos preconizados que julgou por bem aduzir e sugerir.

No texto deste Tratado da cultura do algodoeiro existem referências a outros trabalhos de divulgação agrícola, naquela época já publicados. O Manual do agricultor brasileiro, de autoria do próprio major Taunay, em colaboração com o botânico Riedel, saíra publicado já em 1839. Registrando ainda estava a existência de três outras publicações: o Manual dos agentes fertilizadores, o Manual de máquinas, instrumentos e motores agrícolas e o  folheto intitulado Clamores da agricultura do Brasil. Eram ainda mencionados o Manual do cultivador de algodão e a Monografia do cafezeiro e do café, publicados por iniciativa da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.

Maior relação entretanto, das publicações da editora E. H. Laemmert, aparece na parte final da obra da parceria major Taunay e padre Fonseca. Delas destacamos aquelas relacionadas com a agricultura. A primeira dela devia-se a um pioneiro, segundo afirmava o próprio autor. Era intitulada As abelhas e tratava da "sua cultura, propagação e tratamento adaptado ao clima do Brasil, seguido da preparação da cera e do fabrico das velas, por Cândido Jesus Branco, primeiro cultivador deste ramo na província de Minas". Chamavam os editores a atenção dos fazendeiros e cultivadores em geral para esse ramo da indústria animal, até então pouco desenvolvido no Brasil, porém capaz de compensar o capital e o trabalho nele empregados.

Outro trabalho, Arte da cultura e preparação do café, compreendia "a cultura dos cafezeiros, seus melhoramentos; modo de o cultivar nas terras frias; causa da abundância e falhas alternativas; sua preparação por um novo sistema; defeitos do sistema em uso; construção das estufas e máquinas; considerações sobre o seu jovem agricultor brasileiro que, segundo os editores se esmerou em procurar em países estrangeiros novas idéias e melhores informações, com que pretendia encontrar os caminhos de um melhor cultivo para os cafezeiros e uma melhor preparação para o seu produto.

Da autoria do comendador Francisco Peixoto de Lacerda Werneck era a Memória sobre a fundação de uma fazenda na província do Rio de Janeiro. Nela eram versadas questões de administração e de práticas agrícolas, tais como épocas em que devem ser feitas na plantações, colheitas etc. Argumentavam os responsáveis pela edição que muitos dos nossos lavradores conheciam pouco as plantações do país e as épocas mais apropriadas para realizá-las e que estavam atrasados nas técnicas das edificações rurais, de semear, de colher e de conservar os produtos agrícolas. Louvores àquela publicação, a lavoura não era mais um arcano ou uma ciência de difícil compreensão.

Obra então considerada moderníssima e interessante, para fazendeiros e lavradores, era o Manual prático da agricultura intertropical, de autoria de S. V. Vigneron Jousselandiere, dono de uma experiência de 37 anos de lavoura no Brasil. Continha o volume, segundo os editores, noções claras e precisas acerca do tamanho e manipulação das terras, corte de madeiras, queimadas, horticultura, café, do chá, do tabaco, das plantas em geral, árvores frutíferas, criação de gado e outros animais domésticos e das abelhas.

Tratava-se de uma tradução do trabalho denominado Sorgo com o subtítulo de Monografia da cana-de-açúcar da China, chamada sorgo sacarífero. Era de autoria do dr. Adriano Sicard, secretário da Sociedade de Horticultura de Marselha, membro de várias sociedades científicas, e fora traduzida e acrescentada com "várias reflexões e notas explicativas" pelo desembargador Henrique Veloso de Oliveira. A obra versava o fabrico do açúcar, do rum, do vinho, da cidra, da cera, do pão e de muitos outros produtos que podiam ser obtidos daquele cereal. Tal planta, dizia a nota de apresentação, suposto que pela prontidão com que amadurece possa ser cultivada durante o verão das regiões temperadas é, contudo, essencialmente própria dos países quentes, e prosperava muito mais na Argélia do que na França. O livro na sua tradução, tinha convertidos os pesos e as medidas, aos padrões em uso entre nós, trazia explicações para comodidade dos leitores e achava-se ornado com uma estampa.

Da lavra de Custódio de Oliveira Lima era o Guia do jardineiro, horticultor e lavrador brasileiro. Um verdadeiro "tratado acerca da cultura das flores, hortaliças, legumes, frutas, cereais: da criação e tratamento das abelhas, bicho da seda, animais e aves domésticas: virtudes e propriedades das plantas, sua classificação usos e aplicações: calendário do jardineiro e horticultor etc." Um livro completo como se vê.

Anunciava também a editora, um Lunário e prognóstico perpétuo, geral e particular para todos os reinos. E como rezava a notícia "acrescentado com uma invenção de apontamentos e regras para que se saiba fazer prognósticos e uma memorial de remédios universais". Tratava-se de uma segunda edição, publicada em 1848. adaptada "ao hemisfério do império do Brasil". Provavelmente não era outra a obra que não aquele mesmo lunário perpétuo, impresso pela primeira vez há mais de duzentos anos e que até o presente vem sendo objeto de sucessivas edições, como a tirada recentemente pelos editores portugueses Leilo & Irmão. Esta recentíssima edição intitula-se Lunário e prognóstico perpétuo para todos os reinos e províncias de autoria de um Jerônimo Cortez, valenciano em especial "na computação dos tempos: nas coisas agrícolas; com as virtudes medicinais de algumas plantas portuguesas; com os socorros a dar aos envenenados; com a descrição e tratamento de muitas moléstias; com numerosas receitas úteis e proveitosas; com o modo de descobrir as águas; com vários jogos de carta divertidos etc.". E, ainda hoje, esgotam-se as edições.

L. P. de Lacerda Werneck, provavelmente o mesmo autor atrás referido, era o responsável pelo volume intitulado Idéias sobre colonização, cujo texto era precedido de uma "sucinta exposição dos princípios gerais que regem a população". A empresa editora tecia algumas considerações a respeito do trabalho. A colonização, naquela época, já era questão vital para o vasto território do Império, a vista da diminuição sensível do braço trabalhador, existindo, mesmo um desfalque de elevadas proporções quanto ao braço agrícola, agravada pela necessidade de ir tratando de substituir o trabalho escravo pela imigração de homens livres. "Ora — aduziam os editores — um livro cujo autor estudou a fundo toda essa complicada matéria, e que resumiu os diversos sistemas de colonização em um cômodo volume. Interpondo o seu juízo a respeito do conceito que merecem deve ser lido por todos aqueles que se interessam sinceramente pelo desenvolvimento e bem-estar futuro da nação brasileira".

O Segredo americano de amansar cavalos, da lavra de John S. Rarcy, era um "compêndio de todos os métodos até agora conhecidos, reduzidos a sistema e prática, incluindo a arte de lhes tirar o vício de escoucear e outras manhas, o modo de ensinar, esfregar, arreiar e de montar potros". Estava o livro ornado com estampa explicativas.

(Schmidt, Carlos Borges. "Literatura agrícola oitocentista")