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Joaquim Ribeiro
A fazenda de café é tipicamente a grande propriedade do centro-sul do Brasil.
A extensão média é de 500 alqueires de terra.
No planalto paulista, o latifúndio cafeeiro surgiu, no século XIX, com a
absorção dos sítios e fazendolas, nascidas das sesmarias dos tempos coloniais.
O expansionismo cafeeiro, a princípio no vale do Paraíba, espraia-se pelo
oeste através da Mogiana, da Paulista, da Araraquarense, da Noroeste e da
Sorocabana, fazendo destas estradas de ferro o eixo da lavoura paulista.
O tipo da velha fazenda encontra-se, sobretudo, no vale do Paraíba, e na zona
central (Campinas e Ribeirão Preto, como centros econômicos da vasta região).
Aí ainda divisamos a fazenda de nítido estilo imperial.
Em pequena elevação está a casa senhorial, enorme, acachapada, com varandim
na frente e inúmeras janelas. O telhado, com sótão, coberto com as antiquadas
telhas de canal.
Geralmente, diante da casa, erguem-se várias palmeiras imperiais.
Quase sempre os terreiros ficam diante da casa. Atrás e ao lado ficam as
tulhas, os lavadouros, as baias para burros de carroça e os chiqueiros:
mangueirão, a ceva, a parideira etc.
Nas proximidades há, de regra, uma capoeira e o moinho de fubá movido a água.
Existem oficinas de ferraria, carpintaria e selaria.
E adiante, as plantações, a lavoura e fora da vista da casa do fazendeiro,
separadamente, esparsos, os ranchos dos agregados, os lavradores rústicos e
humildes.
Vários são os tipos de suas habitações: casa de barro, coberta de sapê ou de
telha; casa de pau-a-pique, coberta de casca de árvore, curioso tipo de telha
vegetal; casa de tábua, com telha, ou casca ou sapê.
A casa de tijolo já é mais rara nessas fazendas de tipo antigo.
Em toda fazenda, quando não há oratório interno, é indispensável a capelinha
branca, situada ao lado da casa senhorial.
De introdução moderna são as casas padronizadas dos colonos e da escola para
os filhos destes e dos demais empregados.
Vestígios dos tempos do imério são as grandes senzalas, hoje transformadas em
armazéns de depósitos de carroças, rodas, instrumentos agrícolas, cavadeiras,
enxadas etc.
Nas fazendas antigas, havia uma espécie de autarquia econômica para o
abastecimento do pessoal; daí as roças de feijão, milho e mandioca, cultura do
arroz, abóbora, batata-doce e inglesa, cana etc., tudo em quantidade suficiente
para consumo interno, sem nenhum propósito de comércio; daí também alguma
criação de gado, reduzida, igualmente, ao necessário.
Esta é a pintura mais ou menos constante da fazenda de velho tipo.
Todas essas fazendas têm seus nomes, de acordo com a índole de nossa
toponímia. Hajam vista os referidos em 1884 num relatório de Van Delden:
Serraria, Sibéria, Boa Fé, Boa Esperança, Laranjeiras, Santa Bárbara, Serra
Vermelha, Conceição (em Revista do Departamento Nacional do Café).
Outros nomes colhidos por mim: Paraíso, Palmeiras, Santa Luzia, Palmital, São
Mateus, Secretário, Monte Alegre etc.
Não são raros os nomes de origem negro-africana, por influxo da escravaria.
Tais são: Ambaca, Luanda, Fazenda dos Macacos, Quilombo, Caxambi etc.
Os nomes tupi são mais raros, porque as fazendas de café só surgiram ao
dealbar do século XIX, quando a influência tupi já estava quase nula e
obliterada.
Um estudo mais extenso desses batismos das fazendas de café poderá fixar a
feição mais freqüente das denominações.
Naturalmente a fazenda de café sofreu modificações inevitáveis na sua
estrutura. O velho tipo cedeu lugar às fazendas modernas, equipadas de novos
recursos técnicos.
No latifúndio moderno, observa-se a tendência para a liquidação da casa
senhorial.
A fazenda nova tende a tomar feição de companhia rural.
Brenno Ferraz verificou que tais companhias rurais visam garantir o
patrimônio agrícola, pois põem a fazenda a salvo das partilhas por ocasião da
morte do fazendeiro como acontecia nas antigas propriedades.
Agora, não; o patrimônio rural pertence a uma companhia, que sobrevive à
morte de seus acionistas.
Tal é o exemplo da Companhia Rural São Jorge dos Agudos (Brenno Ferraz,
Cidades vivas, p.49).
Por sua vez, nessa nova feição, o esboço de autarquia local desaparece e o
abastecimento vem, de regra, de fora e está sujeito aos encarecimentos dos
centros de consumo, donde as mercadorias e gêneros são importados.
A fazenda, tal como surgiu no império, desaparece. Surge a empresa rural.
A população do latifúndio toma também novo aspecto.
Nas velhas fazendas, com o advento do trabalho livre (Abolição), a escravaria
dispersou-se. As senzalas ficaram vazias. Desenvolveram-se os ranchos dos
agregados, dos camaradas e dos capangas do fazendeiro, com caráter eminentemente
individualista.
Gente espalhada, isolada nos seus pequenos terreiros, onde se erguiam os
ranchos e os seus roçados.
Nos novos latifúndios, os colonos vivem, ao acontrário, em casas próximas uma
das outras, com maior contato social. Não têm as suas roças, pois todos os
empregados da propriedade são tributários das vendas que funcionam junto a esses
núcleos rurais.
A fisionomia é bem diversa. Embora o progresso seja maior, devido ao
aparecimento de indústrias rurais (sub-produtos etc.), as tradições das velhas
fazendas vão se extinguindo e tendem a desaparecer.
É uma nova sociedade rural que nasce sobre o crepúsculo das antigas
sobrevivências campesinas do império.
O folclore guarda grande número de tradições e, por outro lado, vai formando
outras novas.
Bem expressiva é a linguagem da vida rural, elaborada pelos caipiras e
capiaus.
A terra boa para o café é a terra roxa, chamada pelos caipiras de
sangue-de-tatu.
Conhecem, aliás, os lavradores a existência dessas terras pelos padrões.
O cebolão e o pau-d'alho são duas árvores consideradas vestimenta de terra
para café.
Os cafezais estendem-se pelas encostas onduladas dos altuplanos.
Evitam as terras noruegas, onde não bate o sol a não ser durante poucas
horas. Essas terras noruegas acham-se nas grotas e gargantas.
A fazenda tem a sua época de trabalho mais intenso nos meses sem r (de maio a
agosto).
É o tempo das derrubadas, das colheitas, das queimadas e também a época da
castração dos animais (porcos, cavalos e touros), pois o tempo frio favorece a
castração feita pelo processo rústico do corte dos testículos.
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