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Figueiredo Pimentel
Um rei muito bom, dotado de excelente coração, costumava sair sozinho e
disfarçado, pelas ruas da cidade, a fim de poder bem apreciar as necessidades do
seu povo.
Uma vez, ao passar por uma rua, ouviu alguém cantando:
Ribeiros correm pro rio
Os rios correm pro mar
Quem nasceu para ser pobre
Não lhe vale trabalhar
O rei parou, observou a casa e indagou quem nela residia.
Era um pobre sapateiro, honesto e trabalhador, cheio de filhos, que vivia na
maior miséria possível.
Sua majestade tomou nota do número e da rua.
No dia seguinte mandou preparar pelo seu cozinheiro um saboroso bolo, que
encheu de moedas de ouro e fez levá-lo ao sapateiro.
Na outra tarde, passando pela mesma rua, escutou a mesma cantiga:
Ribeiros correm pro rio
Os rios correm pro mar
Quem nasceu para ser pobre
Não lhe vale trabalhar
O rei entrou e fritou para o sapateiro:
— Esta cantiga é mentirosa, ou tu não dizes o que pensas! Onde está o bolo
que te mandei ontem cheio de moedas?
— Oh! real senhor, eu não sabia! Devendo muitos favores a um amigo,
enviei-lhe de presente.
Então o rei fê-lo acompanhar ao palácio.
Aí, mandou-o encher um saco de ouro e despediu-o.
O sapateiro voltava alegremente para casa, quando, de súbito, caiu morto,
fulminado pela comoção.
Transportaram-no para o necrotério e acharam-lhe um papel na mão.
O delegado de polícia abriu-o e leu:
Eu, para pobre o criei
Tu rico fazê-lo queres
Agora aí o tens morto
Dá-lhe a vida, se puderes.
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