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(Colhida entre os índios, por Couto de Magalhães)

O sol secou todos os rios e ficou só um poço com água. A onça então disse:
— Agora, sim, pilho a raposa, porque vou fazer espera no poço da água.
A raposa, quando veio, olhou para frente e avistou a onça; não pôde beber
água e foi-se embora, imaginando um plano para poder beber.
Vinha uma mulher pelo caminho com um pote de mel na cabeça.
A raposa deitou-se no caminho e fingiu-se morta; a mulher arredou-a e passou.
A raposa correu pelo cerrado, saiu-lhe adiante no caminho e fingiu-se morta;
a mulher arredou-a e passou adiante.
A raposa correu pelo cerrado e, mais adiante, fingiu-se morta; a mulher
chegou e disse:
— Se eu tvesse apanhado as outras já eram três.
Arriou o pote de mel no chão, pôs a raposa dentro do cesto, deixou-o aí e
voltou para trazer as outras raposas.
Então a raposa lambuzou-se no mel, deitou-se por cima das folhas verdes,
chegou ao poço e assim bebeu água.
Quando a raposa entrou na água e bebeu, as folhas se soltaram; a onça
conheceu-a, mas quando quis saltar-lhe em cima, a raposa fugiu.
A raposa estava outra vez com muita sede, bateu num pé de aroreira,
lambuzou-se bem na sua resina, espojou-se entre as folhas secas e foi para o
poço.
A onça perguntou:
— Quem és?
— Sou o bicho folha-seca.
A onça disse:
— Entra na água, sai e depois bebe.
A raposa entrou, não lhe caíram as folhas, porque a resina não se derreteu
dentro da água; saiu e depois bebeu, e assim fez sempre até chegar o tempo da
chuva.
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