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João Brito Jorge
Quer o homem rural, quer o citadino que passou uma temporada no interior, ambos
recordam alguma festa sertaneja, tão tipicamente brasileira, nesse culto
tradicional que é o orgulho da nossa gente.
A festa rural é aguardada por um longo período, preocupando a todos para ser
melhor do que a dos anos anteriores, sempre recordada na lembrança agradável dos
prazeres vividos.
Quantos sonhos, quantos romances, agitam o pensamento da mocidade; quantas
saudades, síntese de tudo para aqueles que, mais idosos, também tiveram
idênticas emoções, tão humanas.
Os dias que antecipam a festa da cidade do interior são de uma atividade febril,
incomparável. Para as moças o preparo das mais lindas vestimentas, o enfeite
gracioso para o máximo encanto do possível príncipe encantado; para os jovens, o
planejamento dos encontros, do baile da Prefeitura ou clube local; para as
crianças, os foguetões, a música, o homem mágico, o domador de animais
amestrados. Até para as personalidades da terra há a preocupação pelo honroso
comentário do povo e dos visitantes dos municípios e vilas próximas.
A festa é sempre em homenagem à santa padroeira, cuja matriz fica ornamentada
com carinho, quando os festejos não são realizados numa pequenina igreja ou
capela da mesma forma ornamentada e alvo de todos os cuidados das pessoas mais
empolgadas pelo culto católico tradicional. Há, também, o patrono da festa,
figura política de relevo, com base econômica, custeando as despesas
indispensáveis ao brilhantismo das comemorações, além da acolhida aos visitantes
mais ilustres, na honrosa hospitalidade tão sertaneja.
Desde de cedo os foguetões anunciam o início da festa. A missa é o ponto de
reunião de toda cidade. Cânticos em músicas sacras na maioria das vezes, tornam
a cerimônia religiosa mais emocionante. Os batizados, reúnem pais e amigos,
estendendo a família na homenagem ao "compadre", título honroso que quase todos
ostentam com prazer, tornando mais íntima a vida sertaneja.
A festa, logo a seguir, é iniciada nos ranchos, onde são encontradas bebidas
típicas, alimentos comuns, doces caseiros, pequenos objetos de uso pessoal. Da
mesma forma ali são realizados sorteios de prendas, jogos os mais diversos,
facilitando o resultado da renda para os promotores da festa, em benefício da
própria igreja.
À tarde, todos tomam parte ou assistem à procissão, ponto alto do culto
religioso. A cidade inteira curva-se, respeitosa, à passagem da imagem da
padroeira muito querida.
Finalmente, à noite, depois da reza silenciosa e expressivas, as maiores
expansões de alegria, os bailes dos mais ricos ou as danças nas casas
particulares dos mais humildes.
Foguetes, música, e até às primeiras horas do dia seguinte, comemora-se a festa
da cidade, dias e dias motivo de comentários, comparações e recordações gerais.
Quanta singeleza no encanto e felicidade da vida rural!
E é por isso que o sertanejo iludido pelas belezas da cidade, retorna à pequena
vila do interior. E o homem da capital, vivendo com luxo e conforto, na
exaltação efêmera dos que sonham com os prazeres sociais, procura o sertão onde
a vida, mais simples e sincera, é muito mais feliz.
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