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Alberto Deodato
Porteirinhas no norte de Minas, é uma cidadezinha encantadora com sua igreja
bonita, suas praças de jardins tranqüilos e sua gente acolhedora. Fica na
estrada sertaneja que acaba em Espinosa, vindo de Montes Claros. Mas o que há de
extraordinário em Porteirinhas é a carne-de-sol. A melhor do mundo. Quando digo
mundo, é o mundo do sertão. Vocês sabem o que é carne-de-sol? Vou explicar jabá
e carne-de-sol são os alimentos que sustentam o sertanejo brasileiro. A
diferença entre as duas é esta. O jabá é da fábrica, tem operários e máquinas,
produzidas nas grandes charqueadas, iniciada no Rio Grande do Sul. Só de lá, ele
vinha antigamente para todo o Nordeste, os navios carregados exclusivamente,
dele, em enormes sacas de estopa. Iam despejando a mercadoria preciosa do Rio
para cima.
Já comi, também muito jabá importado do Rio da Prata. Era a carne seca ou do
Ceará. Não sei porque do Ceará. A carne-de-sol é produto do artesanato. Chamada
em alguns sítios nordestinos de carne-de-vento. Não havia sertanejo, com pastos
e duas dúzias de reses, que não a produzisse. Matava seu boizinho catingueiro. O
couro era esticado ao sol, por complicado xadrez de varas de tabocas. Os miúdos,
para a mesa opipara. Picadinhos no sarapatel ou arrumados, na buchada. Os
chifres, para pendurar nos moirões e afastar o azar, ou fazer cornimboque de
tapé, ou trombeta. Esquartejado o animal, a carne preciosa, destrinchada em
mantas, ia pra salgadeira, com camadas de sal grosso, depois estendidas nos
varais, em frente da casa. Para os longos dias de sereno. Mal a manhã surgia, a
carne era recolhida, apesar de se chamar de sol, o grande artífice é o sereno.
O pitoresco desse artesanato familiar é a disciplina dos cachorros e das
crianças. Todo sertanejo tem muito cachorro magro, pele nos ossos, apesar da
fome, eles ficam deitados em roda no varal, chimando a carne cheirosa. Chimar é
desejar com olhos longos. Não tocam nela, mesmo que caia um naco, filho de
sertanejo, a mesma coisa, barrigudinhos e nus, enfiam o polegar na boca,
chupando e olhando o trabalho paterno ou em roda da mãe, à beira do córrego,
lavando o "fato" do boizinho sacrificado. Só as galinhas atrapalham a lavagem
furtando uma tripa que escapuliu na tina. Pronta a carne, o sertanejo, com
orgulho examina o produto de trabalho de semanas. É tudo de primeira, bom sal e
bom gosto. Mas o "especial" é aquela manta de lombo ou contrafilé entre duas
lambadas de gordura. É a carne de dois pêlos. Pois foi essa, meus leitores, que
os meus amigos de Porteirinhas, o Anísio e os seus irmãos, me mandaram. Comi-a a
semana toda que passou. Com farinha e banana, molho frio, de vinagre e cebola
graúdas. Comi-a sentimental e civicamente. Sentimental, porque parecia estar na
terra nordestina onde nasci, sol a pino, de camisola, à beira do riacho claro,
saboreando as lascas, jogando a farinha na boca e bebendo água que corria com as
mãos em concha. Civicamente porque foi com uma nesga dessa carne e uma capanga
de farinha que o sertanejo a pé, atravessou esses sertões brasileiros
escaldantes e agressivos, construindo esta pátria.
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