Jangada Brasil
  

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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

colher de pau

ANO VI - EDIÇÃO 66
MAIO 2004

Colher de Pau
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Açaí, alimento e folclore amazônico, por Valmir A. da Silva

Molhos, picantes e pimentas, por Osvaldo Orico

Carne-de-sol, por Alberto Deodato
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


Carne-de-sol

Alberto Deodato

Porteirinhas no norte de Minas, é uma cidadezinha encantadora com sua igreja bonita, suas praças de jardins tranqüilos e sua gente acolhedora. Fica na estrada sertaneja que acaba em Espinosa, vindo de Montes Claros. Mas o que há de extraordinário em Porteirinhas é a carne-de-sol. A melhor do mundo. Quando digo mundo, é o mundo do sertão. Vocês sabem o que é carne-de-sol? Vou explicar jabá e carne-de-sol são os alimentos que sustentam o sertanejo brasileiro. A diferença entre as duas é esta. O jabá é da fábrica, tem operários e máquinas, produzidas nas grandes charqueadas, iniciada no Rio Grande do Sul. Só de lá, ele vinha antigamente para todo o Nordeste, os navios carregados exclusivamente, dele, em enormes sacas de estopa. Iam despejando a mercadoria preciosa do Rio para cima.

Já comi, também muito jabá importado do Rio da Prata. Era a carne seca ou do Ceará. Não sei porque do Ceará. A carne-de-sol é produto do artesanato. Chamada em alguns sítios nordestinos de carne-de-vento. Não havia sertanejo, com pastos e duas dúzias de reses, que não a produzisse. Matava seu boizinho catingueiro. O couro era esticado ao sol, por complicado xadrez de varas de tabocas. Os miúdos, para a mesa opipara. Picadinhos no sarapatel ou arrumados, na buchada. Os chifres, para pendurar nos moirões e afastar o azar, ou fazer cornimboque de tapé, ou trombeta. Esquartejado o animal, a carne preciosa, destrinchada em mantas, ia pra salgadeira, com camadas de sal grosso, depois estendidas nos varais, em frente da casa. Para os longos dias de sereno. Mal a manhã surgia, a carne era recolhida, apesar de se chamar de sol, o grande artífice é o sereno.

O pitoresco desse artesanato familiar é a disciplina dos cachorros e das crianças. Todo sertanejo tem muito cachorro magro, pele nos ossos, apesar da fome, eles ficam deitados em roda no varal, chimando a carne cheirosa. Chimar é desejar com olhos longos. Não tocam nela, mesmo que caia um naco, filho de sertanejo, a mesma coisa, barrigudinhos e nus, enfiam o polegar na boca, chupando e olhando o trabalho paterno ou em roda da mãe, à beira do córrego, lavando o "fato" do boizinho sacrificado. Só as galinhas atrapalham a lavagem furtando uma tripa que escapuliu na tina. Pronta a carne, o sertanejo, com orgulho examina o produto de trabalho de semanas. É tudo de primeira, bom sal e bom gosto. Mas o "especial" é aquela manta de lombo ou contrafilé entre duas lambadas de gordura. É a carne de dois pêlos. Pois foi essa, meus leitores, que os meus amigos de Porteirinhas, o Anísio e os seus irmãos, me mandaram. Comi-a a semana toda que passou. Com farinha e banana, molho frio, de vinagre e cebola graúdas. Comi-a sentimental e civicamente. Sentimental, porque parecia estar na terra nordestina onde nasci, sol a pino, de camisola, à beira do riacho claro, saboreando as lascas, jogando a farinha na boca e bebendo água que corria com as mãos em concha. Civicamente porque foi com uma nesga dessa carne e uma capanga de farinha que o sertanejo a pé, atravessou esses sertões brasileiros escaldantes e agressivos, construindo esta pátria.

(Deodato, Alberto. "Carne-de-sol". O Jornal. Rio de Janeiro, 10 de setembro 1968)