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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

colher de pau

ANO VI - EDIÇÃO 66
MAIO 2004

Colher de Pau
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Açaí, alimento e folclore amazônico, por Valmir A. da Silva

Molhos, picantes e pimentas, por Osvaldo Orico

Carne-de-sol, por Alberto Deodato
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


Açaí, alimento e folclore amazônico

Valmir A. da Silva

Açaizeiro

Da família das Palmáceas, o açaizeiro costuma ser alto e delgado, com folhas bastante longas. Algumas dessas palmeiras atingem 18 metros de altura ou mais ainda. Há várias espécies classificadas de acordo com os naturalistas que as têm estudado: Von Martius, Wallace, Spruce Trail, Barbosa Rodrigues.

Sintetizando, temos: açaí chumbo - "euterpe catinga". (Spruce, Wallace), "euterpe molissima" (Rodr.); açaí do Alto Amazonas - "euterpe precatoria" (Martius), "euterpe molissima" (Spruce); açaí da mata - "euterpe longibractea" (Rodr.); açaí mirim - "euterpe Jatapuensis" (Rodr.); açaizeiro - "euterpe oleracea" (Martius); açairana - "genoma camana" (Trail).
 

Açaí

É a denominação dada tanto ao fruto, espécie de coquinho, com polpa ("carne"), como ao sumo ("caldos"). O povo, entretanto, parece distinguir apenas dois tipos: açaí vermelho (mais comum) e açaí branco — que aliás, é de cor verde, tanto a polpa como o sumo...

Há longos anos, séculos mesmo,  esse sumo nutritivo — caldo, vinho, refresco — vem sendo o alimento do pobre, o lanche do remediado, o luxo do rico. E assim, no Pará todos consomem o tradicional açaí, cujos preparados variadíssimos fazem parte da cozinha paraense. Portanto, folclore culinário.
 

Como se apanha

O caboclo sobe na palmeira com um pano ou corda atado aos pés, dando-lhes certa liberdade, a fim de que possam movimentar-se, apoiando-se no caule sem o risco de escorregar. É a peçonha. Com essa garantia, vai até os cachos que, à semelhança dos coqueiros, alojam-se abaixo das folhas. Alguns açaizeiros, de tão altos e finos, vergam-se, ocasionando acidentes e até quedas mortais. Assim desce ele com os cachos carregados de açaí, ou então joga-os lá de cima para serem aparados pelo ajudante que aguarda ao pé da árvore. Dai o paraense dizer: "aparar açaí!" — quando vai apanhá-lo...
 

Como se separa

Apanhamos os cachos, o açaí (caroços) é colocado numa tina ou grande bacia, onde é lavado, recebendo depois água morna — ou é posto ao sol com água comum, de forma que com o calor a água se aqueça e a polpa amacie. Isso facilita amassá-lo, além de dar caldo mais abundante e gostoso. Pois, quando muito seco e duro, fica com gosto de palha ou travoso. Após isso, vai para o alguidar de madeira, para ser macerado pela amassadeira. Esta costuma usar avental e pano na cabeça, evitando assim o perigo de cair cabelo dentro. O alguidar está sobre uma longa mesa na qual existem outras vasilhas: dois alguidares de barro, cuias, latas, etc. A amassadeira debruça-se sobre o alguidar de madeira, pondo-se a atritar os caroços, uns contra os outros, com as mãos — para frente, para trás — e, à medida que os vai "descarnando", despeja água por cima. Quando a polpa está toda solta, passa tudo para uma peneira que aguarda os caroços e a massa sobre a boca de alguidar de barro. E vai ela então sacudindo, para cima, para frente, para trás, com tanta agilidade, que algumas de tão prática, são verdadeiras malabaristas. E os movimentos continuam até os caroços ficarem bem limpos. Há agora um alguidar menor também de barro: para ele está reservada a lavagem final. Sai um caldo ralo, que é a "água". As mães pobres, que não podem pagar o preço de um litro de açaí grosso — a papa —, em geral, compram apenas uma cuida desse açaí e pedem em separado uma vasilha grande, bastante água. Em casa, elas misturam tudo e, assim, alimentam a filharada inteira com aquilo: o açaí grosso só serviu para dar um pouco de gosto a aquela água...

Atualmente o progresso substituiu tudo isso, esse processo antigo, por máquinas, um tanto rústicas, construídas por lá mesmo. Contudo, a preferência popular é ainda outro — o processo nativo — pois a amassagem à mão dá açaí mais gostoso. A máquina dizem quebra muitos caroços e faz o caldo ficar travoso.
 

Como se bebe

Ainda hoje as amassadeiras costumam colocar, à frente de suas casas, uma bandeira vermelha pregada num pau. Isso significa que tem açaí para vender. Em geral a bandeira é posta às onze horas da manhã — pois o trabalhador paraense, já conta com o açaí para sua sobremesa. Mais tarde, às 15 ou 16 horas, a esposa e os filhos bebem-no como lanche.

Existe também a bacaba — ou abacaba, forma popular — (Oenocarpus circumtextus, Martius), em certa época do ano, de cor parda, cujo sumo algumas pessoas associam ao açaí, ou tomam puro. Nesse caso, a amassadeira coloca duas bandeiras: a vermelha e a branca, como sinal de que tem os dois produtos para vender.
 

Propriedade alimentícias

Dizem os entendidos que o açaí é muito rico em ferro. É possível. Uma cuia desse sumo deixa o paraense alimentado durante seis horas — daí o seu grande consumo pela classe pobre que não tendo recurso suficiente para uma alimentação mais completa recorre a ele. Aliás, diga-se de raspão, o açaí e a manga constituem ainda hoje, a salvação estomacal de muita gente por aquelas bandas... Além disso o açaí é usado como mingau; após fermentada, é fervido com farinha seca. As mães pobres dão-no a seus filhinhos... na falta de mingau com leite em pó! Parece que o açaí é rico também em lipídios (gorduras).
 

A derrubada

Pois bem. Tudo o que acabamos de ver, um verdadeiro patrimônio cultural paraense e, portanto, do Brasil, está ameaçado de acabar. O tal progresso quer dar cabo da palmeira do fruto, da tradição, do folclore do paraense... Descobriram que o açaizeiro produz o melhor e mais gostoso palmito do mundo. Resultado: uma certa empresa estrangeira se encarregou de liquidar com a raça do açaí e do paraense! Estão devastando tudo. Derrubam enormes e belas palmeiras para tirar do seu interior uma pequena partícula — o palmito. E foi-se o alimento do pobre. E acabou-se o lanche do remediado. E findou-se o luxo do rico: o açaí papa com gelo, farinha de tapioca, camarão seco em tigela de porcelana importada para ostentação a visitantes ilustres. Não importa a maneira porque é ingerido. Todos bebem açaí no Pará. Ora, com a derrubada da palmeira, de forma celerada como vem sendo feita, assistimos ao fim de uma tradição, que constitui admirável folclore da alimentação amazônica.

A tradição é antiga. Famosos naturalistas estrangeiros — já o vimos — estudaram e classificaram cientificamente o açaí. Em 1865 e 1866, há um século quando o célebre naturalista suíço Louis Agassiz (1807-1873) e sua esposa Elisabeth estiveram no Brasil, tomaram conhecimento da bebida nativa logo ao chegarem ao Pará. No seu conhecido livro — Viagem ao Brasil — publicado em 1869 (Paris) diz Agassiz: "Na província do Pará, as pessoas de todas as classes são apaixonados por essa bebida havendo mesmo um provérbio que diz:

Quem vai ao Pará, parou;
Bebeu açaí, ficou".

Aliás o texto em francês é o seguinte que colhi da terceira edição de seu citado livro, Voyage au Brésil (1880):

Qui visite Para
A regret s'en ira;
Mais qui I'asshy beira
Jamais se partira.

Se o governo do Pará não tomar providências, a indústria enlatada dará fim a essa velha tradição. E o pior é que o paraense não sabe ainda, a cor, nem o cheiro do palmito...

(Silva, Valmir A. da. "Açaí, alimento e folclore amazônico". Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 1969)