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Valmir A. da Silva
Açaizeiro
Da família das Palmáceas, o açaizeiro costuma ser alto e
delgado, com folhas bastante longas. Algumas dessas palmeiras atingem 18
metros de altura ou mais ainda. Há várias espécies classificadas de acordo com
os naturalistas que as têm estudado: Von Martius, Wallace, Spruce Trail, Barbosa
Rodrigues.
Sintetizando, temos: açaí chumbo - "euterpe catinga". (Spruce, Wallace),
"euterpe molissima" (Rodr.); açaí do Alto Amazonas - "euterpe precatoria"
(Martius), "euterpe molissima" (Spruce); açaí da mata - "euterpe
longibractea" (Rodr.); açaí mirim - "euterpe Jatapuensis" (Rodr.);
açaizeiro - "euterpe oleracea" (Martius); açairana - "genoma camana"
(Trail).
Açaí
É a denominação dada tanto ao fruto, espécie de coquinho, com polpa
("carne"), como ao sumo ("caldos"). O povo, entretanto, parece distinguir apenas
dois tipos: açaí vermelho (mais comum) e açaí branco — que aliás, é de cor
verde, tanto a polpa como o sumo...
Há longos anos, séculos mesmo, esse sumo nutritivo — caldo, vinho,
refresco — vem sendo o alimento do pobre, o lanche do remediado, o luxo do rico.
E assim, no Pará todos consomem o tradicional açaí, cujos preparados
variadíssimos fazem parte da cozinha paraense. Portanto, folclore culinário.
Como se apanha
O caboclo sobe na palmeira com um pano ou corda atado aos pés,
dando-lhes certa liberdade, a fim de que possam movimentar-se, apoiando-se no
caule sem o risco de escorregar. É a peçonha. Com essa garantia, vai até os
cachos que, à semelhança dos coqueiros, alojam-se abaixo das folhas. Alguns
açaizeiros, de tão altos e finos, vergam-se, ocasionando acidentes e até quedas
mortais. Assim desce ele com os cachos carregados de açaí, ou então joga-os lá
de cima para serem aparados pelo ajudante que aguarda ao pé da árvore. Dai o
paraense dizer: "aparar açaí!" — quando vai apanhá-lo...
Como se separa
Apanhamos os cachos, o açaí (caroços) é colocado numa tina ou
grande bacia, onde é lavado, recebendo depois água morna — ou é posto ao sol com
água comum, de forma que com o calor a água se aqueça e a polpa amacie. Isso
facilita amassá-lo, além de dar caldo mais abundante e gostoso. Pois, quando
muito seco e duro, fica com gosto de palha ou travoso. Após isso, vai para o
alguidar de madeira, para ser macerado pela amassadeira. Esta costuma usar
avental e pano na cabeça, evitando assim o perigo de cair cabelo dentro. O
alguidar está sobre uma longa mesa na qual existem outras vasilhas: dois
alguidares de barro, cuias, latas, etc. A amassadeira debruça-se sobre o
alguidar de madeira, pondo-se a atritar os caroços, uns contra os outros, com as
mãos — para frente, para trás — e, à medida que os vai "descarnando", despeja
água por cima. Quando a polpa está toda solta, passa tudo para uma peneira que
aguarda os caroços e a massa sobre a boca de alguidar de barro. E vai ela então
sacudindo, para cima, para frente, para trás, com tanta agilidade, que algumas
de tão prática, são verdadeiras malabaristas. E os movimentos continuam até os
caroços ficarem bem limpos. Há agora um alguidar menor também de barro: para ele
está reservada a lavagem final. Sai um caldo ralo, que é a "água". As mães
pobres, que não podem pagar o preço de um litro de açaí grosso — a papa —, em
geral, compram apenas uma cuida desse açaí e pedem em separado uma vasilha
grande, bastante água. Em casa, elas misturam tudo e, assim, alimentam a
filharada inteira com aquilo: o açaí grosso só serviu para dar um pouco de gosto
a aquela água...
Atualmente o progresso substituiu tudo isso, esse processo antigo, por máquinas,
um tanto rústicas, construídas por lá mesmo. Contudo, a preferência popular é
ainda outro — o processo nativo — pois a amassagem à mão dá açaí mais gostoso. A
máquina dizem quebra muitos caroços e faz o caldo ficar travoso.
Como se bebe
Ainda hoje as amassadeiras costumam colocar, à frente de suas
casas, uma bandeira vermelha pregada num pau. Isso significa que tem açaí para
vender. Em geral a bandeira é posta às onze horas da manhã — pois o trabalhador
paraense, já conta com o açaí para sua sobremesa. Mais tarde, às 15 ou 16 horas,
a esposa e os filhos bebem-no como lanche.
Existe também a bacaba — ou abacaba, forma popular — (Oenocarpus circumtextus,
Martius), em certa época do ano, de cor parda, cujo sumo algumas pessoas
associam ao açaí, ou tomam puro. Nesse caso, a amassadeira coloca duas
bandeiras: a vermelha e a branca, como sinal de que tem os dois produtos para
vender.
Propriedade alimentícias
Dizem os entendidos que o açaí é muito rico em ferro.
É possível. Uma cuia desse sumo deixa o paraense alimentado durante seis horas —
daí o seu grande consumo pela classe pobre que não tendo recurso suficiente para
uma alimentação mais completa recorre a ele. Aliás, diga-se de raspão, o açaí e
a manga constituem ainda hoje, a salvação estomacal de muita gente por aquelas
bandas... Além disso o açaí é usado como mingau; após fermentada, é fervido com
farinha seca. As mães pobres dão-no a seus filhinhos... na falta de mingau com
leite em pó! Parece que o açaí é rico também em lipídios (gorduras).
A derrubada
Pois bem. Tudo o que acabamos de ver, um verdadeiro patrimônio
cultural paraense e, portanto, do Brasil, está ameaçado de acabar. O tal progresso
quer dar cabo da palmeira do fruto, da tradição, do folclore do paraense...
Descobriram que o açaizeiro produz o melhor e mais gostoso palmito do mundo.
Resultado: uma certa empresa estrangeira se encarregou de liquidar com a raça do
açaí e do paraense! Estão devastando tudo. Derrubam enormes e belas palmeiras
para tirar do seu interior uma pequena partícula — o palmito. E foi-se o
alimento do pobre. E acabou-se o lanche do remediado. E findou-se o luxo do
rico: o açaí papa com gelo, farinha de tapioca, camarão seco em tigela de
porcelana importada para ostentação a visitantes ilustres. Não importa a maneira
porque é ingerido. Todos bebem açaí no Pará. Ora, com a derrubada da palmeira,
de forma celerada como vem sendo feita, assistimos ao fim de uma tradição, que
constitui admirável folclore da alimentação amazônica.
A tradição é antiga. Famosos naturalistas estrangeiros — já o vimos — estudaram
e classificaram cientificamente o açaí. Em 1865 e 1866, há um século quando o
célebre naturalista suíço Louis Agassiz (1807-1873) e sua esposa Elisabeth
estiveram no Brasil, tomaram conhecimento da bebida nativa logo ao chegarem ao
Pará. No seu conhecido livro — Viagem ao Brasil — publicado em 1869 (Paris) diz
Agassiz: "Na província do Pará, as pessoas de todas as classes são apaixonados
por essa bebida havendo mesmo um provérbio que diz:
Quem vai ao Pará, parou;
Bebeu açaí, ficou".
Aliás o texto em francês é o seguinte que colhi da terceira edição de seu citado
livro, Voyage au Brésil (1880):
Qui visite Para
A regret s'en ira;
Mais qui I'asshy beira
Jamais se partira.
Se o governo do Pará não tomar providências, a indústria enlatada dará fim a
essa velha tradição. E o pior é que o paraense não sabe ainda, a cor, nem o
cheiro do palmito...
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