Jangada Brasil
  

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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

cancioneiro

ANO VI - EDIÇÃO 66
MAIO 2004

Cancioneiro
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O Lucas da Feira, colhida por Sílvio Romero

A vinda da besta-fera, por José Costa Leite

Décima do bico branco, colhida por Americano do Brasil
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Capa
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Festança
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


Décima do bico branco

(Colhida por Americano do Brasil)

Antes que comece a história
Do que tenho padecido
Acho de acerto dizer
Aonde fui eu nascido

Eu nasci numa fazenda
Onde a seca muito acocha
A qual se não me engano
Era a Tapera do Rocha

Dela seu Manuel Fernandes
Era orudo possuidor
Tendo a cuja Bento Gomes
Por vaqueiro e criador

Na era de cinqüenta e quatro
Na ribeira do Enforcado
A onze do mês de outubro
Me alembro que fui pegado

Que logo depois de preso
Me ataram em um moirão
Um me passou a divisa
Outro fez a castração

Assim desmoralizado
Vendo-me tão ofendido
Nunca mais ninguém soube
Do coito onde fui sumido

Foi numa escabrosa mata
Por nome Itaperapuã
Que vivi por muitos anos
Sustentado a papuã

Entonce o Broco sabendo
Ser eu boi avalentado
Foi ali ter-se comigo
Para ser meu agregado

Para esse grande deserto
Para nossa conjunção
Trouxe o Broco um seu amigo
Por nome Bravo Riachão

Assim nós fomos vivendo
Por uns sete anos ou oito
Sem ninguém nunca saber
Aonde era o nosso coito

Fomos a Vargem Formosa
A fazer uma conquista
E nessa extensa planície
Nos conheceram de vista

O vaqueiro Semeão
Notícias de nós foi dar
Vieram seis cavaleiros
Para nos aprisionar

O Riachão nas carreiras
Se foi de nós afastando
Foi levando cinco tiros
Mas também não se entregando

Amigo este foi o fim
Que teve o Bravo Riachão
Agora vamos falar
Do nosso grande amigão

De mim agora falando
Vaqueiro algum se gabou
Nem ao menos por notícia
Um só cabelo avistou

A soberba castigou-me
Tão forte e tão de repente
Que logo foi a fazenda
Para as mãos do Zé Vicente

Este sabendo a notícia
Chamou elemento novo
O vaqueiro Zé Pereira
E o compadre Chico Povo

Esses vaqueiros chegaram
Montados em cavalos bão
Trouxeram cachorros, laços
As aguilhadas na mão

Foram logo para o campo
No fundo do batedô
Debaixo da gameleira
Na maiada nos achou

Quando nós alevantamos
Os vaqueiros iam perto
Estrumando os seus cachorros
Campeão mais o Deserto

Nós saímos na carreira
Que até poeira avoava
Os vaqueiros vinham juntos
E a canzoada acuava

Na carreira desabrida
Ao passar por um monchão
Foi que logo Chico Povo
Bateu o Broco no chão

O Broco com essa queda
Ficou muito machucado
Quando quis se levantar
Estava preso e amarrado

Eu puxei minha carreira
Deserto me acompanhou
N subir de uma ladeira
A Campina me pegou

Corri por todos os lados
Para ver se escapulia
Os vaqueiros me cercavam
A canzoada me mordia

Eu voltei atropelado
Onde estava o companheiro
Todo cortado de dente
Arrodiado dos vaqueiros

O Broco triste e peado
Veio de mim despedir
Dizendo, "de hoje em diante
Minha sorte vou cumprir"

"Adeus, adeus, Bico Branco
Adeus, ó minha alegria
Toda a vida chorarei
Tua fiel companhia"

"Meu amigo e companheiro
Eu não posso te valer
Pois estou na mesma sorte
No perigo de morrer"

Baixei a cabeça em terra
Para ver se intimidava
Quanto mais veloz partia
Mais firmeza eu encontrava

O vaqueiro Semeão
Muito pouco descuidou
Peguei o cavalo dele
Até que o bucho furou

O vaqueiro Chico Povo
Que já estava de tenção
Logo com sua aguilhada
Pinchou comigo no chão

Caí dentro de uma grota
Já, já me alevantando
O vaqueiro Zé Pereira
Deu de cima me laçando

Saí pulando, investindo:
— O vaqueiro vou pegá —
Mas dando acordo de mim
Estava já no currá

A malvada da Campina
Bem na entrada do portão
Esta matei com um coice
A troco da acuação

Na carreira que entrei
Fui lá perto do chiqueiro
Onde estava a preta Nega
Conversando co'o parceiro

De repente ouvi um grito
Lá do fundo da cozinha
Era a Nega que gritava:
"Quero a costela minguinha"

Ó Nega amaldiçoada
A costela quer assá
Te dou a ponta do chifre
Vem cá dentro do currá

A Nega gritou danada:
"Espera o boi no ferrão"
Dei um pulo de uma banda
Fui com a testa no moirão

O vaqueiro Zé Pereira
Que chincha estava escorando
Logo tocou seu cavalo
Muito enleio me foi dando

O vaqueiro Chico Povo
De seu cavalo apeou
Pegou na ponta do laço
Dura peia me passou

O negro Mateus Papudo
Com sua faca amolada
Me veio na veia artéria
De uma vez deixou cortada

Ó negro amaldiçoado
Que esta vida me tirou
Tu morres no bacalhau
Puxado por teu sinhô

Eu lembrei de minha mãe
Chamei por Nossa Senhora
Que me desse sua bênção
Que estava morto nessa hora

O Zé Pereira, solteiro
O Chico Povo, casado
Muitos alegres repetiam:
— Morra o boi afamado!

(CASCUDO, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. 2ª ed. São Paulo, Livraria Martins, 1954, v.2, p.562-567)