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Jacaré tem mé
O ribeirão do Facão, represado até João Mendes, formava uma curva que os
meninos batizaram com o nome de poço Santos Dumont.
Bem em frente, algumas árvores frondosas projetavam gostosa sombra n'água,
nos dias de calor. Ao lado direito, um paredão de barro preto com diversas
vielas produzidas pelos cascos das vacas, quando desciam para beber água.
Às duas horas da tarde, o poço estava uma delícia! Peladinhos, os garotos
jogavam água nos trilhos das vacas para ficarem bem lisos, limpos de pedras ou
raízes, e lá de cima vinham uns sentados, outros acocorados ou em pé,
escorregando até caírem na água.
Depois, com barro preto pintavam todo o corpo e brincavam de índios sobre a
grama.
Do barranco e dos troncos das árvores caíam de cabeça em profundos mergulhos
que constituíam perigo por causa dos anroscos no fundo do poço, trazidos pelas
enchentes. Para isso, era feita uma prévia sondagem e limpeza.
A brincadeira principal denominava-se Jacaré tem mé.
Tirada a sorte, o que perdia ficava sendo o jacaré. Todos na água e o jacaré
no meio. Um gritava:
— Jacaré tem mé!
Este pulava sobre quem gritou para afundar a cabeça na água. Se conseguisse,
passaria o cargo para a vítima. Os que sabiam nadar bem, mergulhavam, nadavam
rápido e dificilmente eram pegos; porém os pixotes engoliam, às vezes, tanta
água que se tornava necessário pô-los de cabeça para baixo, para esvaziá-los.
Quando aumentava a confusão, perguntavam:
— Quem é agora o jacaré?
Para tirar água do ouvido, precisava pular com força num só pé e bater com a
mão na cabeça do lado contrário, deixando o ouvido voltado para baixo.
(WOLFF, Emílio Silvestre. Nosso folclore. snt, p.153)
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