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Vargas Vilaça
Dois repórteres do Estado de Minas, foram os únicos que conseguiram quebrar o
ritual e viram todo o desenrolar das cerimônias de um casamento numa tribo de
ciganos.
A primeira grande novidade é o regime diferente, com relação ao de outras
organizações, seguido pelos ciganos chefiados por Nestor Ramos: além de cumprir
todas as normas próprias do grupo, os noivos vão à igreja e ao cartório, fazendo
tudo como manda a religião e a lei civil.
Quem contrata o casamento dos filhos são os pais e isso muito tempo antes,
quando os noivos ainda são crianças. Por exemplo: Georgina Aparecida, a noiva,
foi prometida a Léssio César dos Reis, quando tinha 7 anos (agora está com 17).
Seu noivo contava apenas nove anos (está com dezenove). Georgina é filha do
casal de ciganos Braz Soares e Maria Aparecida, e Léssio, de Kizar dos Reis e
Orzília Reis.
Nestor, um dos chefes da tribo acampada em Andrelândia, é quem revela alguns dos
costumes de sua tribo, no que se refere a casamentos: moça cigana com mais 18
anos é chamada de "vovó" e, mais recentemente de coroa pelos rapazes e só
encontra marido se for mesmo bonita. Isso traz problemas tão sérios para ela
quanto para seu pai, pois é a ele que compete escolher o marido e prometê-la
como esposa. Por isso, o pai de uma jovem assume muitas responsabilidades com o
futuro genro. Além das despesas com o vestido de noiva, com a festa, ele tem as
obrigações do dote. O noivo recebe bestas e cavalos, com arreios. A moça ainda
leva uma quantia de cem cruzeiros. O vasilhame, para a casa, também é
providenciado pelos pais da mulher. "Agimos assim — explicam os ciganos — para
ajudar o rapaz a começar bem sua vida. Daí pra frente, ele tem que se virar".
A festa
A data do casamento de Georgina e Léssio foi escolhida para coincidir com o dia
da Festa de Nossa Senhora do Desterro, padroeira dos bandos ciganos. Georgina
estava com um vestido muito bonito, azul claro e branco, com fitas cintilantes e
já sem o véu na cabeça — indicação de que estava oficialmente casada. Ela
participou do bailes com os pés no chão. É tradição: as mulheres ciganas andam e
trabalham de pés descalços. Somente os homens, e, neste caso, até os ciganinhos,
têm de usar sandálias e sapatos.
"A festa é só essa que os senhores estão assistindo — fez questão de afirmar
Nestor aos repórteres. — Nada de quinze dias de cerimônias como foi noticiado. Os
pais são pobres e, na minha tribo não há festa de quinze dias. Damos apenas um
baile."
Não se viu bebida de espécie alguma na solenidade. Foram servidos apenas doces
de cidra, mamão e queijo. Antes da festa tiram até alvará contendo licença na
delegacia de polícia.
De acordo com o ritual, a cigana não dorme com o marido na primeira noite após o
casamento. Realizada a festa, ela volta para a casa de seus pais. Na manhã do
dia seguinte, todos os ciganos se reúnem em volta da tenda da noiva. O chefe da
tribo convoca então o pai da moça, que toma a filha pelo braço, conduzindo-a,
solenemente, até à barrada do pai do noivo. |
Aí é que se desenrola o ponto culminante do casamento, do qual os ciganos não
abrem mão de forma nenhuma, o discurso de advertência, de duas horas, que o
casal deve ouvir em atitude respeitosa. Terminada a lição, os dois, de braços
dados, se encaminham para a sua tenda. Eles são advertidos de que a infidelidade
não é admitida, em hipótese nenhuma, principalmente a da mulher. Se ela trair o
marido, será expulsa da tribo, não sendo permitida, nunca mais, a sua volta.
Depois para encerrar tudo, pela manhã ainda, um grupo de rapazes da tribo, de 12
a 21 anos, tocando acordeom e cantando uma toada triste (parecida com música
caipira) percorre as barracas, enquanto são retiradas as bandeirolas, tiras de
papel crepom e outros enfeites colocados para a festa.
O namoro
As noivas são prometidas aos seus futuros maridos, quando ainda crianças. Isso é
obrigação exclusiva do pai dela. Existem atualmente dezoito jovens comprometidas
para o casamento, nas duas tribos, uma acampada em Andrelândia e outra, a cem
quilômetros de São João Del Rei. Nestor cita, como exemplo, o caso de Angelita
Amaral, com onze anos, que vai se casar em setembro, com Antônio Cézar, que está
com 20. Ela foi prometida, quando tinha seis anos. Os namorados, entre os
ciganos, não podem andar de mãos dadas e muito menos beijarem-se. O rapaz não
tem direito de passear com a futura esposa é só pode ir à casa dos pais dela à
negócio. A castidade é outro ponto de honra. A moça tem de ser entregue virgem
ao marido. Se ela não o for por ocasião do casamento, é considerada adúltera e
banida da tribo, depois de passar por toda uma série de humilhações em público.
A promessa é feita muito tempo antes, mas o contrato de casamento, propriamente
dito, ou melhor, o pedido feito oficialmente pelo noivo, deve preceder o
casamento, no máximo, seis meses. O interessante, é que o pai da moça — mesmo
tendo prometido antes a filha — pode reconsiderar sua atitude e não aceitar o
casamento. À promessa pode não ser definitiva, depende da confirmação do chamado
"contrato" — o noivado — nos termos por nós conhecidos.
Origens
O cigano mais velho da tribo é Rafael Campos com 75 anos de idade. A cigana mais
velha vai fazer cem anos, no ano que vem. Chama-se Maria Olívia. Nem ela sabe
contar como surgiu a tribo de que faz parte e onde todos são parentes. Para ela,
o seu pessoal foi organizado há milhares de anos. "Hoje batizamos aqui um grupo
de ciganinhos — diz ela — e temos certeza de que os pais já estão programando
casamento para eles. Assim toda tribo não desaparece". A tribo que está em
Andrelândia é composta de duzentas pessoas. Vivem em barracas de lona e dormem
em esteiras. Ao contrário dos outros grupos seu forte não é ler sortes. Eles não
tem cartomantes, "porque a polícia persegue os que se dedicam a isso. Também não
fabricamos tachos. O que sustenta a organização é o comércio de cavalos, burros
e bestas. Eles fazem questão de dizer, com orgulho, que nunca levam desvantagem
"numa barganha". A tribo não se utiliza de caminhões para se deslocar de uma
cidade para outra. Tudo é feito no lombo de burro.
(Vargas Vilaça. "Georgina e Léssio, um casamento cigano". O
Estado de Minas. Belo Horizonte, 06 de junho de 1973)
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