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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Almanaque

ANO VI - EDIÇÃO 66
MAIO 2004

Almanaque
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Casamento Cigano

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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


Georgina e Léssio, um casamento cigano

Vargas Vilaça

 

Dois repórteres do Estado de Minas, foram os únicos que conseguiram quebrar o ritual e viram todo o desenrolar das cerimônias de um casamento numa tribo de ciganos.

A primeira grande novidade é o regime diferente, com relação ao de outras organizações, seguido pelos ciganos chefiados por Nestor Ramos: além de cumprir todas as normas próprias do grupo, os noivos vão à igreja e ao cartório, fazendo tudo como manda a religião e a lei civil.

Quem contrata o casamento dos filhos são os pais e isso muito tempo antes, quando os noivos ainda são crianças. Por exemplo: Georgina Aparecida, a noiva, foi prometida a Léssio César dos Reis, quando tinha 7 anos (agora está com 17). Seu noivo contava apenas nove anos (está com dezenove). Georgina é filha do casal de ciganos Braz Soares e Maria Aparecida, e Léssio, de Kizar dos Reis e Orzília Reis.

Nestor, um dos chefes da tribo acampada em Andrelândia, é quem revela alguns dos costumes de sua tribo, no que se refere a casamentos: moça cigana com mais 18 anos é chamada de "vovó" e, mais recentemente de coroa pelos rapazes e só encontra marido se for mesmo bonita. Isso traz problemas tão sérios para ela quanto para seu pai, pois é a ele que compete escolher o marido e prometê-la como esposa. Por isso, o pai de uma jovem assume muitas responsabilidades com o futuro genro. Além das despesas com o vestido de noiva, com a festa, ele tem as obrigações do dote. O noivo recebe bestas e cavalos, com arreios. A moça ainda leva uma quantia de cem cruzeiros. O vasilhame, para a casa, também é providenciado pelos pais da mulher. "Agimos assim — explicam os ciganos — para ajudar o rapaz a começar bem sua vida. Daí pra frente, ele tem que se virar".
 

A festa

A data do casamento de Georgina e Léssio foi escolhida para coincidir com o dia da Festa de Nossa Senhora do Desterro, padroeira dos bandos ciganos. Georgina estava com um vestido muito bonito, azul claro e branco, com fitas cintilantes e já sem o véu na cabeça — indicação de que estava oficialmente casada. Ela participou do bailes com os pés no chão. É tradição: as mulheres ciganas andam e trabalham de pés descalços. Somente os homens, e, neste caso, até os ciganinhos, têm de usar sandálias e sapatos.

"A festa é só essa que os senhores estão assistindo — fez questão de afirmar Nestor aos repórteres. — Nada de quinze dias de cerimônias como foi noticiado. Os pais são pobres e, na minha tribo não há festa de quinze dias. Damos apenas um baile."

Não se viu bebida de espécie alguma na solenidade. Foram servidos apenas doces de cidra, mamão e queijo. Antes da festa tiram até alvará contendo licença na delegacia de polícia.

De acordo com o ritual, a cigana não dorme com o marido na primeira noite após o casamento. Realizada a festa, ela volta para a casa de seus pais. Na manhã do dia seguinte, todos os ciganos se reúnem em volta da tenda da noiva. O chefe da tribo convoca então o pai da moça, que toma a filha pelo braço, conduzindo-a, solenemente, até à barrada do pai do noivo.

Aí é que se desenrola o ponto culminante do casamento, do qual os ciganos não abrem mão de forma nenhuma, o discurso de advertência, de duas horas, que o casal deve ouvir em atitude respeitosa. Terminada a lição, os dois, de braços dados, se encaminham para a sua tenda. Eles são advertidos de que a infidelidade não é admitida, em hipótese nenhuma, principalmente a da mulher. Se ela trair o marido, será expulsa da tribo, não sendo permitida, nunca mais, a sua volta.

Depois para encerrar tudo, pela manhã ainda, um grupo de rapazes da tribo, de 12 a 21 anos, tocando acordeom e cantando uma toada triste (parecida com música caipira) percorre as barracas, enquanto são retiradas as bandeirolas, tiras de papel crepom e outros enfeites colocados para a festa.
 

O namoro

As noivas são prometidas aos seus futuros maridos, quando ainda crianças. Isso é obrigação exclusiva do pai dela. Existem atualmente dezoito jovens comprometidas para o casamento, nas duas tribos, uma acampada em Andrelândia e outra, a cem quilômetros de São João Del Rei. Nestor cita, como exemplo, o caso de Angelita Amaral, com onze anos, que vai se casar em setembro, com Antônio Cézar, que está com 20. Ela foi prometida, quando tinha seis anos. Os namorados, entre os ciganos, não podem andar de mãos dadas e muito menos beijarem-se. O rapaz não tem direito de passear com a futura esposa é só pode ir à casa dos pais dela à negócio. A castidade é outro ponto de honra. A moça tem de ser entregue virgem ao marido. Se ela não o for por ocasião do casamento, é considerada adúltera e banida da tribo, depois de passar por toda uma série de humilhações em público. A promessa é feita muito tempo antes, mas o contrato de casamento, propriamente dito, ou melhor, o pedido feito oficialmente pelo noivo, deve preceder o casamento, no máximo, seis meses. O interessante, é que o pai da moça — mesmo tendo prometido antes a filha — pode reconsiderar sua atitude e não aceitar o casamento. À promessa pode não ser definitiva, depende da confirmação do chamado "contrato" — o noivado — nos termos por nós conhecidos.
 

Origens

O cigano mais velho da tribo é Rafael Campos com 75 anos de idade. A cigana mais velha vai fazer cem anos, no ano que vem. Chama-se Maria Olívia. Nem ela sabe contar como surgiu a tribo de que faz parte e onde todos são parentes. Para ela, o seu pessoal foi organizado há milhares de anos. "Hoje batizamos aqui um grupo de ciganinhos — diz ela — e temos certeza de que os pais já estão programando casamento para eles. Assim toda tribo não desaparece". A tribo que está em Andrelândia é composta de duzentas pessoas. Vivem em barracas de lona e dormem em esteiras. Ao contrário dos outros grupos seu forte não é ler sortes. Eles não tem cartomantes, "porque a polícia persegue os que se dedicam a isso. Também não fabricamos tachos. O que sustenta a organização é o comércio de cavalos, burros e bestas. Eles fazem questão de dizer, com orgulho, que nunca levam desvantagem "numa barganha". A tribo não se utiliza de caminhões para se deslocar de uma cidade para outra. Tudo é feito no lombo de burro.

 

(Vargas Vilaça. "Georgina e Léssio, um casamento cigano". O Estado de Minas. Belo Horizonte, 06 de junho de 1973)