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Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Guaiava e outros modismos

Alexandre de Souza Nogueira

Revendo papéis antigos, encontrei algumas anotações que fiz nos idos tempos em que iniciava eu, há, 39 anos, a carreira do magistério estadual paulista, numa vilazinha encravada em pleno sertão, nas divisas com o estado do Paraná. Tais anotações conservaram-se inéditas e, relendo-as por mera coincidência, julguei que se trata de assunto aproveitável para os leitores de "Folclore" - essa magnífica página da querida A Gazeta, de tão sadio brasileirismo. Lecionava eu então, a uma turma de "jequinhas", todos naturais da localidade e, portanto, perfeitamente entrosados na maneira de falar peculiar à região. O lugarejo em apreço chamava-se Revolta, mas, apesar do nome, era, pelo menos na ocasião em que lá residi, o mais pacato do mundo. Porém, o que interessa ao possível leitor como assunto folclórico são os modismos que me impressionaram e de que passa a dar algumas amostras, mais como anedotas verídicas umas e apenas, observações, outras, a título de contribuição espontânea.

Guaiava

Depois de explicar aos alunos o que era uma árvore frutífera, pedi-lhes que me dessem exemplos:

Entre outros, o Tavico (apelido de Otávio) disse-me:

- Guaiava.

- Guaiava!?

- Guaiava, sim sinhô.

- Pois eu não conheço.

- Uai, lá em casa tem uma porção!

- Gostaria de conhecê-la.

- Então aminhã eu arrumo uma pro sinhô.

De fato no dia seguinte Tavico trouxe-me a prometida fruta que me entregou, dizendo todo satisfeito:

- Aqui tem a guaiava, professô.

E... era uma goiaba.

***

Esta vai sem título para não tirar o sabor da surpresa final:

- Professô, me dá licença de um i imbora?

- Porque?

- Eu to com muita dó de guela. (Dor de garganta)

Aquele um

É uma expressão muito usada nesta zona. Freqüentemente oiço "aquele um" ou "este um". "Um" é referência a qualquer pessoa ou coisa. Assim, em lugar de dizerem: "Aquele homem" dizem "Aquele um".

Carecer

É comumente empregado em lugar de precisar. Deu-me até a impressão de que os moradores dessa região desconhecem o termo "precisar".

- "Não carece dizer."

- "Carece dar castigo pro pro menino aprendê..."

Chacuaiando

É também comum o emprego desse verbo no sentido de balançar:

- Professor, o Bentinho está chacuaiando a carteira.

Agorica

Para dar mais ênfase ao advérbio "agora" querendo expressar um momento muito próximo.

- Seu pai está em casa?

- Não sinhô, saiu agorica mesmo.

Sentou mosquito

O verbo sentar é muito usado no sentido de dar: "Sentar um murro na cacunda." (Deu um soco nas costas). Também é empregado no sentido de pousar: "O mosquito sentou no prato." De um leiloeiro improvisado, escutei, numa quermesse em benefício da igreja, esta expressão: "Sentou mosquito!" Pareceu-me uma expressão equivalente aquela outra: "Conheceu papudo!" ou, no caso em apreço, em que o leiloeiro rematava o seu falatório, era assim como uma cutucada no licitante por ter ele desistido de fazer novos lances: - Sentou mosquito. Ou seja: - Você é pixote, não dá mais nada?

E para fecho desta conversa fiada, vai mais esta, verídica:

Na aula de leitura para aprendizagem da sílaba "Fi", pedi aos alunos:

- Quem quer me dizer uma palavra começada por "fi"?

Rápido, gritou o Joaquim (Quinzinho, na intimidade):

- "Fio".

- Muito bem. Mas, que é fio?

- "Ora, fessô, fio de gente, fio da mãe."

 

(Nogueira, Alexandre de Souza. "Guaiava e outros modismos". A Gazeta. São Paulo, 22 de outubro de 1960)

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