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Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

A anta e a sucuri

Anísio Melo

Aconteceu há muito tempo, quando os bichos falavam e tudo era resolvido em assembléia, o que passo a relatar:

Todas as manhãs a anta, depois de tomar seu costumeiro banho de sol, saía pela floresta, passeando sem dar conta do que se passava no resto do mundo. Muito distraída, não olhava para o chão, pouco se importando com os danos que ia causando aos animais de pequeno porte, incluindo entre estes, as cobras que rastejavam maciamente. Aconteceu porém, que um dia, atravessada em seu caminho havia uma enorme sucuri, que como acontecia aos outros animais, foi pisada também... A sucuri reclamou o abuso e aquela sem dar muita atenção, continuou pisando firme, triturando e amassando o que por azar calhasse de ficar sob suas patas.

A sucuri reclamou.

- Veja bem onde pisa, assim vamos acabar mal...

- Mal, o que? - respondeu a anta.

- Então, vai pisando... - disse maliciosamente a sucuri.

As serpentes reuniram-se em assembléia e resolveram mostrar que a anta não tinha razão. Isto feito, passaram as sucuris a dar saltos enormes, de altas árvores, caindo sobre as antas, quando elas passassem...

As antas não gostaram do revide e sabendo da força hercúlea que têm, fizeram uma proposta:

- Vamos pôr os pingos nos is. - disseram todas em coro. - quem tiver razão, levará a melhor. É questão de força.

A sucuri que também se considerava forte, concordou, mesmo sem saber qual seria a proposta.

- Você se amarra em meu corpo, e com a cauda procura se fixar em uma árvore qualquer. Se eu não puder sair, você ganhou, mas se eu conseguir lhe arrancar da árvore, a vitória é minha.

Dito e feito. O vitorioso ficaria com o direito de fazer o que quisesse na floresta, sem ouvir reclamações.

Nesse momento começou a luta. A nuvem de poeira tomou conta de tudo e foi um verdadeiro alarme na floresta. Os animais correram todos para ver o que estava acontecendo de tão grave. Aglomeram-se em volta dos contendores, esperando o resultado.

Puxa pra cá, puxa pra lá... nada se decidia... a luta ia deliberar a sorte de uma espécie e não podia ser resolvida num instante. A noite chegou, o sol brilhou e nada... Em dado momento a gigantesca e forte cajazeira mostrou as raízes, tombando sobre os lutadores.

A contenda acabou sem vitorioso, pois ambos morreram sob o peso da árvore, numa demonstração física de que duas forças iguais em sentido contrário se anulam. Os lutadores tinham a mesma força. Desde aquele dia não houve mais rixa entre a anta e a sucuri, que hoje se respeitam mutuamente, reconhecendo o valor do adversário tradicional.

A noite desceu novamente sobre a terra, mas dessa vez, em sinal de pesar pelos heróis que tombaram, manchando de vermelho a clorofila perfumada da floresta abrupta da Amazônia. Hoje reina a paz em toda a floresta e ouvem-se cantos harmoniosos que se perdem na distância...

(Colhido na região do rio Solimões)

 

(Melo, Anísio. "A anta e a sucuri". Jornal do Folclore, abril de 1960)

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