Na noite anterior tinha geado. Esta noite o céu estava cheio de estrelas e a brisa movia o ar gelado. Era véspera de São João.
Ao acender a luz nós nos sentávamos em redor da mesa forrada de jornais e acendíamos fogos de salão, reforçada a proteção da mesa por um prato na frente de cada um.
Diminuía-se a luz do gás para melhorar o efeito dos fogos. Queimávamos estrelinhas, segurando-as por cima do prato, para impedir que a bolinha candente caísse sobre a mesa.
Esgotadas as estrelinhas, eram fósforos de cor, de luz prateada, ou de estrelas grandes.
Vinha agora o bonequinho acocorado. Colocava-se um pedaço de massa combustível no baixo das costas. Punha-se por baixo uma vasilha. Depois chegava-se o fósforo à massa, e ela se ia transformando numa espécie de lingüiça retorcida, que enchia e extravasava da vasilha.
Nós ríamos, e a operação recomeçava com a colocação de outro pedacinho de massa combustível.
Depois, era um cone colocado sobre o prato grande. Chegava-se o fósforo à ponta, chiava e jorrava um repuxo de estrelas, que retombava sobre o prato e os jornais em redor.
O ar da sala estava sufocante de fumaça.
Passávamos para a sala de visitas com janelas para a rua, enquanto se arejava a sala de jantar.
Aí, ficávamos olhando pelas vidraças, que a respiração embaçava.
Defronte, gente que não tinha medo do frio cortante, queimava pistolões, chuvas de prata, e depois vinha à rua soltar balões.
Era-nos prometido que soltaríamos balões e fogos na noite de São Pedro, se não fizesse muito frio.
Quando o vizinho fronteiro terminava os fogos, nós nos demorávamos na vidraça muito tempo, olhando o céu. Porque o céu era povoado de balões.
Eram de todas as formas. Redondos, oblongos, facetados, com feitios de aves, peixes, porcos e elefantes.
Olhávamos para o céu e contávamos: um, dois, três... vinte e sete... trinta e quatro... cinqüenta e um. Quem tivesse visto mais ganhava a aposta. Eu ansiava desesperadamente para que caísse em nossa casa algum dos que desciam. Entretanto, caíam nas outras casas, ou na rua, onde maltas de moleques corriam para pegá-los. Ao pegar estraçalhavam-no, e um saía correndo com a mecha.
Durante todo o tempo escutavam-se assobios de rojão e em todos os quarteirões estouravam foguetes, bombas, bichas e busca-pés. Os rojões desfaziam-se em chuvas de prata, chuvas de ouro, estrelas, e às vezes, de cada estrela saía novo rojão, que se desfazia em novas estrelas de todas as cores. Isso acontecia pela cidade inteira, em cada bairro, em cada casa, na véspera de São João, como já tinha acontecido na véspera de Santo Antônio, como iria acontecer na véspera de São Pedro, e como já tinha acontecido em menor escala, por todas as noites do mês de junho.
Tudo isso era à noite.
Mas estava anunciada para a tarde de São João, 24 de junho, a subida de um balão de vinte metros de altura. Era o reclame da Loja do Japão.
A parte superior ficava suspensa no viaduto do Chá. A parte inferior estava presa por estacas no chão, na chácara da baronesa de Itapetininga, no vale do Anhangabaú.
A mecha de aniagem e betume pesava uns cinqüenta quilos.
Acontecia que o vale encanava o vento, dobrava o balão antes que a fumaça o enfunasse, e ele queimava sempre.
*
Certa manhã apareceu um balão murcho no quintal de nossa casa.
Tinha geado. Fomos pegar, estava duro. Trazido para dentro a geada derreteu, e o papel de seda desfez-se num mingau.