Na noite de São João. Larga avenida no bairro suburbano da Pedreira, onde o calçamento ainda não chegou. Feita de grossos galhos de mangueira, retos, roliços, superpostos em quadrado e o miolo cheio de achas de lenha e pedaços de tábua, a enorme fogueira crepitava. Foguetes riscavam a escuridão. Pistolões, manejados pelas moças e rapazes lançavam chuva de prata e descreviam no espaço trajetórias multicores. Meninas se distraíam arremessando busca-pés uns nos outros, enquanto o cará, a macaxeira, a batata doce estavam assando na fogueira. Tiram-se sortes. Fazem-se adivinhações.
Outras fogueiras ardiam nas proximidades. Outros grupos se formavam e se divertiam soltando fogos ou pulando a fogueira. Ingênua e contagiante alegria reina. Envolve moços e velhos, brancos e pretos, caboclos e mulatos, em convivência bem brasileira, na moldura bonita da noite tropical. Os curumins estão rodeando a fogueira e filando um o outro busca-pé dos eventuais companheiros. Riem e gritam, quando vêem um balão flutuando no negrume da noite. Vibram, contentes da vida ao assistirem as animações do boi-bumbá e do cordão do jacundá. Tudo na rua, que é do povo; tudo de graça, que está ao alcance de sua bolsa vazia. Amanhã os curumins pobres do bairro proletário voltarão à mesmice da noite da sua miséria. Que importa? Aqueles clarões da noite iluminada, a trepidação da festa popular é bem a fulguração de um debaldar da redenção da miséria que os constringe. E o aceno crepitante de sua libertação da pobreza, do abandono. Quem sabe?
Surge na esquina um grupo ruidoso; os meninos gritando, contentes, anunciam: "É o cordão do jacundá!" Rapazes improvisam uma área livre, onde os figurantes pudessem evoluir. Começou a função do jacundá.
Formou-se o círculo de rapazes e moças, alternadamente, e de mãos dadas. Ostentam trajes vistosos, trajes multicores. Destacou-se um rapaz para o meio da roda, que gira em torno dele. Pequeno grupo musical toca, acompanhando os figurantes que cantam:
"Vamos gapuiá, jacundá,
Debaixo do pau, jacundá
Gapuiá, gapuiá, jacundá
Vamos gapuiá, jacundá,
No buraco da pedra, jacundá,
Ai! não deixa fugi, jacundá,
O peixinho é gostoso jacundá,
Jacundá
No meio da roda, jacundá,
Pelos garapé, jacundá
Ai! segura, segura jacundá"
O moço do centro da roda, o jacundá, tentou se libertar daquela posição e quando conseguiu a garota que o deixou escapulir-se foi para o meio do círculo, substituí-lo. E assim continuaram por algum tempo, até que o chefe do cordão trilou um apito, dando por terminada a representação, ali. Entraram na casa que os havia convidado a exibir-se. Tomaram refrigerantes, refresco de cupuaçu, aluá de abacaxi.
A noite já ia alta e o cordão do jacundá, na sua alegre peregrinação, estava revivendo talvez, uma dança dos ancestrais indígenas. Estava lançando hiatos de alegria, trajetórias de luz na vida sombria daquela pobre gente de bairro proletário.