Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 91
Junho de 2006
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Centelhas do folclore sulino mato-grossense

Arlinda Garcia

Passando uns tempos no sertão, em Mato Grosso, no Distrito do Ivinheima, tive o ensejo de assistir diversas festas sertanejas, dentre as quais a festa de São João, realizada na fazenda Rego d'Água, foi a que mais interesse e atenção despertou-me.

À tarde, os convidados foram chegando. Uns chegavam de carreta, outros de carros de bois, alguns a cavalo e os moradores mais próximos chegavam a pé.

As moças — em maior número — com cabelos compridos soltos e em cima na cabeça, ostentavam laços de fita, botões de rosa, presilhas douradas ou outros enfeites.

Por último, chegou uma turma de cavaleiros dando uma "salva" de tiros de revólveres, em sinal de saudação ao dono da casa.

Depois de desarrearem a tropa ou descansarem os bois, iam chegando até ao caramanchão, aonde os convidados se iam acomodando. Em seguida vinha o chimarrão. Umas três cuias as quais eram entregues a três convidados para cevarem o mate.

Um pouco antes do jantar, levantaram o mastro de São João, deram viva ao santo, acenderam a fogueira e rezaram um "terço". Em seguida todos se preparam com novas roupas e "água de cheiro", para o jantar que foi servido em uma mesa improvisada com tábuas compridas, arranjadas de modo que coubesse muitas pessoas.

Depois que todos jantaram, o sanfoneiro e dois rapazes com violão, deram início à música.

Havia também os violeiros para o cateretê. E o baile foi começado.

As moças retocaram o "carmim" e foram entrando na sala do baile. Em dados momentos a dança estava em plena animação. E em sala separada, dançavam o catira... O baile atingira a animação geral.

De quando em vez, um senhor gritava:

— Viva o dono da casa!

Todos respondiam:

— Vivaaaaaaaa!!!

Houve a brincadeira da vassoura, do chapéu e uma dança de nome arara. Esta dança constitui de um modo geral de cada cavaleiro e dama escolher um par, por sinal. Depois dos pares formados, um rapaz começa a dançar sozinho, mas, em seguida, bate palma perto de um dos pares que está dançando e este cede-lhe a dama, porém, procede da mesma forma que o primeiro e assim vão trocando os pares. Quando para a música, o cavaleiro que estiver sem dança, é o "arara" e precisa imitar no meio do salão o canto desta ave.

À meia-noite, foi rezado mais um terço, todo cantado e depois deste, foi posta uma mesa com doces e bolos. Havia doce de batata, de mamão, de cidra, doce de leite e arroz-doce. Biscoitos de polvilho, bolo de mandioca e um gostoso bolo feito de milho "saboró".

Depois da mesa de doces, quase todas as pessoas pularam a fogueira, ficando "compadres", ao dizer as seguintes palavras:

São João dormiu
São João acordou
Fiquemo compadre
Que São João mandou.

As moças encheram pratos com água, acenderam velas, pingando-as sobre a água, para formar as iniciais do eleito. Tiraram também a sorte com o ovo quebrado no copo de vidro cheio d'água, que dizem formar uma igreja se a moça vai casar-se antes de um ano; se, no entanto, aparecer um navio, ela vai viajar; se aparecer um caixão, é sinal que morrerá antes de haver decorrido um ano. E mais uma infinidade de sortes, que não posso precisar no momento.

Um pouco afastados, alguns falavam sobre carreira: desafiavam o compadre, para experimentar o baio ou o alazão... e a corrida ficava marcada para o próximo São Pedro.

Umas comadres faziam comentários sobre o saci, dizendo que este mexia com as galinhas, com os pintinhos e com os porcos. Uma senhora chegou a afirmar que o saci assobiara três vezes no terreiro da casa de dona Felícia, na noite em que falecera o esposo desta.

O seu Rael contou a façanha da caçada de uma enorme onça pintada, que andava comendo porcos e bezerros. E o seu Teófilo contou a caçada de uma sucuri de quarenta palmos.

Alguns conversaram sobre a criação de gado e outros sobre a lavoura.

De vez em quando, saía uma turminha, para tomar um trago da três tombos (pinga), a qual ficara escondida, na moita...

Quando vinha rompendo a madrugada, iniciaram o "pirição". Esta é outra dança interessante. Quando os pares vão passando perto do sanfoneiro, este pára a música e o cavalheiro recita uns versos para a dama. Os namorados aproveitam a ocasião para dizer lindos versos à cabocla querida. Assim vai correndo a roda, até chegar ao último par. Depois dos cavalheiros é a vez das damas. Lembro-me de alguns versinhos recitados nessa festa:

Tenho meu lencinho branco
Borradinho de xadrez
Você me ama com firmeza
Ou me deixa de uma vez

Meu lenço de anhandoty
Tem as letras do a b c
Passe o tempo que passar
Eu não esqueço de você.

Vou mandar fazer um barquinho
De raiz do fedegoso
Pra tirar o meu benzinho
Da vista dos invejoso."

Dançaram a quadrilha, dança muito bonita. De longe, ouvia-se: "Balancê... caminho da roça ... vem a chuva..."

Dançaram também a cana-verde, o engenho novo, o xote mandado e o sarandi, danças características. Em primeira e segunda voz, cantavam o sarandi.

Vamos nós ao sarandi
Vamos nós sarandiar
Vamos dar meia volta
Outra meia vamos dar.

Vamos nós ao sarandi
Vamos nós sarandiar
Vamos dar a volta inteira
Passe adiante e troque de par

E assim continuavam cantando, juntamente a outros versinhos, trocando os pares até chegar ao último par.

E o cateretê esteve também muito animado, durante toda a noite.

De vez em quando ouvia-se um comentário:

Eta festa batuta!

A noite foi pequena para tantas danças bonitas e interessantes.

Eu fiquei encantada com a festa e com a simplicidade daquela gente ingênua, sincera e bondosa. Tudo ali era lindo e interessante. E o luar que fazia, era simplesmente maravilhoso!

Quanta beleza há nos sertões do Brasil, onde se encontra o verdadeiro Brasil, vivo, puro, com seus verdadeiros costumes e tradições. O Brasil brasileiro, com sua doce poesia.

 

(Garcia, Arlinda. "Centelhas do folclore sulino mato-grossense". Jornal do Folclore. São Paulo, julho/agosto de 1960)
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