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Mutirão: trabalho, recreação, fraternidade

Joanye D'Oliveira

Não raras vezes tem-se ocupado entre os estudiosos do nosso folclore, do assunto que abordaremos no presente trabalho.

Propondo-nos a elaborá-lo, longe não nos pomos de pretender oferecer ao leitor, ainda que em um só aspecto, uma página livre de senões ou lapsos, posto que, tão só narraremos o que já nos foi dado assistir em festas na roça.

Visitando fazendas, tivemos, ensejo há anos que não vão longe, de presenciar a realização de um mutirão, bem como de participar de divertimentos outros. A colaborar neles, costumam-se convidar o visitante, e este, ante a amofinante insistência com que o intimam, por mais obstinado que se queira manter, finda por render-se, passando, então, aos singulares folguedos.

No mutirão, evidencia-se o espírito de fraternidade que a todos congrega. A solicitação pelo meeiro dirigida aos "cumpades" das circunvizinhanças, no dia e a hora aprazados todos se encontrarão reunidos no terreiro, para, por exemplo, levarem a efeito a debulha.

Por todo o tempo em que se empenham na debulha, em suas conversações se ocupam, tão somente, em comentar o que tenha constituído a nota predominando na última festa, o enlace matrimonial de algum "cumpade" ou mesmo o mutirão mais recente.

Concomitantemente, lá no rancho, apegado ao casarão da "colonha", as "cumades" cuidam dos seus misteres, que nesse dia, limitam-se à preparação dos comes, que os homens da "debulha" tão logo findem o trabalho irão saborear.

Não será, porém, em toda festa desta natureza que se encontrarão fartas mesas, plenas de pratos convidativos. Há as pobres, onde nada se verá, senão rápido e aguado café, acompanhado de alguns pedaços de broto (bolo sem açúcar, muitíssimo apreciado pelos descendentes de italianos). Isto consoante a situação econômica do campônio na ocasião da "festa".

Antes de prosseguirmos, parece-nos devido esclarecer porque tantas vezes temos repetido o termo "cumpade" (compadre). É costume pelo menos o é na zona do Vale do Rio Doce, região confinante de Minas Gerais e Espírito Santo, fazerem todos os campônios compadres. Tanto poderá tratar-se assim o seu Querêncio, ancião que já transpôs as oitenta primaveras, como o Zequinho, fedelho de quinze anos que sai de calças compridas só aos domingos e feriados.

No início lembra-nos haver informado que aos visitantes do "comércio" (cidade), são formulados convites e de tal forma ruidosos e tão reiterados que ninguém se dará por excusado em aceitá-los senão nos primeiros instantes.

Mas esclarecemos: no caso da debulha, a peculiar hospitalidade do campônio, logram entricheirar-se perfeitamente os intrusos que da azáfama citadina se vão refugiar na roça. O que não deixa de ser excelente para quem lá se encontra em busca de repouso... ou de assunto.

Para o leitor que o não conhece diremos (se nas suas próximas férias na fazenda lhe aprouver empregá-lo...) o método pelos campônios preferido, afim de procederem à debulha: com dois sabugos — para eles, "sabuco" — girados em sentido contrário a espiga de milho entre estes, desprendem-se os grãos. Concordo em que tenha sido algo complexa a descrição, porém, na prática é bem simples...

Finda a debulha — quase sempre já é noite — se si trata de um "cumpade" bem de vida haverá por certo, abundância de bolos, de doces de mamão, de coco, de cidra, de abóbora, de mandioca etc.

As damas jamais se omitem do programa, não importando a situação econômica que o camponês esteja a atravessar. É notório que o pagamento ao sanfoneiro não se inclui na relação de despesas — dá-se-á ele por satisfeito com as referências elogiosas às músicas que executar, com a cachaça que lhe trouxerem, com os doces, sorrisos das Mariquinhas de vestidos de chita e pés no chão.

Em suma é o mutirão o ajuntamento de camponeses em determinada colônia em que se requer a cooperação de um certo número de pessoas, para a realização de um trabalho qualquer. É, por assim dizer, um trabalho recreativo em que todos se empenham, não só denodadamente, mas, e sobretudo, com a camaradagem mais franca e sempre com aquela galhardia e felicidade dos dias em que promovem-se jogos de futebol, ou que visita o vigário a capela, e todas as morochitas também...

Constitui o mutirão o divertimento mais original a que pode presenciar o homem da metrópole. E é o mais admirável exemplo de cooperação e fraternidade que nos é dado assistir sobre a terra excetuando-se o que nos apresentam as formigas é claro.

 

(Oliveira, Joanye d'. "Mutirão: trabalho, recreação, fraternidade". A Gazeta. São Paulo, 16 de novembro de 1955)
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