Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 91
Junho de 2006
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A lenda do gambá e a besta, por Lindolfo Gomes



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A lenda do gambá e a besta

Lindolfo Gomes

Isto foi quando o Menino Jesus, Nosso Senhor Jesus Cristo, nasceu na manjedoura, lá em Belém da Judéia.

O menino veio ao mundo na pobreza mais extrema e sua divina Mãe não tinha nem um isto com que o agasalhasse, a não ser a palha da manjedoura, em vez dos paninhos macios.

Logo que o menino nasceu, correram a vê-lo e a adorá-lo os santos pastores. E daí por pouco apresentaram-se os boizinhos, as ovelhinhas a oferecerem à senhora os seus préstimos. O boizinho bafejava para aquecer o menino e a ovelhinha arrancava uma lãzinha para revesti-lo.

Até o gambazinho, com a sua catinguinha, lá se foi também oferecer, muito envergonhado, mas muito prestativo, se a senhora queria que lhe desse de mamar ao menino.

Uma besta, entretanto, que se remoía ali bem perto, na manjedoura, nem se moveu. E só de vez em quando soltava zurros medonhos, incomodando o sossego do Jesuzinho.

Vendo o procedimento do gambazinho em comparação com o da mula, Nossa Senhora ficou muito comovida e resolveu premiar aquele e castigar esta.

Ao gambá deu o destino de, dessa data em diante, dar à luz sem dores, e à besta, o castigo de não mais poder conceber e o de morte se tal viesse a acontecer, não sendo, como não era, digna de ser mãe e de compreender o que era uma mulher estar ao lado do berço de seu filho ao desamparo e na penúria...

E daí em diante se cumpriu o que a senhora quis, e já sabemos então por que o gambá traz ao lado as suas bolsinhas e por que a besta não produz, e se produzir há de morrer.

(Contos populares brasileiros, de Lindolfo Gomes, SãoPaulo, Ed. Melhoramentos, 1948)

 

(Em Guimarães, Reginaldo. "Os três santos de junho". Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 15 de junho de 1958, 3º caderno, p.7)
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