Isto foi quando o Menino Jesus, Nosso Senhor Jesus Cristo, nasceu na manjedoura, lá em Belém da Judéia.
O menino veio ao mundo na pobreza mais extrema e sua divina Mãe não tinha nem um isto com que o agasalhasse, a não ser a palha da manjedoura, em vez dos paninhos macios.
Logo que o menino nasceu, correram a vê-lo e a adorá-lo os santos pastores. E daí por pouco apresentaram-se os boizinhos, as ovelhinhas a oferecerem à senhora os seus préstimos. O boizinho bafejava para aquecer o menino e a ovelhinha arrancava uma lãzinha para revesti-lo.
Até o gambazinho, com a sua catinguinha, lá se foi também oferecer, muito envergonhado, mas muito prestativo, se a senhora queria que lhe desse de mamar ao menino.
Uma besta, entretanto, que se remoía ali bem perto, na manjedoura, nem se moveu. E só de vez em quando soltava zurros medonhos, incomodando o sossego do Jesuzinho.
Vendo o procedimento do gambazinho em comparação com o da mula, Nossa Senhora ficou muito comovida e resolveu premiar aquele e castigar esta.
Ao gambá deu o destino de, dessa data em diante, dar à luz sem dores, e à besta, o castigo de não mais poder conceber e o de morte se tal viesse a acontecer, não sendo, como não era, digna de ser mãe e de compreender o que era uma mulher estar ao lado do berço de seu filho ao desamparo e na penúria...
E daí em diante se cumpriu o que a senhora quis, e já sabemos então por que o gambá traz ao lado as suas bolsinhas e por que a besta não produz, e se produzir há de morrer.
(Contos populares brasileiros, de Lindolfo Gomes, SãoPaulo, Ed. Melhoramentos, 1948)