Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 91
Junho de 2006
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Zumbi de cavalo

Ademar Vidal

Não é somente o homem que tem alma. O cavalo também tem. Pegue-se qualquer pessoa do campo e dela se ouvirá a informação formalmente categórica. Nenhuma dúvida existe. Apenas a alma do cavalo não se chama alma. Chama-se zumbi. Quando se fala em zumbi de cavalo, já se sabe do que se trata. E a respeito correm mundo as notícias de aparições constantes. Em tal parte o zumbi fez isso, o zumbi fez aquilo. São estrepolias medonhas. Causam terror aos tropeiros e vaqueiros, principalmente aos cargueiros que vão para as feiras, tiram a madrugada, procuram adiantar tempo, querem é chegar cedo para ocupação dos melhores lugares.

Eles viajam descuidados pela estrada afora, fumando o seu cachimbo, e, de repente, vem o sinal que não deixa dúvida, não admite mais controvérsia — é a realidade que se apresenta e que irá trazer conseqüências desagradáveis.

Torna-se necessário evitá-las, a fim de não se encarar prejuízo lamentável. Isto porque as cargas sofrem quedas fatais, estragando as mercadorias que são conduzidas para o comércio. O zumbi só aparece no lugar aonde mora algum cavalo. Fica-o esperando no caminho em que costuma passar. Rincha, relincha, salta e dá muito coice à toa. Alguns tropeiros chegam a ficar de quarto inchado quando não levam semanas deitados na camarinha sem poder andar direito.

A zuada que a alma do cavalo faz é característica. Assombra as pessoas que a assistem ou ouvem, isto porque tanto relincha o animal como faz levantar nuvens de areia, pedras e paus, amedrontando o viajante, fazendo o esternegue mais danado do mundo. O jeito é procurar meios de fugir a tão inesperado espetáculo. Porém como tudo já tem sua forma de ser encarado, e mesmo evitado, também o fantasma raramente pega um cargueiro de supetão e, assim, quando desconhece os primeiros sintomas dados com sutileza, e, logo depois, com espalhafato barulhento.

Antes desta última manifestação, ao som do primeiro relincho, desde que o rincho do zumbi é indisfarçável, o cargueiro larga o animal e a carga, botando para correr e escondendo-se aonde lhe é possível. Fica dentro dos matos a noite inteira, pois que o duende chega para as suas estrepolias exatamente quando o crepúsculo envolve toda a terra, num coito onímodo. Ao amanhecer, então, se aproxima do local em que o zumbi se manifestou — e o seu cavalo lá está. Foi na certa de encontrá-lo.

O animal não se afasta ao avistar a alma de sua raça e fica como que embriagado. Não dá o menor passo, fica imóvel horas e horas seguidas, fica em estado de lezeira muito conhecida do cargueiro, que acha aquilo mais que natural e próprio da influência do mito. E, quando acontece sair, volta para o mesmo lugar, não se demorando muito por longe.

O zumbi não se conforma em ser a representação da morte e, por esta razão, procura atrapalhar a vida dos seus semelhantes, na esperança de voltar algum dia a ser o que dantes era. Porém se o zumbi procede deste jeito, embriagando o cavalo que o avista, é exatamente porque o cargueiro abandonou a sua condução, indo esconder-se. Desde que haja reação, as coisas se modificam bastante. Mudam as cores, de água passando a vinho, de leite passando a café.

Aliás, como ficou dito acima, isso acontece aos inexperientes, àqueles que não conhecem as primeiras demonstrações do fantasma. Sendo assim, têm que agüentar com o repuxo. O negócio não é de brincadeira, não.

As vítimas contam a história com os olhos arregalados e dizendo que Deus os livre de outra, tamanha é a lembrança do pavor que a aparição deixa com os seus coices violentos e inesquecíveis, dados a torto e a direito. Se o cargueiro permanece em cima da cangalha, esta cai e ele também, ficando a mercadoria estragada, além do seu dono machucado. E começa a dança do zumbi, que é hostilidade franca a um e a outro. Não admite a menor reação. O cavalo finda perdido alguns instantes nas campinas e o homem, por sua vez, estendido no chão.

Por este muito justo motivo é que o cargueiro avisado sabe como agir nas horas exatas em que sente a próxima aparição dessa estranha alma do outro mundo.

Tem-se notícia do zumbi de cavalo em todas as zonas do Nordeste. Parece mesmo que ele é comum ao Brasil inteiro. É verdade que mais intensa ou mais fraca a sua aparição nesta ou naquela área. De maneira que não se pode dizer com segurança que a alma (também chamam de alma de cavalo) é coisa apenas restrita à região em que agora foi incluída.

É conhecida outra versão que, todavia, não se afasta muito das notas de informação acima registradas. Por tal motivo não merece maiores atenções. Mesmo porque em quase nada altera as estrepolias que tanto caracterizam a aparição animal da meia-noite.

Convém salientar que ele surge na estrada em pleno dia. Esse negócio de hora não é levado em conta. E a finalidade não resta dúvida que se mostra uma só: fazer o possível para atropelar os passos tanto do cargueiro como do próprio cavalo.

 

(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.279-281)
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