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Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

São João no velho São Paulo

Gabriel Marques

Uma a uma vão morrendo, pisoteadas pelo progresso, nossas mais líricas tradições. Dos tempos da velha gente paulista pouca coisa ainda nos resta a recordar fragmentos do passado. É o que está agora acontecendo às lindas festas de São João, com tanto fervor e encantamento realizadas nas enregeladas noites juninas da romântica Piratininga de 1800 a 1800 e tantos. Era a alegria da criançada, a alegria das moças, dos velhos, pois que todos, cada um a sua moda, punham o coração à solta, fosse nas quadrilhas de vestidos rodados dos salões iluminados a gás, fosse nas inocentes folias de rua ou mesmo diante do clarão escaldante das fogueiras com batatas a assar no braseiro... Busca-pés, serpenteando, riscavam de fogo o chão. Rojões estouravam, no alto, desfeitos em lágrimas de ouro ou de prata. Nos salões aristocráticos, a luz morteira do gás, crianças com blusas de marinheiro e mocinhas cloróticas queimavam seus "fogos" de salão", criando delicadas chuvas de estrelinhas que mal cintilavam para logo morrerem desfeitas no ar. Nas janelas, moças mais afoitas queimavam "pistolões" a sacudir, no espaço, o curioso tubo de papelão de onde saíam as golfadas de fogo, bolas azuis, incandescentes. E essas coloridas bolas boquiabriam as crianças e encantavam as meigas vovozinhas de touca de lã à cabeça.

E os balões?... Balões coloridos, balões redondos, oblongos, facetados, com feitios de peixes, de aves ou de cruz subiam rumo às estrelas ou ficavam algum tempo a boiar no azul, para depois empreenderem a descida melancólica dos vencidos. Ainda alguém há de se lembrar, quem sabe, do balão de vinte metros da loja do Japão que devia subir, em certa tarde de 24 de junho, dos chãos da então chácara da baronesa de Itapetininga no vale do Anhangabaú. A parte superior ficava suspensa no viaduto e a inferior presa no chão por estacas. A mecha pesava 50 quilos. Mas quando o balão, com a mecha acesa já se estufava, forte vento encanado pelo vale subitamente lhe murcha o grande ventre e ainda mais lhe estira a língua de fogo. Foi também o bastante, pois que de repente o balão enorme se transformou numa só e imensa fogueira...

E as procissões realizadas manhãzinha ou a horas mortas, para "lavar" São João Batista"?... Quem melhor as promovia, em São Paulo, era o popular João Manuel Floriano, mais conhecido pela alcunha de João-Nhá-Mãe, em virtude dos seus grandes predicados femininos nos arranjos domésticos e preparos das festinhas familiares a que davam o nome de "assustados".

Era, pois, o João-Nhá-Mãe — que residia na Liberdade — quem se desincumbia, a contento geral, da tarefa para ele dignificante de promover, nas noites frias e garoentas da Piratininga de 1800 e poucos, a poética procissão. Com velas acesas e cantoria religiosa, lá ia ela precisamente à meia-noite, "lavar" São João Batista no Tanque Reuno, lá dos lados dos Piques, ou no do Matadouro, nas proximidades da hoje rua Humaitá. Essas procissões eram constituídas por devotos e curiosos, bem como por grande número casadoiras. À beirada do tanque ou do rio — enquanto algumas moças, para saber se a morte lhes ia surgir naquele ano, procuravam ver o rosto na água — delicadas mãos femininas despiam a pequena imagem de São João Batista e a mergulhavam nas águas geladas para o "banho" simbolizador do batismo de Jesus no rio sagrado. Nesse momento os circunstantes cantavam...

São João Batista
Batista João;
Batizou Jesus
Nas águas do Jordão!

Pois foi em um desses recuados anos que João-Nhá-Mãe teve a luminosa idéia de "lavar" São João Batista nas águas do Riacho Hiacuba, que corria sob a ponte do mesmo nome, nas proximidades da hoje praça do Correio. Essa idéia surgiu-lhe do fato de crerem todos ser venenosa aquela água que, nascendo na confluência da rua Brigadeiro Tobias com a então ladeira da Santa Efigênia, descia, serpenteando, a juntar-se com as águas do tanque do Zunega, no Paissandu, e dali desciam ambas a desaguar no velho Anhangabaú. Pois, segundo crença geral, esta água era venenosa. Do seu exame concluíra o engenheiro Sanchez d'Oria, em 1791: "É água ácida e vitriólica, com base calcária de oca e partículas arsenicais, sumamente saturada de gás mefítico"... E alguém fez sobre o caso uma quadrinha, que logo se tornou popular:

Eu fui passar na ponte,
E a ponte estremeceu;
Água tem veneno, morena;
Quem bebeu, morreu!

E foi por isso que João-Nhá-Mãe resolvera, nas suas festas em louvor a São João, lavar o santo nas águas venenosas do Hiacuba, para assim purificá-las. e uma das mais notáveis procissões de São João realizadas em São Paulo, naqueles idos tempos, foi por certo a que pela primeira vez "lavou" o santo nas tais água do Hiacuba. E essas "águas ácidas" realmente deixaram logo o povo livre dos seus malefícios, pois que em 1898 a Repartição de Águas e Esgotos estancou-as, em seu nascedouro, definitivamente. E com a morte de João-Nhá-Mãe ninguém mais cuidou da tradicional procissão de São João Batista, em São Paulo. E, curioso! João-Nhá-Mãe cerrou os olhos precisamente no dia consagrado àquele santo: 24 de junho...

Mas, tudo isso já vai bem longe; tudo isso já morreu por trás dos frios arranha-céus paulistanos, sem uma lágrima de saudade. Hoje, nem mais se lava São João Batista, nem mais as moças "tiram" suas sortes nas águas do Tanque Reuno, nem as fogueiras crepitam, nem já se pode, sequer, soltar busca-pés ou encher o céu de balões...

 

(Marques, Gabriel. "São João no velho São Paulo". O Estado de São Paulo. São Paulo, 06 de julho de 1958)
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