Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Pedidos de canjica

Hildegardes Viana

Lembro-me perfeitamente que foi há cerca de 16 anos [1950] que um velho baiano, morador do Rio de Janeiro, longe completamente de sua terra faziam 40 anos, me perguntou pelo São João das gerações do busca-pé e da fogueira, dos rapazes ingênuos que ousavam afagar os dedos das namoradas. Apesar de embriagado pelo encanto sofisticado de Copacabana, o velho baiano ainda tinha no pensamento a canjica, o bolo de São João e o jenipapo, que enfeitaram os junhos do seu tempo de estudante boêmio. Entre as suas mais gratas recordações, figurava a visão da mesa da república coberta de travessas de canjica encanelada, fruteiras cheias de laranjas, as garrafinhas de licor de jenipapo. Tudo de presente. Não no próprio sentido de oferta, pois faltava a espontaneidade inicial. Mas dado de bom grado, correspondendo à solicitação gentil dos moços.

Expliquei, então, que o progresso tinha dado cabo das repúblicas e dos pedidos de canjica. Meu amigo entristeceu. Rememorou fragmentos de dedicados versinhos românticos ou chistosos, que enfeitavam solicitações pantagruélicas, num saber pitoresco que só a rima sabe dar.

A história começava quando os traques de massa aparecia medrosos, ainda antes das trezenas do glorioso Santo Antônio. Os poetas, que abundavam entre a rapaziada, faziam insinuantes quadrinhas, mais ou menos bem urdidas, que depois seriam enviadas às famílias amigas ou da vizinhança. Quem resistiria a um pedido de canjica dos jovens?

Toda a vizinhança sabia que eles não ficariam em casa na noite joanina. Mas todos mandavam o seu presente e, mais ainda, o que era melhor para os moços, confortadores convites. Bem, a solicitação de comparecimento era fatal, principalmente para os estudantes que tocassem flauta, violão, ou soubessem saudar o belo sexo em breves improvisos inflamados. O convidado teriam direito de levar colegas. Embora muitos repetissem que estudante não prestava, grande número de mães alcoviteiras acalentava a idéia de ver surgir entre os futuros doutores um genro em perspectiva.

Lembro-me da animação do meu amigo indo buscar um recorte de jornal, com versos de Lulu Parola, apoiando o pedido de canjica. Rimas gostosas de um Cantando e rindo que começava assim:

Ora, eu acho justíssimo o pedido
que fazem; tanto assim que vou lhes dar
de pronto... o meu apoio decidido...
Pedem canjica e jogos para a festa;
E eu digo... a quem me lê! — Deveis mandar,
Pois quem dá ao estudante, à pátria empresta!

Afinal eles pediam tão pouco numa era de fartura!... Vasculhando a memória, meu amigo tentara recompor um pedido de canjica, saído lá da sua república, cujo sexteto final de tão incisivo e convincente, ainda hoje é transcrito com presteza:

Mande queijo, pão torrado
Doces finos, bom licor
E franguitos de ensopado
Na memória tudo fica?
Mas... não deixem, por favor
De nos mandar canjica

Disse a meu amigo que a canjica era, como ainda é, encontrada com facilidade, podendo ser comida em qualquer casa de família. Que o jenipapo doce para as moças, queimante para os homens, tudo continuava a ser deliciado, mesmo pelos que afirmavam que porta de rua, esquina de venda, copo de cachaça e resto de samba, nunca adiantaram a alguém. Que o São João da Bahia ainda tinha:

Canjica, milho cozido
Pamonha, batata assada
Jenipapo gostoso
Fazendo cabeça inchada

Ainda assim meu amigo deplorava que a vida moderna, agitada e ingrata, com os estudantes atribulados, muitos deles achando maravilhoso ouvir ou ler que pertencem a uma geração torturada, não desse tempo nem ambiente para pedidos de canjica. Sentia que os de hoje pediam coisas mais objetivas, mais úteis. Coisas úteis que nunca teriam repercussão íntima pois havia muita falta de vida interior. As gerações da flauta e da boemia, do verso e do violão, sabiam também gritar e reivindicar, mas achavam sempre momentos para volver os olhos para as pequenas coisas que embelezavam o mundo.

Porque de fato, senhores
Não é por lamentações
Venham mágoas, venham dores
Venha até reprovação!
Venha moço, pobre ou rico
Bulir só no coração!
Mas... São João sem canjica
Ai, Deus! Ai, Jesus! Ai, Chico!
Valei-nos, por piedade
Socorrei-nos por bondade
Vós que sois nobres e bons
Não pedimos vossa mala
Nem a mobília da sala
Nem os vossos sapatões
Canjica, milhos cozidos
Vinhos, bolos ou cerveja
A fim de que nós, coitados
No dia dos batizados
Não fiquemos no ora, veja!

Em expectativa aguardavam a chegada do mensageiro da cordialidade, uma visão que hoje os velhos estudantes das repúblicas conservam com ternura: o negrinho engomado ou a baiana bem vestida carregando o tabuleiro com canjica, laranja, jenipapo, bolo de São João, sortes, batendo na porta para entregar a resposta do pedido de canjica.

 

(Viana, Hildegardes. "Pedidos de canjica". A Tarde. Salvador, 20 de junho de 1966)
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