Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 91
Junho de 2006
Artigos deste mês em Cancioneiro
Noite de São João, por W. R.

Quadrinhas conceituosas, selecionadas por Rolando de Serigi

Quadrinhas amorosas populares, selecionadas por Rolando de Serigi



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Quadrinhas amorosas populares

Selecionadas por Rolando de Serigi

Quando me toma cansaço
Penso em ti como quem reza
E a alma torna-se de aço
E a vida já não me pesa

Uma escada de dois lados
Toda enfeitada de flor
De um lado sobe a saudade
Do outro desce o amor

Tenho na minha janela
Um valverde regalado
Regado com águas tristes
Que por ti tenho chorado

Minha menina bonita
Meu girassol encoberto
Faz tempo que eu não te vejo
Nem de longe nem de perto

Vai-te embora não te lembres
Quem de mim já vive ausente
Pra ser amante, querida
Você não é que é gente

Eu já fui hoje não sou
Prenda do teu coração
Hoje sou a "vassourinha"
Com que tu varreste o chão

Esta noite à meia-noite
Ouvi cantar o gavião
Parecia que dizia
"Vinde cá, meu coração"

Triste sou, triste me vejo
Sem a tua companhia
Tão triste que nem me lembro
Se alegre fui algum dia

Mulata cor de bronze
Mulata é o aluá
Mulata tu me prende
Com a luz do teu olhar

O ganso pisou na água
E com o bico foi beber
Não contei nada a ninguém
Que meu amor é você

Tua boca é tão pequena
Tão pequena e tão singela
Que eu não sei como é que cabem
Tantos beijos dentro dela

Abaixai-vos serras altas
Quero ver Guaratinguetá
Quero ver o meu amado
Em que braço ele está

Teu coração é cofre cheio
De moedas do querer bem
Já fez rica a muita gente
E eu nunca tive um vintém

Se estás arrependida
Pelo bem que me fizeste
Dá-me os beijos que te dei
Que te dou os que me deste

A tua pele é tão fina
Tão fácil de se queimar
Que até receio magoá-la
Co'a chama do meu olhar

Abaixai, serra negra
Quero ver Jurumirim
Quero ver se aquele ingrato
Ainda se lembra de mim

Fui chorar minha saudade
Na beira do ribeirão
Respondeu peixe no fundo:
— Por que chora, coração?

Tu amas a Jesus
Que morreu por tanta gente
Por que não amas a mim
Que morro por ti somente

Nhanhã cantava modinhas
Eu fazia o cafezinho
Ele dava cafunés
Eu pagava com um beijinho

Adoro-te tanto, tanto
Ó meu grande e doce bem
Que se um dia morreres
De tédio morro também

Você diz que me quer bem
Eu também estou te querendo
Um bem se paga com outro
Nada fico te devendo

Cinco com quatro são nove
Acabou-se a novena
Amei-te com tanto gosto
Deixei-te com tanta pena

Lá em cima tem batuque
Cá em baixo também tem
O rio está muito cheio
Não posso passar, meu bem

Se vires a garça branca
Pelos ares ir voando
Dirás que são os meus olhos
Que te vão acompanhando

Embora o fogo se apague
Fica na cinza o calor
Embora o amor se acabe
No coração fica a dor

Pus-me a pesar as pedrinhas
Do deserto em que eu vivi
Mais pesavam minhas penas
Do que quantas pedras vi

Coração não gostes dela
Que ela não gosta de ti
Não estejas coração
Tape, tepe, tipi, ti

As flores do cafeeiro
Estão branquinhas a sair
Não fiques triste, menina
Quando me vires partir

Por um capricho, querida
Me trocaste por alguém
Por um capricho é possível
Que outra vez me queiras bem

Vi um mendigo na rua
Pôr fora a esmola de alguém
Meu coração faz o mesmo
Se quem dá não lhe quer bem

Se fossem de balas as lágrimas
Que por ti tenho chorado
O meu coração andava
De balas todo varado

Teus lindos e verdes olhos
São duas grandes mentiras
Que o verde é cor da esperança
E tu a esperança me tiras

Assim como as abelhas
Abrem asas pra voar
Eu também abro os meus braços
Pra com eles te abraçar

 

(Serigi, Rolando de. "Quadrinhas amorosas populares 3; contribuição ao estudo do folclore". Correio Paulistano. São Paulo, 13 de junho de 1954)