Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 91
Junho de 2006
Artigos deste mês em Cancioneiro
Noite de São João, por W. R.

Quadrinhas conceituosas, selecionadas por Rolando de Serigi

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Quadrinhas conceituosas

Selecionadas por Rolando de Serigi

Lamparina de quatro bicos
Não ilumina dois salões
Um amor para ser firme
Não ama dois corações

Quem falar de mulher velha
Merece tomar peroba
Se não fosse mulher velha
Não havia moça nova

A vida é um sonho lindo
A vida dura um momento
A vida é tão bela
Que não sai do pensamento

Perco meu tempo em querer
Bem a quem nunca me quis
Que vale regar a planta
Que nunca teve raiz?

As flores que tu me deste
Murchas, tristonhas, sem cor
São como as almas sem alma
São como as almas sem amor

Amor, amor verdadeiro
Como a gente sonha e quer
É trevo de quatro folhas
No coração da mulher

Certos pontos luminosos
Que dão brilho à minha sorte
Têm semelhança com o rio
Que ilumina e deixa a morte

A vida é tal qual a noite
Descendo nos pinheirais
Mas, é na noite bem negra
Que as estrelas brilham mais

Mais vale tarde que nunca
Medidas que o tempo tem
Para um mal é sempre cedo
Nunca é tarde para o bem

É destino de quem vive
O ter mais de uma paixão
Dá tantas voltas o mundo
Quando mais o coração

Não há machado que corte
A raiz do bem querer
Se cortar, brota de novo
Se arrancar, torna a nascer

Como o espaço não tem fundo
É a esperança dom bendito
Parece a âncora do mundo
Atirada ao infinito

O amor e a lua é patente
Têm isto de semelhante
Entram em quarto crescente
E saem em quarto minguante

Chamaste-me a tua vida
E eu tua alma quero ver (ser)
A vida acaba com a morte
A alma não pode morrer

O amor nasce na vista
E mora no coração
Mas vive da correspondência
E morre na ingratidão

A vida é uma equação
A felicidade é o X
Quem conseguiu resolvê-la
É deveras muito feliz

Não peças nunca à vida
Mais do que ela pode dar
E lembra-te que o melhor bem
Não é viver, é sonhar

Coração que vive triste
Viva alegre se puder
Coração que vive triste
Nunca consegue o que quer

Saudade é uma dor que dá
Não é uma dor de doer
É uma vontade de lembrar
É uma vontade de esquecer

Prefiro a dor ao prazer
Por esta razão somente
Todo o prazer vai-te embora
Toda dor fica com a gente

Alecrim na beira d'água
Bate o vento está tremendo
Assim são as mocinhas
Que de faceiras estão morrendo

Minha mãe nos casa logo
Quando somos raparigas
O milho plantado verde
Nunca dá boas espigas

Faço a vida sempre nova
Encanto-a cada vez mais
Por fazer as minhas horas
Todas sempre desiguais

Há certas vidas na vida
Que a morte seria um bem
Mas até a própria morte
Se esquece delas também

Quem sofre o mal da saudade
Não acha alívio um momento
Pois tem perto a enfermidade
E longe o medicamento

A saudade é a luz da lua
Luz que a tristeza gelou
A iluminar os caminhos
Por onde o sol já passou

Muito mais vale a amargura
De desejar e não ter
Do que alcançar a ventura
Para depois a perder

A vida é como um rosário
Que rezamos cada dia
Depois de dez amarguras
Vem um dia de alegria

Dois olhos, duas orelhas
Só a boca não tem par
Quer dizer que é mais prudente
Ver, ouvir do que calar

Mais vale a tosca palhoça
Onde nela o riso mora
Do que palácios dourados
Onde no ouro se chora

Ora, a vida, deixa-a andar
Não queiras da vida ter
O que ela não possa dar
Nem tu possas merecer

Um livro bom é estrela
Que nos guia pela vida
É luz que aclara os caminhos
Fazendo a estrada florida

A Deus cabe a sem razão
De não ser o amor perfeito
Quando fez o coração
Não fez do lado direito

Amar é viver sozinho
Tendo alguém perto de si
Ser pombo, fazer o ninho
E a rolinha sempre ali

Coitado do mal-me-quer
Que não faz mal a ninguém
E todos a desfolhá-lo
A ver se lhe querem bem

O amor é um trem de carga
Na linha da ilusão
Transportando sofrimentos
Dos olhos pro coração

A saudade me tem posto
Mais cruelmente sujeito
Não pode ter liberdade
Quem tem amor em seu peito

Na galera dos amores
Todos se embarcam cantando
Porém, no fim da viagem
Todos se apartam chorando

Hei de me pôr a cantar
Já que chorando nasci
Para ver se recupero
O que chorando perdi

 

(Serigi, Rolando de. "Quadrinhas conceituosas 3; contribuição ao estudo do folclore". Correio Paulistano. 08 de agosto de 1954)
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