Em 1859, transcrevia o Correio Paulistano, do Jornal da Bahia, uns singelos versos sobre a Noite de São João, que, dado o pitoresco da linguagem e a oportunidade da data que hoje se festeja, não nos furtamos ao prazer de trazer para este canto. Lá vão eles:
I
— Que é isto, amigo? Que é isto?
Dá licença por quem é
Assim tão esbaforido!
— Ai, senhor! venho corrido
De um tremendo buscapé
— Buscapé?! que é da polícia
Tão ativa e perspicaz?
— Que quer? A polícia é boa
Mas um foguete que voa
Ela não há de ir atrás
— Oh! que foguete maldito
Acredite-me, senhor
É tal e qual ; do diabo
Em chamas parece o rabo
Solto atrás de um pecador
É fino, comprido,imenso
Anda como um caracol
Pela noite abrindo riscas
Deixa um mundo de faíscas
De fumaça um arrebol
É o diabo em pessoa
Ou um foguete a voar!
De dentro de uma taboca
Lança fogo, pela boca
Rabeia até estourar
Quando estoira é que ao demônio
Mais assemelha-se então
Vomita pólvora, enxofre
Deixa ao sumir-se de chofre
Traço negro sobre o chão!
É um espectro medonho
Para qualquer pretensão
Origem de contratempos
É destes modernos tempos
A varinha de condão
Desmorona altos castelos
Abate muita altivez
Com uma pancada sua
Feito no mundo da lua
Quebra maciço pavez
Taboa diz desengano
Taboca diz pontapé
Em amores diz logrado
Em política, mamado
Em São João, buscapé
II
Contudo a noite é mui bela
A noite de São João
É fogo por toda parte
Fogo natural e d'arte
No ar e no coração
Tudo nesta noite santa
Acorda e põe-se de pé
Pelo lado da canjica
A portas de amor se abica
Namora-se a buscapé
Toda chamas a cidade
Como é formosa e feliz
Estoura agora, mas logo
Em cachoeiras de fogo
É qual ígneo chafariz
É tudo fulgor, incêndio
Pavio, enxofre, morrão
Cada olho é um foguete
Que em lua magra se derrete
Brasa, cada coração
As cabeças são de pólvora
Propostas sempre a se inflamar
Os lábios — oh! não se explica
Sabem todos à canjica
Doces, doces de enjoar
Noites de grandes milagres
Eu te saúdo de pé
Mas peço-te por teu santo
Que não chamusques teu manto
Co'o danado buscapé!