Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...

Reminiscências sobre futebol na São Paulo de início do século XX

Jorge Americano

Futebol na rua

(1899)

Meu avô dava-me lições de inglês. Uma tarde eu cheguei mais cedo para a lição e fiquei à janela vendo uns meninos maiores jogar bola com os pés.

Não percebi quando chegou meu avô, tão entretido eu estava. De repente, senti mãos nos meus ombros e ouvi: football.

Nesse momento não compreendi a arma política nascente, nem a revolução social que se aproximava. Até hoje me é difícil compreender o fenômeno. Uma bola, um pé que bate, ouro que rebate. Várias xingações, um "juiz ladrão", estará aí a política geral, será esse o destino do mundo?

(1904)

Éramos vinte entre a rua Conselheiro Nébias e adjacências. Maneco Lacerda, Luís Filipe de Queirós Lacerda, os dois irmãos Vallim, Schimiella, filho do carpinteiro, Zico Sales, José, filho da cozinheira de dona Joana de Morais Sales, Orlando e Alberto Rosa, Totó Pinto, Carlos Norberto Aranha, Anatole e Joaquim Sales, Kant e Hermes Alves Lima, Gastão e Oduvaldo Moreira, Amaro Ribeiro, Jaime e eu.

Para completar dois teams de futebol, contávamos ora com João Minervino, que vinha lá da rua Brigadeiro Tobias, ora com algum menino que passava, ora com a irmã de Hermes e Kant, Nenê Alves Lima.

O gol era marcado pelo lampião, de um lado, e por dois tijolos, do outro, no quarteirão da rua Conselheiro Nébias, entre rua Helvétia e alameda Glette. Não passava veículo senão de meia em meia hora. A bola era feita com enchimento de papel, revestida com meias velhas, e amarrada com barbante. Ficava do tamanho de uma laranja. De vez em quando quebrávamos a vidraça de um lampião. Não dava incidente maior. De vez em quando quebrávamos a vidraça de uma das casas, todas iguais, pertencente a dona Vitória de Almeida Lima. Corríamos todos, escondíamos atrás do pequeno saguão externo de cada casa, e uns minutos depois vínhamos aparecendo. Não dava incidente maior.

Um dia apareceu uma bola de couro, não sei de quem. Dividiram-se os teams, e o jogo começou. As posições dos teams eram nesse tempo, denominadas em inglês: goal-keaper; dois full-backs, direita e esquerda; três half-backs, centro, direita e esquerda; cinco forwards, direita, esquerda, meio-direta, meio-esquerda, centro.

Aconteceu que, recebendo a bola num corner, um back direita deu um shoot off-side que entrou pela janela aberta do barão Brasílio Machado e lhe quebrou o lustre da sala de visitas.

O barão Brasílio Machado tinha sobrancelhas muito espessas e escuras, e olhos verdes; parecia um olhar de aço. Os meninos que se aventuravam a sair dos esconderijos para ver as conseqüências estremeciam e retornavam até escurecer.

Na tarde seguinte apareceu no Diário Popular uma reclamação de um "morador da rua Conselheiro Nébias".

Ninguém se aventurou a jogar futebol.

Na outra tarde apareceu um guarda em cada esquina. Isso durou uma semana. Depois desapareceram os guardas. Passaram-se três dias, os teams ressurgiram, embora desfalcados. Apareceram correndo, dos dois lados, os dois guardas, que estavam escondidos ao dobrar da esquina.

Todos entramos em qualquer portão, e nos escondemos como foi possível.

Foi esta, como diria Alexandre Herculano, "a última corrida em Salvaterra".

Futebol

Não sei quem instituiu o futebol em São Paulo, nem quando começou.

Mas ali por 1900 ou 1902, seu Carvalho, professor de quinto ano da Escola-Modelo Caetano de Campos, levava, depois da aula, grupos de meninos que iam jogar num campo aberto, pertencente a dona Maria Angélica, que havia na alameda Barros, entre as ruas Martim Francisco e Barão de Tatuí.

Essas ruas existiam, então, apenas pelo traçado do mapa, pois praticamente eram caminhos.

Eu tinha assistido, por esse tempo, a uma ou duas corridas de bicicletas, no velódromo à rua da Consolação, onde mais tarde foi aberta a rua Nestor Pestana.

Não sabia se já se jogava futebol ali ou não. Nas ruas toda gente jogava.

Quando assisti aos jogos do velódromo, em 1910, havia quatro clubes: Palmeiras (o antigo), Paulistano, São Paulo Atlético e Germânia.

São poucos os nomes dos jogadores de que me lembro, mas ocorrem-me Guilherme Rubião, José Rubião, Manuel Carlos Aranha, Hugo Morais, Ibanes, Fernão e Rubéns de Morais Sales, Orlando Penteado, Agostinho de Almeida Prado, Mário e Otávio Egídio de Oliveira Carvalho, Tutu Miranda, Godinho Cerqueira Leite, Clóvis Glicério, Rafael Sampaio, Charles Miller, José de Cerqueira César, Armando e Joaquim Prado, João Passos Filho, Hermann Friese, Raul Guimarães, Borges, Facchini, Bibi Gonçalves, Irineu Malta, Menezes, Itaboraí, Aquino, Juvenal Campos.

Eu não era aficionado e assistia aos campeonatos por serem encontros da gente da melhor sociedade. Os jogadores eram filhos de senadores, netos de conselheiros, sobrinhos do presidente da república, futuros cônsules, funcionários bancários, filhos da aristocracia agrícola.

Os clubes surgiram mais ou menos na ordem em que os menciono: São Paulo Atlético, Mackenzie, Germânia, Internacional, Palmeiras, Americano, Ipiranga, São Bento.

Já se jogava muito bem.

Em 1914 ou 1915, vieram jogar aqui os uruguaios e os Corinthians da África do Sul.

Daí surgiu o nome do atual Corinthians, que começou na várzea do Tietê.

 

(Americano, Jorge. São Paulo naquele tempo (1895-1915). São Paulo, Edição Saraiva, 1957, p.344-348)
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