Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Pão dos pobres e lírios de Santo Antônio

As igrejas estão repletas de fiéis. Estamos às vésperas da festa de Santo Antônio e o encanto sedutor destas noites sugestivas parece ter contato direto com a alma da coletividade cristã. Meiga e acolhedora, a igrejinha da praça do Patriarca, nestes dias românticos de junho, constitui nota deliciosamente carinhosa na fisionomia atribulada da cidade que mais cresce no mundo. Contraste perfeito com o tumulto das ruas, com o nervosismo do paulistano, com a pressa dos homens, o velho templo parece um convite permanente à calma e à meditação.

Mas não só a igreja da praça do Patriarca vive repleta de fiéis.

As demais, quer do centro, quer do arrabalde, são visitadas num crescendo constante, por homens e mulheres, que vão fazer preces e agradecer, também, as graças recebidas.

E Santo Antônio, lírio e criança ao colo, rebrilha mais que nunca, com a meiguice de sempre, distribuindo aos devotos a cornucópia de suas graças divinas e as esperanças de um dia melhor. Estão lindas, deveras, as igrejas de São Paulo, nestes dias que antecedem ao 13 de junho.

E lá aparecem, em romaria sugestiva, alegres mocinhas que vão pedir algo a Santo Antonio — o casamenteiro...

A tradição não morre. O pão de Santo Antônio já está pronto para a oferenda aos pobres da cidade. Nos palácios e nas choupanas, na cidade ou nas fazendas, reina a habitual azafama, pois ninguém deixa de festejar o dia de Santo Antonio, eis que isso constitui uma das mais antigas e arraigadas tradições de nossa terra e de nossa gente. Até mesmo nas escolas estão programadas festas de Santo Antônio, com o indefectível gengibre acompanhado de gostosos amendoim e pipoca.

Há bailes nos salões e nos terreiros. Há sortes e simpatias, pois as moças casadoiras esperam ver a silhueta do príncipe encantado ou a viagem que terão que fazer... A alegria é, de fato, contagiante nesta época festiva do calendário cristão.

Santo Antônio!

Estrelinhas, estalos, chuvas de prata, fósforos de cor, aviõezinhos, serpentes voadoras, palito chinês, rodinhas — são o embevecimento das crianças e dos adultos também.

O relâmpago dos foguetes de lágrimas, como que beijando as estrelas distantes do céu; as fogueiras nos quintais e nos terreiros, tudo, tudo são coisas que se casam com a alegria do povo na sua espontânea satisfação.

É Santo Antônio que revive hoje, como sempre, no coração e na alma do nosso povo cristão.

Que meigo e boníssimo Santo Antônio continue a espalhar as suas bênçãos e que inspire os homens a uma vida de compreensão, de bondade e de ternura.

Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.

Viva Santo Antônio!

("Pão dos pobres e lírios de Santo Antônio". A Gazeta. São Paulo, 11 de junho de 1958)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005