No Nordeste, não há festa de São João sem milho verde, fogueiras, adivinhações, sortes de casamento, inúmeras outras brincadeiras e práticas ingênuas, que fazem o encanto de moças e rapazes. Em torno da fogueira ou dos terraços iluminados pelas lanternas de papel de seda, todos os anos moças se reúnem para suas "adivinhações" de São João, com a mesma fé no futuro e os mesmos desejos ardentes de felicidade.
O tema central dessas crendices é sempre o casamento. "Casari este ano? Como se chamará o meu noivo? Qual a sua profissão? Em que cidade iremos morar depois de casados?"
Uma quadrinha do cancioneiro português diz bem das intenções das jovens nesses dias festivos:
Na noite de São João
Folga o povo a seu contento;
Mocinhas morrendo estão
De arranjarem casamento
São sempre questões de amor que as "sortes" procuram desvendar. Passemos em revista essas inocentes adivinhações, tal qual são feitas pelas moças natalenses, na véspera de São João, cotejando-as, sempre que possível, com variantes de outros estados e estrangeiro.
Sonho de São João
Sonho de São João, — ensinam as moças — é a oração poderosíssima para mostrar, no dia de São João Batista, em sonho, a pessoa com quem se há de casar. deve ser rezada na véspera, para se sonhar no dia do santo.
Uma jovem deu-me a cópia que se segue, conforme tem rezado e visto em sonho o rapaz que será o seu futuro esposo:
"Sonho do glorioso São João Batista. Meu São João Batista, vós, dormindo, sonhastes que Jesus Cristo era preso na rua da amargura. Assim como vosso sonho foi certo, e vitorioso, mostrai hoje em sonho... (e diz o que deseja ver). Rezam-se depois três Padre-Nossos e três Ave-Marias".
No artigo "São João no folclore", Luís da Câmara Cascudo divulga outra versão: "Meu glorioso São João Batista, vós dormindo quereis ver vossa Mãe Santíssima. Meu glorioso São João Batista, se este sonho for verdade, mostrai-me casas novas, campos verdes, águas claras. Se não tiver de ser, mostrai-me casas caídas, campos secos, águas turvas. Rezam-se cinco Padre-Nossos, cinco Ave-Marias e cinco Glória ao Padre.
O copo e a aliança
Amarra-se uma aliança num fio de cabelo e pendura-se este no centro da boca de um copo, sem deixar que a aliança bata nas bordas. Momentos depois, se a pessoa merece a graça de uma revelação, a aliança, por si, começa a bater nas beiras do copo. Tantas vezes bata, tantos anos faltam para aquela pessoa casar-se.
G. Studart consigna a mesma crendice no ceará, informando que o copo deve ser passado antes pela fogueira.
Os três pratos
Separam-se três pratos sobre uma mesa. Num deles, põe-se debaixo, um terço. Noutro, uma aliança. E o terceiro, ficará sem nada. Manda-se, então, uma moça, que não viu a distribuição dos objetos, revirar um dos pratos, — o que quiser. Se coincidir com o que tem a aliança, a moça casará. Se for o terço, irá ser freira. Sendo o prato sem nada, ficará no caritó...
Na variante colhida no Ceará, pelo barão Studart, põem-se três pratos desta forma: um vazio; outro, com água limpa; e o terceiro com água suja. Indicam, respectivamente: não haverá casamento; casamento com solteiro; casamento com viúvo.
Os bolos de farinha
Escrevem-se os nomes de três rapazes (ou moças) em três pedaços de papel. Depois, faz-se um bolinho de cada um, misturando-se com farinha molhada. Reza-se a Salve-Rainha até "nos mostrai". Lança-se, em seguida, os bolinhos dentro de um copo d'água. O primeiro que subir à tona verifica-se o nome que contém. Será o nome do futuro esposo ou esposa.
No Ceará, segundo G. Studart, observa-se: Deve-se deixar que o papel amanheça desenrolado. Jaime Lopes Dias recolheu idêntica experiência em Ladeira, Portugal.
A bacia e os botes de papel
Põe-se no chão uma bacia meia d'água. Cortam-se, depois, vinte tiras de papéis, cada uma com o nome de um estado do Brasil. Em seguida, colam-se os papéis nas bordas da bacia. Faz-se um bote de papel, reza-se a Salve-Rainha (até "nos mostrai") e coloca-se o bote no centro da bacia. Onde ele encostar, aí será o estado em que a moça irá morar, depois de casada.
Pingos de vela dentro d'água
Enche-se uma bacia d'água. Reza-se a Salve-Rainha até "nos mostrai". Com uma vela acesa, deixam-se que caiam alguns pingos d evela dentro d'água, até formar letras, que serão as iniciais da pessoa com quem se há de casar.
Rafael J. Sanchez e Bruno Jacovela recolheram versão argentina: "El dia de San Juan, se derrama plomo derretido en una vasija con agua; según las formas que toma el plomo, se desprende lo que se desea saber".
A clara de ovo
Dia de São João, a moça que deseja saber se casa, pega uma clara de ovo e bota dentro de um copo. No dia seguinte, assim que se levanta, vai olhá-lo. Se a clara formar desenho semelhante a uma igreja, é casamento próximo; a um cemitério, morte; a um navio, viagem etc.
É crendice muito difundida. Anotaram versões na Paraíba, Rodrigues de Carvalho; no Ceará, Leonardo Mota, G. Studart e Gustavo Barroso; em Pernambuco, Pereira da Costa e Gilberto Freire; no Rio de Janeiro, Mariza Lira. Em Portugal, Gastão de Bettencourt e Jaime Lopes Dias, acrescentando este último que usam "ovo de galinha preta", a fim de saber-se, no desenho que se formar na água, a profissão do futuro marido.
O espelho
Passa-se um espelho em cruz, sob uma fogueira. Coloca-se, depois, o espelho em cima da casa, sem olhá-lo. No dia de São João, bem cedo, a pessoa se lavanta e vai vê-lo. Dizem que se vê o rosto do rapaz (ou moça) com quem se há de casar.
A pessoa que avistar
Se a primeira pessoa que se avistar, véspera de São João, de manhã bem cedo, for uma mulher, não se casará mais este ano. Sendo homem, haverá casamento.
Na Argentina, R. J. Sanches e B. Jacovela anotaram: "El dia de San Juan, si lo primero que se ve una mujer al salir a la puerta es un hombre, se va a casar; y viceversa para el hombre".
O dente de alho
Véspera de São João, planta-se um dente de alho para se saber se o noivo ou namorado quer bem. Se no dia imediato aparecer a haste verde, é porque ele quer...
Esta é outra das experiências de São João mais conhecidas, tanto no pais quanto no estrangeiro. No Brasil, foi recolhida pelos autores citados nos seus estados e mais por Sebastião Almeida Oliveira, em São Paulo. Na Argentina, segundo os autores já mencionados, os noivos devem colocar juntos dois alhos, macho e fêmea, e, se britarem no dia seguinte, vão casar-se.
A chave
Pega-se uma chave, ao deitar, e põe-se debaixo do traveseiro. Reza-se depois a clássica Salve-Rainha, pedindo-se a São João para mostrar em sonho o rapaz (ou moça) com quem se há de casar. O rapaz que, no sonho, abrir uma porta, será o esposo no futuro.
Água na boca
Véspera de São João, póe-se água na boca e fica-se detrás de uma porta, escutando. O primeiro nome de rapaz (ou de moça) que se ouvir, será o nome do futuro namorado ou noivo.
É crendice conhecida no Brasil e em Portugal.
A flor
Antes de dormir, véspera de São João, sem falar com ninguém, a moça põe uma flor debaixo do travesseiro. reza a Salve-Rainha. O rapaz que em sonho lhe aparecer, entregando-lhe a flor, será o futuro esposo.
Gilberto Freire cita superstição semelhante, com uma espiga de milho, em lugar da flor.
A mesa-posta
Tudo que a moça comer, durante a refeição do dia, guarda um pouco. Faz jejum e, à noite, quando for dormir, preparará uma mesa ou caixote, com talheres, pratos, copos etc., como se fosse mesmo uma mesa de jantar. Para dois, bem entendido. Reza a oração de São João e pede para ele mostrar, em sonho, o rapaz com quem casará. O que aparecer, em sonho, sentado e comendo na mesa, será o futuro marido.
A propósito da crendice, conta-se que uma moça sonhou com uma bota e uma voz dizendo: "Assim como não há pé para esta bota, não há homem para esta mulher".
Amadeu Amaral, Paula Machado e Studart anotaram a superstição.
A moeda
A moça apanha uma moeda, vai à fogueira e benze-se em cruz. Guarda o dinheiro e, no dia seguinte, bem cedo, ao primeiro velho que pedir esmola, perguntará o nome dele. Será o nome do futuro marido.
No Ceará usa-se a mesma experiência no dia de Santo Antônio. Na Alemanha, — informa Sebillot, — "a jovem devia estender diante da porta um fio fiado pela primeira vez por ela e perguntar ao primeiro homem que passasse o seu nome: esse seria o de seu futuro esposo".
A canjica
Faz-se um prato de canjica e coloca-se dentro dele uma aliança. Parte-se a canjica em vários pedaços e se distribuem os mesmos com as moças presentes. A que receber o pedaço de canjica com a aliança será a que casará primeiro.
A bananeira
Arranja-se uma faca que ainda não foi usada. Junto a uma bananeira, reza-se a Salve-Rainha e enfia-se a faca no tronco. As iniciais do "escolhido" aparecerão no leite que escorre da planta.
Sebastião Almeida Oliveira, citado do G. Bettencourt, escreve: "...a mancha do tanino sobre o aço dirá na manhã seguinte o que vai acontecer. Viagem, enterro ou casamento, a maior esperança..."
Os objetos na mesa
Põe-se em cima de uma mesa vários objetos de diversos gêneros: sapatos, roupa, chapéus, livros etc. A moça, de olhos vendados, procurará tirar um deles. O que sair, por exemplo, um sapato, indicará a profissão do rapaz com quem terá de casar. No caso, um sapateiro...
Os carvões
Pensa-se num rapaz (ou moça) e lançam-se dois carvões numa bacia d'água, depois de rezar a Salve-Rainha. Se os carvões se encontrarem dentro d'água, a moça casará com ele, o seu escolhido.
As agulhas
Reza-se a Salve-Rainha e lançam-se duas agulhas, separadamente, dentro de uma bacia d'água, para saber se há de casar-se com fulano... Se tiver de casar-se, as agulhas se aproximam, até unirem-se. É adivinhação semelhante à do carvão, mudando apenas os objetos.
Manjericão no telhado
"Em noite de São João, passa-se um ramo de manjericão na figueira e atira-se ao telhado; se, na manhã seguinte, o manjericão ainda está verde, o casamento é com moço, se murcho, é com velho." (G. Studart)
O caroço de milho no pirão
Em noite de São João, faz-se pirão com um pouco de farinha e põe-se-lhe um caroço de milho; com os olhos fechados, divide-se o pirão em três porções e se coloca uma na porta da rua, outra sob o leito e a terceira na porta do quintal; se for encontrado o caroço de milho na porta da rua, é sinal de próximo casamento, se sob o leito, o casamento é demorado, se na prta do quintal, não há possibilidade de casamento. (G. Studart)
Os nós nas pontas do lençol
"Em noite de São João dão-se nós nas quatro pontas do lençol, tendo-se previamente escrito nelas os nomes de quatro pessoas queridas, mas os nós sendo bem frouxos; ao amanhecer, o nó que estiver desmanchado indicará o nome do futuro esposo ou esposa". (G, Studart)
A pimenta
"Quem, no escuro, em noite de São João, tirar uma pimenta verde, casará com moço, se encarnada, casará com velho". (G. Studart)
O reflexo na água
Quem se levantar, dia de São João, sem falar com ninguém, olhar para o fundo de uma jarra, de uma bacia ou depósito d'água qualquer, não vendo a cabeça no reflexo do líquido, morrerá antes de um ano.
Esta é uma das impressionantes superstições de São João. Vou citar um caso passado dentro da minha família, que ouço contar desde criança:
Um irmão de minha avó, Antônio Peixoto, proprietário em São Gonçalo, há muitos anos, gostava de olhar para o fundo da jarra, do dia de São João. Era homem desabusado e queria saber se a superstição era verdadeira. Um ano, então, ele olhou para o fundo da jarra e só viu do pescoço para baixo! Com o mesmo espírito folgazão, foi entrando em casa e contando o fato, que arrepiava os cabelos dos presentes. Minha avó adoeceu com a notícia. Isso aconteceu em junho de um ano muito recuado. No ano seguinte, em maio, Antônio Peixoto estava deitado numa rede, descansando, na fresca da tarde. A casa vizinha estava sendo demolida. Um dos pedreiros descobriu as telhas e falou de cima para Antônio Peixoto:
— Seu Antônio, saia dessa rede que esta parede é capaz de cair.
Você se mexeu? Assim fez meu tio avô. Nem ligou. Momentos depois, desabava a parede, matando-o instantaneamente.
Mera coincidência ou confirmação da superstição fatídica?
Gastão de Bettencourt regista a abusão, em Portugal: "Debruçam-se elas ansiosas sobre a água escura dos rios, onde os últimos revérberos das fogueiras põem ainda clarões intermitentes, fantásticos; prescrutam febris essas águas, para que elas, no seu mistério sombrio, lhes digam se viverão longamente ou se não atingirão outra noite joanina, conforme a sua imagem se refletir ou não nas águas murmurosas". A superstição inspirou um dos bons poetas brasileiros, Adelmar Tavares, citado por G. Bettencourt:
"Ela não viu a imagem na corrente
Quando no rio, em São João, foi se banhar
E voltou para a casa, descontente
Com os lindos olhos baixos, a chorar...
Morrerei o outro junho, certamente...
Como as "sortes" enganam!... "Vais casar"...
— Prima Amparo, não creia. Pode a gente
Nesta superstição acreditar?
E outro junho chegou. E ela partia
Morta, no seu caixão, magoado rosto...
O meu primeiro amor! A flor de um dia...
Por isso, quando junho vem chegando
Choro esse esquife azul, pelo sol posto
Com seis moças de branco, carregando..."
Registraram ainda a crendice, Pereira da Costa, G. Studart, Mariza Lira e, principalmente, L. da Câma Cascudo, que a estudou amplamente no ensaio "Narcissus ou o tabu do reflexo", em A República, Natal, Junho de 1948.
As quatro penúltimas superstições foram colhidas por G. Studart no Ceará. As demais foram coligidas por mim, em Natal, diretamente da tradição oral. Certamente haverá muitas outras espalhadas pelo país, à espera de quem as registe e estude.
Um ilustre amigo, já desaparecido, dr. Ezequias Pegado, tendo lido parte deste trabalho, publicado na imprensa local, indagou, num encontro de rua, se eu acreditava mesmo nessas superstições. A resposta foi a seguinte:
— Quase todas essas experiências foram feitas por minha mãe e minha esposa, quando solteiras. E o sr. conhece bem as vítimas: meu pai e eu...
Referências bibliográficas:
Dias, Jaime Lopes. Etnografia da Beira. Lisboa, Torres e cia; Livraria Ferin, 1948, v.1; 6; 7
Cascudo, Luís da Câmara. "São João no folclore". Diário de Natal. Natal, 22 de junho de 1947
Studart, Guilherme. "Usos e superstições cearenses". Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. São Paulo, Livraria Martins, 1943, p.298
Sanchez, Rafael Jijena; Jacovela, Bruno. Las superticiones. Buenos Aires, Ediciones Buenos Aires, 1939
Carvalho, Rodrigues de. Cancioneiro do Norte. 2ª ed. Paraíba do Norte, Tipografia da Livraria São Paulo, 1928
Mota, Leonardo. Violeiros do Norte. São Paulo, Companhia Grafico-Editora Monteiro Lobato, 1925
Costa, Pereira da. "Noite de São João". Folclore pernambucano. Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. São Paulo, Livraria Martins, 1943, p.278
Barroso, Gustavo (João do Norte). Terra de sol. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1930
Freire, Gilberto. Casa grande e senzala. 5ª ed. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio, 1946, v.1
Bettencourt, Gastão de. Os três santos de junho no folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Livraria Agir, 1947
Oliveira, Sebastião Almeida. "Expressões do populário sertanejo; vocabulário e superstições". Em Bettencourt, Gastão de. Os três santos de junho no folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Livraria Agir, 1947
Amaral, Amadeu. Tradições populares. São Paulo, Instituto Progresso Ed., 1948
Cascudo, Luís da Câmara. "Narcissus ou o tabu do reflexo". A República. Natal, 1948
Lira, Mariza. Festas juninas. Comunicado da CNFl, nº 29, Rio de Janeiro, 18 de junho de 1948