Hou tempo no Recife, até uns quarenta anos passados, em que os tamancos de madeira tiveram uma grand eimportância na vida da cidade. Na rua Direita, esquina com o beco de São Pedro, na rua de Hortas e em Santo Amaro haviam grandes fábricas desse artefato de uso principalmente doméstico, intitulando-se a segunda, ela própria, imodestamente, como "importante e muito produtiva", acrescentando haver no estabelecimento um enorme sortimento de tamancos tanto para homens como meninos e mulheres, "tanto para o mato como para a praça".
O tamanco, em Portugal, de onde veio, ainda é chamado de tamancas, passando a masculino ao chegar ao Brasil. Um calçado grosseiro, feito de um só pedaço de madeira como solado e tiras de couro por cima para amoldá-lo e prender nos pés. Não houvera chegado ainda a era dos plásticos com as suas sandálias, e por isso, no tempo invernoso, ou nas ruas lamacentas da velha cidade e no massapé dos engenhos-banguês era muito comum usar-se o tamanco, que não deixava passar a menor umidade. O solado dos chinelos comuns, por mais grossa e resistente que fosse a sola, em pouco tempo dentro da água embebia-se e tornava-se mole e úmido. Não raro estava-se ouvindo dentro das residências:
— Tome cuidado, menino, que você se resfria. Calce o tamanco...
Não havia desdouro no seu uso. Tanto era utilizado na casa modesta do velho Recife, como no sobrado esguio ou no palacete do comendador. Tanto nas casas-grandes dos engenhos, como nas fábricas e nos depósitos de açúcar. Tanto o bodegueiro da esquina usava o tamanco, como o chefe de família dentro do lar. Tanto o utilizava a doméstica, a molequinha, como a patroa, a senhora, a sinhazinha, ao saírem do banheiro, ao ter, nos dias de chuva, que ir ao jardim, passar ao terraço, buscar o fundo do quintal. Nas senzalas é que não tinha vez. O negro escravo preferia os pés chatos, esparramados pelo chão, livres de qualquer proteção.
Durante algum tempo, o uso dos tamancos na praça ou no interior comprovou o baixo nível econômico da maioria das populações urbanas e rurais da então província de Pernambuco, onde somente uma minoria se dava ao luxo das benfeitorias técnicas de uma civilização que já começara, no início deste século, empregando a borracha maciça em solados de sapatos, chamando-os de crepe-sólas. Para as demais famílias — médias, de operários, funcionários, pequena burguesia, remediada ou até mesmo abastada — os pesados tamancos de madeira da rua Direita, da ria de Hortas, ou de Santo Amaro eram de grande utilidade.
Haviam com os couros em cores vermelha, cinza, verde e azul, sendo alguns até com bordados desenhados. Os dois últimos eram usados por mulheres. Produziam um ruído característico ao se andar com eles dentro de casa: toc, toc, toc... ainda nos recordamos da nossa avó, senhora do engenho Paróis, em Vicência, reclamando dos netos, que enchiam a casa-grande nas férias de fim de ano:
— Sustentem os pés, seus moleques... Que cavalhada é essa?...
Mas os meninos não se perturbavam, e a barulheira continuava dentro da casa-grande, calçando todos os seus tamancos: toc, toc, toc...
Comum era ver-se também, quase sem exceção, os velhos merceeiros do Recife antigo, por trás dos balcões das suas vendas, retalhando as mantas de charque, pesando a farinha de mandioca, o feijão, retirando das latas, com uma colher de pau, a manteiga francesa Le Peletier, ou inglesa, varrendo a sala, arrumando as prateleiras, sempre calçando os tamancos, nas passadas abaixo e acima. Chegava o moleque da casa de seu Cazuza e pedia:
— Seu Manuel, sinhá mandou buscar uma quarta de carne-do-ceará.
E lá ia o merceeiro, de faca em punho, caminhando para o tripé onde estava pendurada a manta de carne seca, e produzindo o ruído característico do tamanco arrastado: toc, toc, toc...
Ah, velhos tamancos do Recife antigo, por onde andarão vocês?...