Parece que as mulheres paulistanas não podem mesmo viver sem ter o seu hobby de época. Primeiro, foi o ciclo da cerâmica e as poucas escolas dessa arte existentes na capital se viram abarrotadas de uma hora para outra, de um sem número de senhoras e senhoritas desejosas de seguir a "moda". Passado o entusiasmo inicial o movimento ceramístico foi arrefecendo, integrando-se nessa expressão de arte plástica, somente as que, de fato, possuíam pendores inatos. Surgiu depois, a "moda" da confecção de bolos artísticos, novidade para nós, propiciando o nascimento de inúmeros cursos especializados. Em pouco tempo, milhares de mulheres acabaram dominando esse trabalho até então, privativo dos confeiteiros profissionais.
Passada a época dos bolos, nova modalidade de hobby deveria ser inventada, porque as mulheres sentiam necessidade de se ocupar de algum trabalho diferente, à maneira dos garotos do bairro que, quando deixam o pião, logo começam a fazer os seus papagaios. E assim surgiu a nova "moda", a confecção de bonecas artísticas. Agora, a exemplo do que ocorre em muitos outros países, especialmente Japão, Alemanha e Itália, as mulheres paulistanas começam a se interessar por esse passatempo.
Habilidade e bom-gosto
A confecção de bonecas artísticas, que compreende, todas as suas operações, desde a modelagem do corpo até os mínimos retoques finais da indumentária, abrange todo o tipo de trabalho manual, como seja modelagem, pintura, corte, costura e bordado, cartonagem, entalhação em madeira etc.
Esse trabalho conhecido, no âmbito dos trabalhos manuais, como um slojd, vocábulo sueco que se traduz por reinação, distração, não se reveste, ainda entre nós, como em outros países, de características industriais e comerciais; constitui, simplesmente, um mero passatempo, feito no mais puro espírito diletantista, é o produto das mãos hábeis das paulistanas e se destina a enfeitar as coleções delas mesmas ou de suas técnicas.
A técnica
Uma "bonequista" hábil termina um modelo em um único dia de trabalho. A primeira operação é modelar o corpo da boneca, o que é feito a fogo, usando-se massa plástica, imitação de biscuit. Cinzéis completam a obra de modelagem. Esta operação é a que requer mais especialização, até que se consiga assimilar o sentido de proporção. Pronto o corpo, o trabalho entra em sua fase mais difícil: a escolha e confecção da indumentária, e a parte onde mais se acentua o bom gosto e conhecimento da "bonequista". Quando se trata de bonecas de outros países ou de outras épocas, especialmente antes da confecção do vestuário, há necessidade de um paciente trabalho de pesquisa e conhecimento de história e de arte, para que não se perca a autencidade. Revela-se nessa fase, em maior dose, a capacidade de iniciativa de "bonequista", como também de improvisação, para criar, dentro do espírito autêntico, uma obra que traduza a sua própria personalidade.
Os sapatinhos são feitos de madeira entalhada, couro, cortiça, tecido e cordões, enquanto que os cabelos, geralmente, são feitos de fios de seda natural ou artificial e, mesmo, de náilon. Finalmente a pintura do rosto, para a qual se usam tintas as mais variadas, óleo, aquarela, e até lápis de cor. Está pronta a boneca artística que, colocada sobre uma base de madeira, será dada de presente a uma aniversariante amiga ou irá enriquecer a coleção da "bonequista".
Onze modelos básicos
A reportagem da Folha foi conhecer um curso de bonecas artísticas que está instalado no Paraíso, na rua Tutóia, 469, sob a direção da professora Antonieta Xavier, quando uma aula se achava em pleno desenvolvimento.
— As minhas alunas — declarou — aprendem a técnica de confeccionar bonecas artísticas em dez a doze dias somente, durante os quais elas fazem as suas próprias peças, partindo dos onze modelos básicos, que são: holandês, chinês, japonês, palhaço, toureiro, ama antiga, príncipe, velhinha fazendo tricô, ancião, bailarina e a nossa regionalíssima baiana, a mais procurada pelos turistas.