Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

Dona Sebastiana é caiçara de muita arte

Dona Sebastiana, caiçara de Juqueí, reside em Guarujá há dez anos. É artista sem saber e fabrica, como ninguém, samburás, bolsas, sacolas, tapetes e até gaiolas de três andares. Tem onze filhos e muitos afazeres, mas sempre encontra tempo para atender aos inúmeros pedidos da "gente rica de São Paulo".

Seu pequeno mundo é um casebre com teto de sapé, com muita criação no quintal, um córrego para lavar roupa para fora e vegetação abundante que lhe dá sombra nas horas em que se dedica à arte. Diz ter aprendido o ofício com seus pais, por necessidade, mas se um dia dele não mais precisar para viver assim mesmo não o abandonará.

Fazer samburás, balaios, bolsas de sapé e tapetes de taboa com incrível perfeição, só mesmo para dona Sebastiana dos Santos, caiçara de Juqueí que há dez anos reside no Guarujá.

Seu pequeno mundo é um rústico casebre no quilômetro dois da estrada Guarujá-Bertioga, onde em meio a gaiolas e muita criação vive com seu marido e onze filhos.

Diz que aprendeu a arte por necessidade. Morava na pequena localidade de Juqueí e precisava ajudar seus pais, que também se ocupa com a fabricação dessas mercadorias. Para dona Sebastiana fazer tapetes, balaios ou samburás de qualquer tipo não é problema. O único problema é tempo, pois disposição para o trabalho está sobrando.

Há tempo para tudo

Dona Sebastiana diz que faz tudo sozinha, não precisa de ninguém para atender as encomendas, embora estas sejam bastante principalmente agora, início de temporada, "quando muita gente rica de São Paulo nos procura". Seu marido trabalha na construção cívil, na praia de Pernambuco e por isso não pode auxiliá-la, nem aos domingos quando aproveita o descanso para ir pescar. Com os filhos não pode contar, pois quase todos "são menores e só gostam de brincar".

Antes de explicar a arte, que considera muito fácil, dona Sebastiana faz questão de salientar que essa não é a primeira tarefa do dia. "Em primeiro lugar a casa e meus onze filhos, depois a comida, a roupa que lavo e passo para diversas famílias da redondeza, a limpeza das residências de Jardim Pernambuco, das quais sou caseira, isto feito, aí sim, procuro atender os pedidos.

O que fabrica

Tudo que dona Sebastiana fabrica expõe na beira da estrada pendurado numa pequena palhoça. É bolsa, tapete, cintos, chapéus, balaios, gaiolas, enfeites etc. Na confecção de suas mercadorias dona Sebastiana só utiliza aquilo que a natureza oferece: sapé, tabóa, bambu, cipó e uma frutinha vermelha que depois de seca fica dura como osso para fazer as vezes de fecho, botão e até mesmo como simples ornamento. Diz que se empregar artigos comprados em lojas da cidade, suas mercadorias deixarão de ser autênticas típicas. E explica que a autenticidade é a razão da procura e aceitação de tudo que fabrica.

Preços variam

Com muita franqueza, dona Sebastiana diz que seus preços, ao contrário de muito comerciante que conhece ali pelas redondezas, não variam de acordo com o freguês. Qualquer pessoa que se interessar pelos seus produtos paga apenas um preço. Mas lembra que para as encomendas o preço é a combinar. E cita um exemplo: um tapete de 2 metros por 1,5 de largura, bem trabalhado chega a custar NCr$ 60,00; um pequeno, de 0,80 cm x 0,50, apenas NCr$ 15,00.

Samburás são mais baratos, custam só NCr$ 3,00. Com indisfarçável orgulho, Silvio José dos Santos, marido de dona Sebastiana, diz que ela é a única pessoa que fabrica gaiola de três andares. "Dá para guardar um bocado de passarinho" -— diz ele exibindo vaidoso o gaiolão.

Dona Sebastiana, sempre bem humorada, está satisfeita com o ofício que escolheu e só ela é que não encontra arte naquilo que faz. É uma artista sem saber.

("Dona Sebastiana é caiçara de muita arte". A Tribuna. Santos, 07 de janeiro de 1968)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005